Organizar as contas

Carol Stange: Planejar é fácil. Difícil é se acostumar ao cheiro


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Más companhias têm um efeito curioso: com o tempo, o mau cheiro para de incomodar. No começo, a gente percebe. Dá aquele passo para trás, torce o nariz, pensa “isso aqui não está muito certo”. Depois, o corpo se adapta. O desconforto perde intensidade, vira pano de fundo e passa a fazer parte do ambiente. O cheiro continua ali. Só deixa de chamar atenção.

Com hábitos financeiros acontece algo bem parecido. Gastos excessivos, decisões impulsivas e discursos que tratam desorganização como algo normal vão entrando na rotina sem pedir licença. Não chegam com alarde. Chegam em doses pequenas, repetidas, até que deixam de parecer estranhos.

Em consultoria, vejo isso o tempo todo. Planejamentos que não travam por falta de conhecimento, nem por erros grosseiros, mas porque a pessoa está inserida em um ambiente que puxa para outro lado. As conversas, os hábitos, as referências – tudo vai afinando o ouvido para um tipo de normalidade que não conversa com o plano.

Quando o ambiente puxa para o lado errado

Planejamento financeiro exige constância. E constância não combina muito bem com barulho o tempo inteiro. É o almoço que sempre passa um pouco do combinado. A piada recorrente sobre “quem controla demais deixa de viver”. A conversa casual que transforma parcelamento em detalhe irrelevante. Nada disso é dramático. Justamente por isso funciona tão bem.

São situações comuns, repetidas, socialmente aceitas. E, pouco a pouco, o plano começa a parecer deslocado. Não errado. Só fora de contexto. Como se fosse teórico demais para a vida real.

Vejo pessoas que sabem exatamente o que precisam fazer, mas sentem que sustentar disciplina custa energia demais. O peso não é pela dificuldade técnica, mas pelo esforço social envolvido. Escolher diferente do grupo cansa. Explicar escolhas cansa mais ainda. Em algum momento, seguir o plano começa a significar isolamento.

E quase ninguém sustenta por muito tempo algo que dá essa sensação.

Dinheiro se comporta como dieta

Gosto de fazer comparação com dieta porque todo mundo já viveu algo parecido. Saber o que fazer raramente é o problema; o desafio aparece quando a vida acontece.

Tentar manter uma alimentação equilibrada cercado de gente que vive de chocolate, sobremesa e pedidos por aplicativo exige uma vigilância constante. Não é impossível, mas que é cansativo, é. E ninguém gosta de se sentir em estado permanente de alerta.

Com dinheiro, a lógica é semelhante. Falar em poupar, investir e planejar enquanto se convive de perto com quem normaliza improviso financeiro, comparação constante ou consumo por impulso desgasta a constância. Aos poucos, pequenas concessões vão sendo feitas. Nada grave isoladamente. O efeito aparece no acúmulo.

Ao longo da minha experiência com clientes, já vi inúmeros planejamentos sendo sabotados exatamente assim: várias pequenas decisões financeiras erradas sendo tomadas quase todos os dias.

O cansaço e a adaptação silenciosa

O efeito mais delicado desse processo aparece como cansaço. Um cansaço que não dá para explicar direito. Organizar dinheiro começa a parecer trabalhoso demais. Não no Excel, mas na vida real. Decidir, recusar convites, sustentar escolhas passa a exigir um esforço que parece desproporcional. E então surge aquele pensamento quase sussurrado, que a gente raramente verbaliza: talvez isso não seja para mim.

Esse pensamento não nasce da incapacidade. Ele nasce da sensação constante de nadar contra a corrente. Gastos elevados passam a parecer inevitáveis. A ausência de reserva deixa de causar urgência. Comparações reforçam a ideia de que todo mundo vive melhor, gasta mais e sofre menos.

Milhares de pessoas responsáveis, informadas, plenamente capazes abandonam o planejamento porque estão cansadas. O planejamento passa a ser associado a frustração, esforço solitário e uma sensação permanente de estar fora do lugar.

Nesse ponto, a adaptação faz seu trabalho mais silencioso. Ela não muda apenas o comportamento. Ela muda a história que a pessoa conta para si mesma. A dificuldade deixa de ser circunstancial e passa a parecer algo pessoal.

Quando o cheiro volta a incomodar

O problema nunca foi o mercado de peixe. Foi se acostumar com o cheiro.

Planejamento financeiro não se sustenta apenas com boas intenções e boas planilhas. Ele depende do ambiente em que as decisões são tomadas, das conversas que se repetem e dos hábitos que vão sendo absorvidos sem muita reflexão.

Más companhias podem, sim, boicotar o planejamento financeiro. Não por confronto direto, mas por convivência contínua. Perceber isso não exige rompimentos dramáticos nem julgamentos morais. Exige atenção.

No fim, cuidar do dinheiro também passa por cuidar do entorno. Porque, quando o cheiro volta a incomodar, ainda dá tempo de abrir a janela.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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