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Carol Stange: seu investimento “rendeu”? Depende do que o IPCA levou embora
Quando você olha para um investimento, a comparação relevante não é “quanto rendeu”, e sim “quanto sobrou depois que o IPCA passou”
Carol Stange
Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.
Você já teve aquele momento de ternura com o próprio extrato? Abre o app, vê um número maior do que mês passado, pensa “boa, eu tô indo”. Aí paga o supermercado, abastece o carro, renova o plano de saúde e percebe que o extrato estava só fazendo cosplay de vitória.
O que você ganhou: dinheiro ou poder de compra?
A inflação (IPCA) é o jeito mais educado de dizer que a vida ficou mais cara sem pedir permissão. Então, quando você olha para um investimento, a comparação relevante não é “quanto subiu”, e sim “quanto sobrou depois que o IPCA passou”.
Cena simples: você tinha R$ 100 mil. O investimento rendeu 10% em 12 meses. Você agora tem R$ 110 mil. Só que o IPCA no período foi 6%. Em termos de compra, seus R$ 110 mil compram mais ou menos o que R$ 103,8 mil compravam antes. Você ganhou, sim – mas ganhou 3,8% reais, não 10%. Parece detalhe; é a diferença entre construir patrimônio e só manter o barco flutuando.
E é aqui que mesmo investidores mais experientes tropeçam: na confusão entre rendimento nominal e rendimento real. Um número grande no extrato pode ser só um número grande.
O CDI te dá conforto. O IPCA te dá verdade
No Brasil, a gente aprende cedo a falar em CDI como se fosse idioma nativo. “Meu CDB rende 110% do CDI.” Ótimo. Só que o CDI é referência de juros; quem mede o custo de vida é o IPCA. E o que interessa para a sua vida não é o “percentual do CDI”, é se, depois de inflação e (quando aplicável) imposto, seu dinheiro ficou mais forte.
Eu organizo decisões de vida financeira sem empurrar produto – e, por isso, quando o assunto é “bater a inflação”, eu não começo pela taxa. Eu começo por três perguntas.
Você vai usar esse dinheiro quando? Se é curto prazo, liquidez e previsibilidade costumam importar mais do que heroísmo. Você consegue ver o investimento oscilar sem tomar decisões ruins? Porque “renda fixa” também tem volatilidade quando existe marcação a mercado. E o mais ignorado: o seu retorno que você está comparando é líquido? IPCA não dá desconto. IR, sim.
No fim das contas
Comparar com o IPCA é só a forma adulta de checar se você está se enganando. Porque “rendeu 10%” é frase bonita – até o dia em que você tenta comprar as mesmas coisas e não consegue. Se o retorno não aumentou seu poder de compra, ele só te deu um número maior para olhar. Número maior, você sabe… não enche a geladeira.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3