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Carol Stange: “Só vendo quando o preço se recuperar”, e a novela infinita das ações que não ressuscitam

Esperar que uma ação retome o valor de compra é uma torcida organizada silenciosa, porém insistente


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Existe um momento quase ritual – e tragicômico no melhor estilo brasileiro – na vida financeira de muita gente: abrir a carteira, olhar aquela ação que já viu dias melhores e declarar, com a convicção de quem tenta negociar com o destino: “Quando voltar ao preço que eu paguei, eu vendo.”

É uma frase acolhedora, quase uma autoajuda financeira improvisada. Pena que o mercado não participa dessa ilusão coletiva.

O preço de compra como corrente invisível

O mais curioso é que esse apego raramente tem relação com fundamentos. É afeto financeiro puro. O preço de entrada vira lembrança emocional – como aquele presente da tia-avó que você não usa, mas mantém por educação. No mercado, porém, educação demais costuma custar caro.

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Em consultoria, já encontrei carteiras que pareciam caixas de memorabilia: ativos guardados não por utilidade, mas por nostalgia. A aversão à perda transforma o preço de compra numa espécie de amuleto. O investidor segura o papel como quem insiste em um guarda-chuva que não fecha e não abre, mas “ainda serve”. Não serve.

E, do ponto de vista técnico, há uma verdade elegante e dolorosa: o mercado não está nem um pouco interessado em quanto você pagou. Essa é uma dor privada. O ativo não manda mensagem consoladora às três da manhã dizendo: “calma, estou voltando.” Seria gentil… mas não acontece.

O custo de oportunidade – esse personagem injustiçado

Enquanto o investidor espera o “zero a zero redentor”, o dinheiro fica confinado num ativo cansado, que já não entrega perspectiva. É quase poético – se poesia pagasse dividendos.

O custo de oportunidade, sempre discreto, tenta nos avisar: se esse capital estivesse em outro lugar, talvez já estivesse crescendo em paz. Mas ele não levanta a voz; apenas observa a cena, paciente como quem sabe que poderia brilhar, se lhe dessem chance.

E algo curioso acontece quando o investidor finalmente entende que vender não é apagar o passado, mas escolher um futuro mais promissor. A pergunta deixa de ser “quando volta?” e passa a ser “faz sentido continuar?” – e essa transição tem um poder silencioso de organização mental.

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O apego ao prejuízo – e a fé na volta miraculosa

Esperar que um ativo retome o valor de compra é uma torcida organizada silenciosa, porém insistente. O gráfico sobe meio centímetro: “Agora vai.” Não vai. Desce dois: “É só fase.” Não é.

Já acompanhei clientes tão comprometidos com a ideia de recuperação que já tinham esquecido o motivo original da compra. A tese virou promessa – e promessa, no mercado, tem o mesmo valor de previsão de horóscopo: conforta, mas não orienta decisão séria.

O detalhe irônico é que a resistência em vender costuma aumentar justamente quando a venda se torna a decisão tecnicamente mais racional. Mas racionalidade não rende troféu emocional. E o ego, coitado, gosta de troféus.

Ainda assim, vender não é derrota. É profissionalismo emocional. É admitir que a estratégia vale mais do que o orgulho.

Quando “esperar voltar” deixa de ser esperança e vira obstáculo

A crença de que “um dia recupera” tem charme de mitologia financeira. Mas mitologia não constrói patrimônio. Fundamentos, sim.

Quando não há perspectiva, insistir vira teimosia com requinte. E o portfólio se transforma numa prateleira de expectativas vencidas. Expectativa vencida, como comida esquecida na geladeira, raramente melhora com o tempo.

A técnica, sempre mais discreta do que a esperança, sugere um caminho menos dramático: rever a tese, ajustar o rumo e realocar recursos para onde existe vida – não nostalgia.

Checklist para driblar a armadilha emocional

Antes de manter um papel negativo só para não “realizar a perda”, experimente três perguntas simples:

Se eu não tivesse esse ativo hoje, compraria agora?
Meu dinheiro teria uma vida mais interessante em outra estratégia?
Estou esperando uma melhora fundamentada – ou apenas fugindo da sensação de errar?

Respostas sinceras clareiam decisões com mais eficácia do que qualquer gráfico colorido.

Quando aceitar a perda vira, ironicamente, o maior ganho

Segurar papéis negativos esperando redenção é como adiar uma conversa difícil: o incômodo cresce, mas a solução não. Vender um ativo sem perspectiva é libertar o portfólio – e o investidor – para escolhas mais inteligentes.

O mercado não devolve o passado. Mas oferece, todos os dias, futuros novos o bastante para compensar desapegos tardios.

No fim, o investidor não precisa de heroísmo.

Precisa apenas da coragem tranquila de deixar ir o que já não cresce – e do bom humor necessário para rir um pouco da própria teimosia enquanto abre espaço para decisões mais sábias.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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