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Carol Stange: Tesouro Renda+ na aposentadoria. Essa conta fecha mesmo? 

O planejamento para a aposentadoria exige olhar para diversos fatores diferentes


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Existe um otimismo muito específico que só aparece quando a calculadora abre antes do café: “Se eu juntar R$ 500 mil, dá pra tirar quanto por mês na aposentadoria?”. A conta sai rápida, o resultado parece comportado e, de repente, a cabeça já está numa varanda imaginária – com café coado e zero boletos. 

O problema é que essa pergunta é educada demais. Ela pergunta “quanto”, mas evita a parte indelicada: por quanto tempo. E é justamente quando você sai do período de acumulação e entra no período de uso que o planejamento deixa de ser bonito e vira cotidiano: consulta médica, conserto do carro, um filho que volta a precisar, um condomínio que decide “modernizar” a portaria. E, claro, uma inflação que não combina com a sua planilha. 

A parte difícil não é juntar. É não errar a mordida. 

Na fase de acumular, o risco parece óbvio: volatilidade, crise, bolsa despencando, Selic mudando de humor, CDI sendo tema de conversa que ninguém pediu. Só que, na aposentadoria, o risco mais cruel é mais silencioso: o dinheiro acabar antes de você terminar de viver

Se você “morde pouco”, pode sobrar – o que é ótimo, e sobrar é ótimo, mas nem sempre a pessoa gostaria que isso acontecesse. Se você “morde muito”, o patrimônio vira um relógio, e a liberdade financeira passa a ter prazo de validade. 

É nessa ansiedade que o Tesouro Renda+ chama atenção. Ele é uma ferramenta do Tesouro Direto feita para transformar patrimônio em renda com um trilho mais previsível, indexado ao IPCA. A promessa é tentadora: menos improviso, mais fluxo. 

Onde o Renda+ funciona bem – e onde ele te cobra pelo conforto 

A lógica é simples (e simplicidade costuma ser perigosamente sedutora): você passa um período acumulando e, a partir de uma data, começa a receber uma renda mensal por um prazo definido, corrigida pela inflação. 

Quer um exemplo que parece conversa de almoço de domingo? Você mira R$ 5 mil por mês por 20 anos. Dependendo do preço do título e da taxa real no momento da compra, a ordem de grandeza do patrimônio necessário pode ficar perto de R$ 800 mil a R$ 1 milhão. Você faz a conta, respira e pensa: “Ok. Agora é correr atrás.” 

Só que o “só” é sempre uma palavra perigosa. 

No usufruto, o Renda+ tende a te proteger pela inflação medida (IPCA), mas não foi desenhado para expandir patrimônio. Você mantém poder de compra na média do índice, que é de meros 4% ao ano, em média. E o seu custo de vida não vive na média. Ele mora no seu bairro, no seu plano de saúde, no mercado que você frequenta, no tamanho da sua família e no tipo de vida que você quer manter. 

O que muda (e o que não muda) 

O que não muda: previsibilidade é confortável. E, em finanças, conforto costuma ter preço. 

Então, antes de tratar o Renda+ como “a solução”, eu prefiro três critérios simples – e pouco românticos: 

  • Inflação pessoal vs. IPCA: seu padrão de vida costuma subir mais do que o índice? Se sim, renda “corrigida” pode virar renda apertada. 
  • Liquidez vs. trilho: você aguenta ficar no trilho até o fim? Porque sair no meio pode significar vender a mercado, e aí o previsível vira imprevisto. 
  • Renda ou renda + crescimento real: você quer só fluxo ou também um motor de crescimento (dividendos, estratégias de reinvestimento, um pedaço em ativos de risco com método)? 

Esse é o ponto em que alguém diz: “Mas eu queria algo seguro”. Eu entendo. Só não confunda seguro com suficiente. 

A conta que fecha é a do seu padrão de vida 

O Tesouro Renda+ pode ser uma peça excelente para compor um piso de renda real – especialmente para quem dorme melhor com previsibilidade e detesta improviso. O erro é transformá-lo em protagonista absoluto. 

Aposentadoria que dura costuma ser mistura: um pedaço em renda indexada ao IPCA, outro em instrumentos que paguem dividendos, outra parte em ativos que busquem crescimento real (com diversificação, não com bravata), e uma dose de liquidez para a vida não te obrigar a vender no pior momento. 

No fim, a pergunta “essa conta fecha?” raramente é sobre matemática. É sobre você não descobrir, tarde demais, que comprou previsibilidade achando que estava comprando a aposentadoria completa. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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