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Carol Stange: Tesouro Selic ainda vale a pena se a Selic começar a cair?

O Tesouro Selic não foi desenhado para ser o campeão do ciclo; ele foi desenhado para ser piso firme


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Todo ciclo de juros tem o mesmo roteiro emocional: quando a Selic está alta, a renda fixa vira “a escolha óbvia”; quando começa a aparecer a palavra corte, o investidor olha para o Tesouro Selic como quem olha para um guarda-chuva num dia nublado – útil, mas já não dá aquela sensação de vitória.

A Selic ainda não caiu. Está em 15,00% ao ano (decisão do Copom de janeiro). E as projeções do mercado no Focus já sinalizam um caminho de queda mais à frente – com mediana de 12,13% no fim de 2026. É aqui que nasce a pergunta: “coloco no Tesouro Selic agora ou ele deixa de fazer sentido em 2026?”

Só que “fazer sentido” é menos sobre taxa e mais sobre função.

O Tesouro Selic não é para “ganhar do vizinho”, é para “não te deixar na mão”

Como planejadora financeira, eu vejo um padrão recorrente: a pessoa quer que a reserva de emergência renda como investimento de longo prazo – e, de quebra, se comporte como saldo em conta corrente. Quando isso não acontece, ela conclui que o produto “não presta”. Na verdade, ela só colocou o dinheiro na gaveta errada.

O Tesouro Selic costuma cumprir três funções que não viram print no grupo, mas salvam decisões: liquidez, previsibilidade e simplicidade. Ele é um pós-fixado que acompanha a taxa básica de juros (via Selic), com baixa volatilidade para quem usa do jeito certo – isto é, sem tratar cada oscilação diária como sinal do apocalipse. E, sim, pode existir uma variação pequena no curto prazo por marcação a mercado, mas o susto geralmente vem mais da expectativa de “linha reta” do que do tamanho da oscilação.

Se a Selic cair, ele vai render menos? Vai. Isso não é defeito; é definição.

A pergunta que não muda, mesmo quando a Selic muda

Quando a taxa está prestes a virar, o cérebro tenta “resolver o futuro” com um movimento: trocar, migrar, antecipar. Às vezes isso vira a troca do guarda-chuva por uma capa que prometeram ser mais moderna – e tudo bem, desde que você não faça isso porque ficou com vergonha de estar de guarda-chuva.

Antes de mexer no Tesouro Selic, vale um micro-roteiro (bem repetível, bem humano):

  1. Esse dinheiro é reserva (eu posso precisar a qualquer momento) ou é objetivo (tem prazo)?
  2. Eu preciso de liquidez de verdade ou só estou caçando um número maior que o CDI?
  3. Eu entendo o custo de sair e entrar? (IR regressivo continua existindo; IOF pesa se você resgata com menos de 30 dias.)

Repare como nenhuma dessas perguntas depende de prever o Copom. Elas dependem de conhecer a sua vida.

O que muda quando a Selic cai – e o que não muda

Quando os juros começam a recuar, muita gente descobre que estava usando “renda fixa” como sinônimo de “rendimento alto”. A queda da Selic só revela isso. O Tesouro Selic não foi desenhado para ser o campeão do ciclo; ele foi desenhado para ser piso firme. Se você tem uma parte do dinheiro com prazo, ótimo: ela pode buscar outras estratégias. Mas a parte sem prazo – a que protege suas escolhas – não deveria entrar em modo esportivo só porque o placar (a taxa) mudou.

Um guarda-chuva que você não compra pelo design

Se a Selic começar a cair em 2026, o Tesouro Selic pode perder o brilho de “queridinho do momento”. E ainda assim continuar valendo a pena – porque ele não foi escolhido para brilhar, foi escolhido para funcionar. O guarda-chuva bom é o que você esquece na bolsa… até a primeira chuva. E, em finanças pessoais, essa é uma qualidade mais rara do que parece.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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