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Carol Stange: Mexer na carteira não antecipa eleição

O mercado não reage depois da eleição. Ele precifica antes. Cada pesquisa, cada declaração de campanha, cada rumor sobre agenda econômica já entra no preço


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Se você já se pegou pensando em mexer nos investimentos por causa das eleições, não está sozinho – está apenas sendo humano em um ambiente que sabe explorar exatamente isso. 

A bolsa brasileira – o Ibovespa – subiu mais de 30% em 2025. As projeções para 2026 flertam com os 200 mil pontos. E, como se não bastasse, entramos em ano eleitoral. Pronto: o cenário perfeito para a mistura que mais confunde o investidor – euforia recente com medo antecipado. 

Você está investindo ou tentando adivinhar? 

Todo ano eleitoral produz a mesma cena: o investidor que passou doze meses construindo uma carteira com critério decide, em maio, que sabe quem vai ganhar a eleição de outubro. E mais: que sabe como o mercado vai reagir. E mais ainda: que vai agir antes de todo mundo 

Outro dia, um cliente me disse: “Se tal candidato ganhar, a bolsa cai. Melhor reduzir agora.” Eu sei que parece prudente, mas na prática é uma aposta travestida de estratégia. Porque, para isso funcionar, ele precisaria acertar quem ganha, como o mercado reage a esse resultado e ainda chegar antes dos outros. 

Três acertos em sequência. É pedir demais até de quem vive disso. 

Enquanto isso, o que deveria guiar a carteira – taxa de juros como a Selic, inflação medida pelo IPCA, prêmio de risco, horizonte de investimento – fica em segundo plano. 

O mercado não espera o resultado 

O mercado não reage depois da eleição. Ele precifica antes. Cada pesquisa, cada declaração de campanha, cada rumor sobre agenda econômica já entra no preço antes de virar manchete. Quando o resultado sai, o movimento frequentemente surpreende – não porque o mercado é irracional, mas porque já havia se antecipado. 

Em 2022, o Ibovespa oscilou com violência nos meses pré-eleitorais. O Tesouro Prefixado longo chegou a superar 14% ao ano nas semanas de maior incerteza – uma janela que quem ficou “esperando clareza” viu fechar antes de conseguir entrar. Nos doze meses seguintes, o índice subiu de forma consistente. Em 2018 foi igual, com polarização ainda maior. 

Ciclos políticos geram ruído. Fundamentos geram retorno. Essa sequência raramente se inverte.  

Não é raro ver o investidor vender com medo… e assistir à bolsa subir depois. 

O custo que ninguém coloca na planilha 

Mexer na carteira parece ação. Dá aquela sensação satisfatória de controle – de que você está fazendo algo enquanto o noticiário ferve. Mas o problema é que esse movimento tem custo real. 

Cada realização de lucro em renda variável significa 15% a 20% de IR saindo da carteira. Se você saiu de uma ação que valorizou 40%, pagou entre 6 e 8 pontos percentuais de retorno acumulado para ficar sentado em caixa – esperando uma clareza que o mercado raramente entrega com hora marcada. 

Fora o imposto, tem o que fica para trás: empresas de energia elétrica e saneamento pagaram dividend yield médio acima de 6% ao ano nos últimos três anos, independente de governo ou reforma tributária. Quem saiu dessas posições para “esperar passar a eleição” pagou para não receber. E ainda assumiu o risco de reentrar mais caro.  

O que realmente muda – e o que não muda com as eleições

Claro que eleições importam. Elas afetam as expectativas fiscais, as reformas, a trajetória da dívida. Mas não mudam os princípios básicos de construção de patrimônio. 

Uma carteira bem estruturada sustenta três características mesmo quando o noticiário está em fúria: não concentra risco disfarçado de diversificação, respeita o prazo real de cada posição e não trata volatilidade como sinal de que algo está errado. 

Se a sua carteira depende de um resultado eleitoral específico para fazer sentido, vale um desconforto honesto: o problema não está na eleição. 

A carteira que sobrevive ao noticiário 

Investir bem não é prever o próximo governo. É sobreviver a vários. 

O Brasil já atravessou dois impeachments, crises cambiais, pandemia, três regimes fiscais diferentes em menos de dez anos. O mercado de capitais continuou existindo, empresas continuaram distribuindo dividendos, títulos públicos continuaram sendo honrados. Nenhum desses episódios encerrou o jogo. Apenas mudou o humor do caminho por um tempo. 

O problema é quando o investidor olha para a própria posição e ela começa a parecer grande demais, exposta demais, errada demais – mesmo sendo a mesma de meses atrás. A decisão de movimentar os ativos vem para aliviar isso. E quase nunca melhora a carteira.  

Até resolve, por alguns dias, a sensação de estar fazendo alguma coisa. Depois passa. E a carteira precisa ser montada de novo – geralmente mais cara, mais curta, mais insegura. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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