Organizar as contas

O dia em que o banco ligou oferecendo um presente; e como esse presente saiu caro


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


Você já recebeu aquela ligação em que o gerente, com voz animada, começa dizendo: “Tenho uma novidade exclusiva para você”? Pois é. Certa vez, um cliente me contou que atendeu uma dessas chamadas e saiu da conversa se sentindo especial, com a impressão de que tinha acabado de ganhar um presente.

O banco oferecia um cartão de crédito premium, com anuidade grátis nos primeiros dois anos, acesso a salas VIP em aeroportos e um limite generoso “compatível com seu perfil”. A única condição? Manter um gasto mínimo mensal no cartão para garantir a manutenção dos benefícios.

Ele aceitou na hora. Afinal, quem não gosta de se sentir VIP?

O presente com etiqueta escondida

Nos meses seguintes, a rotina mostrou o outro lado do “presente”. O cartão trouxe junto uma enxurrada de gastos extras para que a fatura sempre ficasse dentro do mínimo estabelecido: restaurantes um pouco mais caros, viagens fora do orçamento e compras não planejadas que pareciam inofensivas.

Por alguns meses, o orçamento até aguentou esse ritmo inflado. Mas, ao longo do ano, a corda começou a apertar. E, quando ele tentou cancelar, percebeu que já estava preso ao estilo de vida que aquele cartão ajudara a criar. Não queria mais abrir mão da sala VIP, do status de ter um cartão “diferenciado” nem do conforto psicológico de se sentir reconhecido como um cliente especial.

O presente, no fim das contas, saiu caro. E aí vem a parte mais difícil: quem está disposto a dar dois passos atrás no padrão de consumo? Fazer downgrade dói mais do que admitir o erro.

O que parece privilégio pode ser estratégia

Ao longo de mais de 15 anos atendendo investidores, já vi essa história se repetir muitas vezes. Não é que os bancos estejam enganando o cliente – eles oferecem um produto real, com benefícios reais. Mas esses benefícios são cuidadosamente desenhados para estimular consumo, fidelizar e aumentar o relacionamento bancário.

A lógica é simples: se você passa a concentrar gastos, contratar seguros, usar pontos e ampliar limites, o banco ganha em várias frentes. Enquanto isso, o cliente se sente valorizado… até perceber que a conta final nem sempre compensa.

O que aprender com isso

Nem sempre o que vem embalado como privilégio é, de fato, um ganho. Por isso, antes de aceitar o próximo “presente”, faça três perguntas simples:

  1. Eu usaria esse benefício mesmo se tivesse que pagar por ele?
  2. Esse produto melhora minha vida financeira ou apenas meu estilo de consumo?
  3. Se amanhã a condição promocional acabar, eu ainda quero manter isso na minha rotina?

A lição final

No mundo financeiro, não existe almoço grátis – e muito menos presente desinteressado.

O que parece vantagem imediata pode ser apenas uma forma de captura de longo prazo. No fim, o verdadeiro privilégio não é um cartão diferenciado ou um limite maior. É ter clareza para dizer não quando o presente não faz sentido para a sua vida financeira.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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