Investir melhor

O que é a regra dos 4% para a aposentadoria – e por que, no Brasil, ela falha no primeiro ano ruim?


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


A regra dos 4% é o tipo de ideia que dá alívio instantâneo. Um percentual, um patrimônio, uma sensação de que o futuro aceitou ser organizado. Aí alguém pergunta: “Funciona no Brasil?”

Funcionar, funciona. O ponto é quando você vai descobrir o que essa regra exige de você.

Pare de tratar a regra dos 4% como lei e comece a olhar a ordem dos retornos

A ideia é conhecida: retirar algo como 4% ao ano do patrimônio, corrigir pela inflação, e seguir por décadas. Só que essa conta vive num mundo em que o retorno chega bem distribuído, como se o mercado tivesse compromisso com o seu planejamento.

Na vida real, o mercado entrega o que quer, na ordem que quer. E a ordem importa mais do que a média.

Se os primeiros anos do seu período de retiradas coincidirem com um ciclo ruim, você começa a aposentadoria do jeito mais ingrato possível: vendendo parte do patrimônio num momento em que ele está barato – porque boleto não negocia.

A cena que decide o seu futuro (e quase ninguém olha de frente)

Imagine R$ 2 milhões e uma retirada de R$ 80 mil por ano. Agora coloque um primeiro ano com a carteira caindo 20% e o IPCA pressionando. Você continua precisando do dinheiro para viver – e, para manter o padrão, precisa reajustar esse valor.

De repente, “4%” deixa de ser uma taxa elegante e vira uma pergunta incômoda: 4% de um patrimônio que encolheu… quanto? E por quantos meses ou anos seguidos?

A imagem que eu uso com clientes é menos atlética e mais honesta: é como fazer compras no mercado quando o preço de tudo subiu e você decidiu que vai levar a mesma sacola de sempre – só que sua carteira (a de dinheiro mesmo) resolveu ficar menor naquele mês.

E tem um tempero que bagunça ainda mais: inflação pessoal. O IPCA é uma média. Se no seu orçamento saúde, escola, condomínio e supermercado pesam mais do que “a média do país”, sua inflação pode ficar bem acima do número do IBGE – e isso mexe diretamente no quanto você precisa retirar para a vida continuar parecida.

Em consultoria, eu não “aplico” os 4%. Eu coloco a regra em condições reais

Quando alguém insiste na regra como ponto de partida, eu costumo fazer três ajustes – não para deixá-la perfeita, mas para deixá-la menos ingênua:

  1. Um colchão de anos previsíveis: separar alguns anos de despesas em algo estável, para você não ser obrigado a vender na baixa. Isso não aumenta retorno. Diminui a chance de você se sabotar no pânico.
  2. Liberdade para gastar menos quando o mundo aperta: um plano que não tolera redução temporária de gastos não é plano; é uma aposta disfarçada.
  3. Reajuste com inteligência, não no automático: corrigir tudo por 100% do IPCA pode ser pesado em certos ciclos – e pode nem refletir sua inflação pessoal. Às vezes, “manter padrão” significa ajustar com atraso, em degraus, e não em linha reta.

Repare como esses ajustes têm pouco de mercado e muito de comportamento. É isso que sustenta o plano quando a teoria não aparece para te consolar.

O que realmente importa

A discussão não é se 4% “funciona no Brasil” em média. A discussão é se você consegue atravessar o ano ruim sem transformar um método em motivo para desistir.

Porque a regra não falha na planilha. Ela falha na sua reação quando a planilha deixa de parecer confiável.

Se você investe sozinho, meu conselho de amiga

Use os 4% como régua, não como promessa. Uma régua ajuda a medir. Promessa vira cobrança.

Aposentadoria não deveria depender de o mundo colaborar. Ela deveria aguentar o mundo quando ele faz exatamente o contrário – e ainda assim te deixar com uma coisa rara: a liberdade de não precisar provar nada, nem para a própria planilha.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

Quer analisar todos os seus investimentos em um só lugar, em uma plataforma intuitiva? Baixe o APP B3