Organizar as contas
Carol Stange: Quando o dinheiro vira professor – e a lição chega antes da vontade
Ao longo da minha experiência, já vi pessoas transformarem completamente sua relação com o dinheiro quando deixaram de tratá-lo como um adversário
Carol Stange
Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.
Existe um momento específico em que o dinheiro resolve nos educar sem pedir licença: geralmente, quando abrimos o extrato com a mesma esperança de quem abre a geladeira à meia-noite – sabendo que nada mudou, mas torcendo por um milagre. É nesse instante que percebemos que, gostemos ou não, o dinheiro ensina. E, para piorar, ele costuma iniciar a aula justamente quando achamos que já estamos formados.
O custo invisível das pequenas negações
Sempre me intrigou como conseguimos justificar comportamentos que, por dentro, sabemos que terão um preço. Em consultoria, observo que a frase “não é tão grave assim” costuma ser o prelúdio de um futuro “como cheguei aqui?”. As pequenas concessões – aquelas que juramos que não machucam – vão se acumulando até virar um tropeço maior do que gostaríamos de admitir.
Aqui em casa, costumo dizer aos meus filhos que é melhor aprender pelo amor do que pela dor. Eles já sabem que essa frase aparece em momentos estratégicos: antes de pularem do sofá, antes de brigarem entre si e, claro, antes de ignorarem qualquer alerta que já viram dez vezes. Pais se reconhecem facilmente nessa cena. A vida manda recados suaves antes de mandar avisos em caixa alta.
O dinheiro também. Ele dá sinais. Primeiro em tom de “olha, presta atenção”, depois em “eu avisei”. Só que, como bons adultos treinados na arte de subestimar o óbvio, às vezes nos comportamos exatamente como uma criança que já sabe que vai cair – mas vai assim mesmo.
O amor como método de aprendizado financeiro
Falar em aprender “pelo amor” no contexto financeiro é quase subversivo. Não parece linguagem de números, mas de vínculos. E é justamente por isso que funciona. Amar, aqui, significa assumir a responsabilidade de olhar para o próprio padrão financeiro sem culpa, sem drama e sem a fantasia de que disciplina é sinônimo de privação.
Ao longo da minha experiência, já vi pessoas transformarem completamente sua relação com o dinheiro quando deixaram de tratá-lo como um adversário. Quando o planejamento vira autocuidado – e não penitência – a aprendizagem acontece com naturalidade. É o momento em que percebemos que entender as próprias escolhas dói menos do que fugir delas.
As dores que poderiam ser evitadas
Quando decidimos aprender só depois que “dói”, acabamos promovendo o dinheiro ao cargo de professor severo. E ele cumpre o papel: juros acumulados, oportunidades perdidas, patrimônio corroído pela inflação. É uma didática eficiente, sem dúvida – mas raramente gentil.
E a dor financeira nunca é apenas sobre números. Ela pesa na autoestima, tensiona relacionamentos, constrói narrativas de incapacidade e, muitas vezes, afasta pessoas de projetos perfeitamente possíveis. A dor ensina, sim, mas sua taxa de matrícula é alta.
O luxo de aprender com o dinheiro antes da emergência
Há um privilégio silencioso – e raramente celebrado – em aprender antes que a vida exija pressa. Aprender pelo amor é isso: conceder a si mesmo tempo, clareza e intenção. É organizar o que precisa ser organizado antes que vire urgência. É interpretar sinais discretos antes que eles virem sirenes.
A abundância, no fim das contas, não é sobre sobra: é sobre margem. Margem para pensar, ajustar, respirar, escolher.
Volto àquela imagem do extrato aberto em busca de milagre. Se não quisermos aprender por bem, o dinheiro ensinará do mesmo jeito – só que com mais juros embutidos, literalmente e metaforicamente. Mas, quando escolhemos aprender antes, o planejamento deixa de ser castigo e passa a ser consciência.
A aula sempre chega. O que muda é o quanto pagamos para assisti-la.
*As opiniões dessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3