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Carol Stange: Viver de renda. O ‘quanto’ vem depois do ‘como’ 

Quando alguém diz “viver de renda”, geralmente mistura três coisas na mesma frase: juros, renda real e variável


Carol Stange, colunista Bora Investir. Fonte: Arquivo pessoal.

Carol Stange

Planejadora financeira e consultora independente de investimentos, Carol Stange atua como multiplicadora do programa “Eu e meu dinheiro” do Banco Central e acumula as certificações CEA (Anbima) e CNPI-T (Apimec), além de ser Consultora CVM, criadora da marca “Como enriquecer seu Filho” e cofundadora do Instituto de Educadores Financeiros.


A pergunta costuma chegar com uma urgência educada: “Carol, quanto eu preciso ter investido para viver de renda?” – ou, na versão mais direta que o Google adora, “quanto preciso investir para viver de renda”. Como se existisse um número oficial, daqueles que encerram a ansiedade e pronto: você finalmente para de recalcular a vida no meio do banho. 

Eu entendo. Um número dá sensação de chão. Quando eu digo “número confortável”, não é um valor mágico: é aquele valor que permite você olhar para o mercado em um mês ruim e ainda assim dormir, porque seu plano não depende de acertar o humor da semana. 

O problema é que o que define esse conforto não está só no patrimônio. Está no seu custo de vida, na sua tolerância à volatilidade e naquele hábito bem humano de gastar mais quando se sente mais seguro. 

É renda de quê, exatamente? 

Quando alguém diz “viver de renda”, geralmente mistura três coisas na mesma frase: 

  • Juros (Selic/CDI), que ajudam muito na estabilidade, mas variam ao longo do tempo. 
  • Renda real (IPCA + alguma coisa), que tenta proteger o poder de compra no longo prazo. 
  • Renda variável (ações na bolsa de valores), que pode incluir dividendos – e que oscila, porque é assim que bolsa funciona. 

Um exemplo que não te deixa mentir 

Vamos supor um custo de vida de R$ 12 mil por mês (R$ 144 mil por ano). Se você quer tirar isso do patrimônio sem se destruir no processo, precisa decidir o quanto desse saque vem de algo mais estável (um pedaço em Tesouro Direto pós-fixado, por exemplo) e o quanto pode oscilar. 

A conta “de guardanapo” que circula no mercado financeiro é simples: se você sacar algo como 4% ao ano, precisaria de cerca de R$ 3,6 milhões (144 mil ÷ 0,04). Parece objetivo. Só não é definitivo. 

Porque a vida não saca “na régua”. A vida saca quando o carro quebra, quando alguém adoece, quando você cansa. E porque retorno não vem em linha reta: uma sequência ruim no começo do período de saques machuca mais do que a maioria das simulações admite. 

O critério que fica 

Antes de perseguir “o número”, eu prefiro fazer três perguntas aos investidores que tiram o plano do abstrato e colocam no chão: 

  1. Meu custo de vida é fixo ou elástico? Se ele cresce junto com a renda, seu número foge na mesma velocidade. 
  1. Eu quero estabilidade ou aceito oscilação? Se você não tolera ver o patrimônio cair, depender de bolsa (mesmo com dividendos) vira sofrimento. 
  1. Qual parte precisa acompanhar IPCA? Aposentadoria é longa. Ignorar inflação costuma sair caro. 

O número certo é o que conversa com o seu estilo de vida 

Viver de renda não é um marco que você cruza e pronto, acabou o esforço mental. É um arranjo: um pouco de Selic/CDI para estabilidade, uma parte indexada ao IPCA para proteger o poder de compra, e – se fizer sentido – exposição à bolsa para crescimento e longevidade do patrimônio. 

O número que você quer só aparece quando você aceita responder a pergunta que vem antes: não “quanto eu preciso”, mas que vida eu estou tentando sustentar sem me tornar refém dela. Quando isso fica claro, o dinheiro para de ser meta abstrata e vira ferramenta. E ferramenta, diferente de sonho, dá para calibrar. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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