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Clube FII: FIAGRO, as manchetes negativas e o desconforto dos números que insistem em dar certo
Clube FII
Clube FII é o maior ecossistema de Fundos Imobiliários do Brasil, com foco em análise, acompanhamento e organização do portfólio do investidor. Conta com um time dedicado de research que produz conteúdos, relatórios e ferramentas práticas, ajudando investidores a tomar decisões mais claras, consistentes e alinhadas aos diferentes ciclos do mercado.
Por Danilo Barbosa, Head de Research do Clube FII
Se você acompanha notícias sobre agronegócio ou FIAGRO, provavelmente está pensando: “Tem algo errado no agro…”.
As manchetes, vídeos, conteúdos em rede social ajudam. Crise, quebra, dificuldade, recuperação judicial, alerta, risco, problema no campo. O roteiro é quase sempre o mesmo.
Agora, pare um segundo e responda com honestidade: essa percepção vem dos números ou do tom das notícias?
Esse texto nasce exatamente desse desconforto. Porque quando a narrativa grita caos, mas os dados reais seguem andando para frente, alguém está lendo a história pela metade.
Mas vamos logo ao levantamento…
Recentemente, fiz um levantamento sobre como o agronegócio e os FIAGROs apareceram no noticiário e nos conteúdos digitais de 2025.
Foram mais de 500 conteúdos analisados, entre notícias e vídeos, todos publicados em 2025, sempre em veículos de grande audiência e criadores com alcance relevante.
O objetivo não era provar tese alguma. Era simples: medir o sentimento dominante. Positivo, negativo ou neutro. E o resultado chama atenção.
Quando consolidados os dados apenas das notícias publicadas, o resultado foi este:
- 63% das matérias com viés negativo
- 21% positivo
- 16% neutro ou apenas informativo
Ou seja, quase dois terços do que o investidor médio consome sobre agro e FIAGRO chega com um tom de problema, risco ou alerta.
Até aqui, nada muito surpreendente. O ponto decisivo vem depois.
Olhe para os números…
Quando pedimos as mesmas análises destacarem dados objetivos do agronegócio brasileiro, nas mesmas notícias o cenário muda completamente.
Os números que aparecem com recorrência são estes:
- Exportações acima de US$ 170 bilhões
- Safra recorde, acima de 352 milhões de toneladas
- Crescimento do PIB do agro em torno de 9,6%
- Geração de cerca de 28,5 milhões de empregos
- Superávit da balança comercial superior a US$ 149 bilhões
E quando surgem notícias sobre recuperações judiciais, que de fato existem, elas representam cerca de 0,1% das empresas do setor.
Aqui começa o incômodo. Como um setor que sustenta esses números carrega, ao mesmo tempo, uma percepção quase permanente de crise?
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E o pior de tudo.. O viés não está só nas manchetes…
A mesma lógica se repete nos vídeos. Foram analisados 200 vídeos, com alcance somado superior a 45 milhões de visualizações.
O viés é praticamente idêntico ao do noticiário:
- 62% negativos
- 12% positivos
- 26% neutros
Mais um detalhe relevante: quando se lê as notícias positivas, cerca de 90% delas citam dados, estatísticas e números concretos.
Nas negativas, apenas duas utilizavam dados objetivos. E mesmo assim, de forma pontual, sem contexto e sem dimensão do impacto real.
A pergunta que fica é: por que o discurso negativo quase nunca anda junto com números completos?
Notícia ruim informa ou só provoca?
Cabe minha opinião como analista aqui: notícia negativa não é problema. Problema é notícia negativa sem contexto.
O investidor pessoa física não decide com base em planilhas. Decide com base na percepção de risco.
Quando o noticiário insiste em retratar um setor como estruturalmente problemático, mesmo diante de dados robustos, isso molda comportamento e afasta capital.
E afinal, onde nasce esse contra-senso?
Depois de conversar com alguns profissionais do setor, investidores e analistas, algumas hipóteses fazem sentido pra mim.
Primeiro: quem pauta. Grande parte das decisões editoriais nasce em ambientes urbanos, distantes da realidade do campo e dentro de uma sala com ar condicionado. O agro ainda é visto, por muitos, como o “agro do passado”, não como a indústria de escala, tecnologia e produtividade que ele se tornou.
Segundo: a leitura rasa do ciclo. Safra não é trimestre. Clima, crédito, preço e logística não obedecem calendário de relatório, muito menos do dividendo.
Terceiro: o viés político existe. De todos os lados. O agro vira lupa quando convém, e isso não ajuda ninguém a investir melhor.
Quarto: o próprio “Deus Mercado” falhou. O FIAGRO ficou tempo demais sem cobertura independente consistente. Ou se fala pouco, ou se fala apenas quando há oferta nova para vender.
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E o investidor no meio disso tudo?
Enquanto as manchetes insistiam no desastre, os FIAGROs já estavam precificados para o pessimismo.
E dinheiro não costuma ser educado com narrativa inventada. Ele reage a preço, risco e fluxo.
O resultado foi simples: a performance dos FIAGROs listados em na B3 em 2025 caminhou em direção oposta ao tom das notícias. Tiveram um retorno médio de 35%, com alguns fundos valorizando até 64% (considerando rendimentos).
Manchete negativa, preço baixo. Preço baixo, retorno aparece.
Esse texto de hoje não é sobre dizer que está tudo perfeito e redondinho no segmento. Não está.
Alguns FIAGROs, sim, enfrentaram problemas reais. Houve casos de inadimplência, concentração excessiva em poucos devedores e carteiras mal diversificadas. É um mercado jovem, ainda em consolidação, que está aprendendo na prática onde errou e onde precisa ajustar.
O ponto é outro. Não faz sentido nenhum um fundo ter problema em algo como 5% da carteira e, por isso, ver sua cota cair 30% ou 40% na bolsa. Isso não é leitura de risco. É exagero de percepção.
Risco existe. Crédito importa. Gestão importa inda mais. A análise é completamente diferente dos FIIs de CRI por exemplo. Mas reduzir um setor desse tamanho a uma narrativa quase sempre negativa empobrece a análise e induz a erro de decisão do investidor pequeno/médio.
Esse investidor não precisa de torcida. Precisa de contexto.
E talvez a maior lição aqui seja simples: quando a percepção coletiva se distancia demais dos dados, vale parar, respirar e olhar os números com calma. Porque, muitas vezes, o problema não está no setor.
Está na forma como a história está sendo contada.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3