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Estela Borgheri: Quando a rentabilidade vira risco (e outras lições do caso Banco Master)
Lições do caso Banco Master – no crédito privado, o “jogo” é diferente
Estela Borgheri
Planejadora Financeira e co-fundadora da empresa Vínea Gestão de Capital, Estela é formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Business Administration pelo Insper. Possui a certificação CFP® e é Consultora CVM
Você deve ter ouvido muito sobre o caso do Banco Master nos últimos dias. Na verdade, o que aconteceu foi o desmoronamento de um castelo que já estava balançando há muito tempo. Meu objetivo com esse artigo não é explicar novamente tudo que aconteceu (você já deve estar em condições de dar aula sobre Banco Master a essa altura do campeonato). Meu objetivo é te proteger de você mesmo como investidor, usando alguns pontos de atenção do caso “Banco Master” como pano de fundo.
O choque provocado pela liquidação do Banco Master expôs algo que todo investidor deveria estar cansado de saber: rentabilidade alta pode esconder risco elevado. A intervenção do Banco Central, seguida de investigações policiais e da paralisação de operações, mostrou que produtos de captação com remunerações muito acima do mercado podem ser sintoma — e não solução — de problemas de liquidez e governança. Isso não significa que todo investimento com alta rentabilidade tenha um problema intrínseco de liquidez e governança – mas falarei mais sobre isso mais à frente.
O que acontece com quem tem CDB do Banco Master após liquidação? Como entrar na fila do FGC?
Para os investidores, independentemente do tamanho do seu patrimônio, a mensagem é clara e urgente: olhar apenas para o retorno é insuficiente. Mas, ao mesmo tempo em que a mensagem é clara, minha sensação atendendo clientes há muitos anos é que essa mensagem muitas vezes passa uma sensação de ser falsa, principalmente para o investidor que não conhece tanto sobre a análise de risco x retorno envolvida na escolha dos investimentos. Ele fica com a sensação de que seu consultor não quer se comprometer com a entrega da rentabilidade. Se o investidor tem uma carteira de investimentos que tem vários CDBs como o do Banco Master, prometendo rentabilidade de até 150% do CDI, vários CRIs, CRAs e Debêntures prometendo altos ganhos, ele está satisfeito porque a rentabilidade está muito boa. Mas e o risco? E a falta de diversificação e liquidez? São questões que só aparecem para ele se a empresa falir ou se algo der errado no caminho. Mas enquanto não dá errado, está tudo certo, concorda? É aí que o investidor precisa ser protegido dele mesmo.
Tem um outro ponto bem importante, que para mim também é o estopim de muitos problemas: falamos mais acima que “rentabilidade alta pode esconder risco elevado”. Mas quanto é uma rentabilidade alta? Tenho certeza de que muitos investidores não acharam tão alta a rentabilidade de 150% do CDI que o Banco Master oferecia (em tempos de CDI de 15% ao ano). E sim, era.
É preciso ter uma noção do que é aceitável, qual a expectativa de rentabilidade razoável para cada classe de ativo (porque elas divergem entre si, já que derivam de coisas diferentes), para você ter uma base de comparação.
É complexo para o investidor comum avaliar risco de crédito de uma empresa, o chamado “crédito privado”. Olhar somente o rating que as grandes agências como a Fitch e a Moody’s disponibilizam é uma análise muito superficial que além de não ajudar, pode induzir a erros. O próprio Banco Master estava com uma ótima classificação antes de entrar em recuperação judicial. Outro exemplo é o das lojas Americanas: você deve se lembrar que, da noite para o dia, foi descoberta uma inconsistência contábil que destruiu seu valor de mercado na época.
É preciso avaliar a qualidade da contraparte, a transparência das operações e o risco institucional por trás da oferta. Trabalho para os especialistas do mercado financeiro, de preferência especialistas isentos, que não respondem para nenhuma instituição específica.
O episódio do Banco Master envolveu captações agressivas, ativos de difícil avaliação e tentativas de aquisição que foram barradas por autoridades, além de investigações por possíveis fraudes e prisões de controladores. O impacto atingiu milhões de correntistas e investidores, e gerou incerteza sobre recuperações e ressarcimentos.
Esses fatos ressaltam três lições práticas:
- Taxas muito acima do mercado merecem atenção — receitas extraordinárias podem mascarar ganhos não recorrentes ou práticas de alavancagem arriscada.
- Garantia não é onipotente — o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) protege depósitos até limites (R$250 mil por CPF/CNPJ por instituição, com regras específicas), mas isso não cobre todas as posições nem dispensa avaliação da instituição.
- Governança importa — transparência, auditoria externa e análise independente de especialistas naquele tipo de investimento são mecanismos que ajudam a distinguir uma instituição séria de uma aposta arriscada.
A maneira mais eficaz de construir riqueza não é buscar retornos milagrosos, mas proteger o que já se tem enquanto se persegue crescimento sustentável. O caso do Banco Master só reforça esse conceito.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3
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