Renda fixa
Estela Borgheri: Por que minha carteira de renda fixa não está batendo o CDI?
O motivo não está, necessariamente, em uma má escolha de ativos, e sim em no entendimento sobre como a renda fixa funciona
Estela Borgheri
Planejadora Financeira e co-fundadora da empresa Vínea Gestão de Capital, Estela é formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Business Administration pelo Insper. Possui a certificação CFP® e é Consultora CVM
Essa é uma dúvida cada vez mais comum — e compreensível. Em um ambiente de juros elevados, muitos investidores partem de uma premissa aparentemente lógica: se estou investido em renda fixa, minha carteira deveria acompanhar — ou até superar — o CDI.
Mas, na prática, isso nem sempre acontece. E o motivo não está, necessariamente, em uma má escolha de ativos, e sim em uma expectativa equivocada sobre como a renda fixa funciona.
Renda fixa não significa retorno fixo no curto prazo, como um reloginho, “batendo” CDI todo mês. E, muitas vezes, o que vemos no extrato reflete mais o comportamento do mercado do que o carregamento do investimento.
Na renda fixa temos 3 tipos de títulos/rentabilidades: pós-fixada (atrelada ao CDI e a que oscila menos), prefixada (uma taxa contratada no momento da compra do título) e IPCA+ (uma parte da rentabilidade atrelada ao IPCA do período e uma parte prefixada), sendo os dois últimos bem voláteis, dependendo da taxa de juros, Selic, atual e das condições do mercado.
O primeiro ponto é entender que o CDI é apenas uma referência — e não o retorno automático de todos os produtos de renda fixa.
CDBs pós-fixados, Tesouro Selic e alguns fundos conservadores tendem a acompanhar o CDI de forma mais direta. Mas uma carteira de renda fixa pode ter outros componentes, como os outros dois tipos que citei acima. Dessa forma, títulos atrelados à inflação (IPCA+), crédito privado, debêntures, fundos com gestão ativa são investimentos que têm dinâmicas diferentes.
Nos fundos de crédito privado, por exemplo, o retorno não vem apenas da taxa contratada, mas também da percepção de risco ao longo do tempo.
Se o mercado passa a exigir mais prêmio para determinados emissores, o valor desses títulos pode cair no curto prazo — mesmo que a empresa continue saudável.
Isso acontece porque esses ativos são marcados a mercado. Ou seja, seu preço é ajustado diariamente com base nas condições do mercado, e não apenas no fluxo de juros prometido.
O investidor, então, pode ver oscilações negativas no curto prazo, mesmo em ativos que, carregados até o vencimento, tendem a entregar o retorno esperado.
Algo semelhante ocorre com os títulos atrelados à inflação, como os IPCA+.
Quando você compra um título IPCA+ com uma determinada taxa — por exemplo, IPCA + 5% ao ano — esse é o retorno contratado até o vencimento. Mas, ao longo do caminho, o preço desse título oscila.
Se as taxas de juros sobem, novos títulos passam a oferecer retornos maiores. Como consequência, os títulos antigos — com taxas menores — perdem valor no mercado secundário. O inverso também é verdadeiro: quando os juros caem, esses títulos tendem a se valorizar.
Você pode inclusive fazer uma simulação no site da B3, de quanto seu título vai se valorizar ou desvalorizar vendendo antecipadamente, considerando uma taxa de juros (Selic) menor ou maior do que a negociada no momento da sua compra:
No exemplo abaixo, se a taxa do Tesouro cai de IPCA+8% para IPCA+6%, veja que o ganho adicional que você terá vendendo esse título antecipadamente é de aproximadamente 5% (o PU vai de 3.863,32 para 4.038,54)


Porém, com um título de vencimento mais longo, você pode ganhar ou perder muito mais, a oscilação é muito maior – um ganho de 43% (PU vai de 1.073,23 a 1.531,30). Isso acontece porque essa variação nada mais é do que considerar todo o prêmio que você iria ganhar nos anos até vencimento e trazer para hoje – quanto mais “anos”, maior a variação. Veja:


Esse movimento de preços, conhecido como marcação a mercado, pode fazer com que a rentabilidade da carteira, no curto prazo, fique abaixo do CDI — ou até negativa — mesmo que o investimento esteja “correto” do ponto de vista de longo prazo.
Grande parte dessa frustração vem de um desalinhamento entre prazo do investimento, volatilidade dos componentes da carteira e expectativa do investidor.
Ativos como crédito privado e títulos IPCA+ são instrumentos de médio e longo prazo. Avaliá-los com base em janelas curtas — semanas ou poucos meses — pode levar a conclusões equivocadas.
O CDI, por outro lado, é uma taxa de curtíssimo prazo, estável e pouco volátil. Comparar tudo a ele, o tempo todo, pode ser enganoso.
Se você como investidor não aguenta essas oscilações, que em um cenário muito bom serão para cima, mas podem ser para baixo em um cenário não tão bom, você está com o investimento errado (ou na dose errada) na sua carteira.
Para ser totalmente conservador e “andar junto” com o CDI você precisaria ter somente investimentos pós fixados atrelados ao CDI na carteira, o que do ponto de vista estrutural e de diversificação não é a melhor estratégia. Mas no fim das contas, a melhor estratégia é aquela que te faz dormir tranquilo, não é mesmo? Autoconhecimento nos investimentos é tudo.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3