Tipos de investimentos
Mariana Ribeiro: Um século antes da CVM, o Brasil já estruturava investimentos globais
Já existia, no século XIX, algo muito próximo das debêntures conversíveis, instrumento que hoje segue permitido no Brasil
Mariana Ribeiro
Analista com certificações CNPI, PQO e CPA-20, é mestre pelo IEB-USP. Autora de #querosereufrasia, atua no mercado financeiro. Pesquisadora em temas como a história da Bolsa de Valores, desenvolve trabalhos na interseção entre finanças e história. Em sua coluna, resgata episódios pouco conhecidos para ampliar a perspectiva sobre investimentos a partir do tempo.
Muito antes do mercado de capitais moderno, do conceito de IPO ou da regulação da CVM, o Brasil já estruturava operações financeiras sofisticadas, inclusive no exterior.
Em 1874, no Rio de Janeiro imperial, foi criada a Companhia Brazileira de Tram-ways em Pariz, com um objetivo ambicioso: construir e operar linhas de transporte urbano em Paris, conectando boulevards, avenidas e subúrbios da cidade.
A proposta não era pequena. O projeto envolvia cerca de 115 km de linhas, divididas em três zonas, com atuação direta da companhia em trechos estratégicos, incluindo regiões centrais, como o entorno do Arco do Triunfo e Champs-Élysées. Parte dessas linhas ficava dentro das fortificações da cidade (31 km), ou seja, em áreas de alta circulação. A concessão era mista, transporte de passageiros e cargas, o que ampliava o potencial de receita ao combinar fluxo recorrente urbano com transporte logístico.
Mas talvez o ponto mais curioso esteja na forma de captação de recursos.
A companhia foi estruturada com um capital de 6.000:000$, dividido entre ações já subscritas no Rio e em Paris, e uma emissão pública de dívida: 15.000 debêntures de 200$ cada, totalizando 3.000:000$.
Essas debêntures pagavam até 8% ao ano, com juros semestrais e prazo de até 20 anos, além de preverem conversão em ações, algo extremamente sofisticado para a época.
Sim: já existia, no século XIX, algo muito próximo das debêntures conversíveis, instrumento que hoje segue permitido no Brasil, regulado pela CVM.
E não para por aí.
Caso um investidor quisesse analisar o projeto, ele podia ir até o escritório da companhia, na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e consultar mapas, traçados e contratos originais das concessões em Paris.
Tudo isso em 1874, mas assim como hoje, nem todos estavam convencidos.
Na imprensa francesa tiveram algumas críticas, questionando a estrutura financeira da operação. Segundo os cálculos da época, embora a companhia anunciasse 6.000 contos de capital, o valor efetivamente disponível poderia ser próximo de 2.000 contos, após ajustes de ações não integralizadas, comissões bancárias e custos. Ou seja: uma dívida de 3.000 contos estaria sendo garantida por um capital inferior, cerca de 67% de cobertura.

Além disso, os críticos questionavam:
- a ausência de projeções de receita
- o desgaste dos ativos (trilhos, cavalos, infraestrutura)
- a concorrência com a Companhia de Ônibus da época
- e a própria demanda, já que trabalhadores preferiam caminhar a pagar pelo transporte
O questionamento era direto: a narrativa parecia mais forte que os fundamentos.
A evolução dos investimentos
Esse episódio aponta para algo menos evidente e muito intrigante.
Muitas das estruturas que hoje parecem sofisticadas no Brasil, combinação de capital próprio, dívida, conversibilidade, captação internacional já estavam sendo utilizadas há mais de um século. O que mudou, então?
Talvez não tenha sido a lógica dos investimentos, mas o nosso olhar sobre eles.
Ao longo do tempo, passamos a tratar certas estruturas como modernas simplesmente porque deixamos de olhar para trás. A história econômica raramente entra na conversa e, sem ela, criamos a impressão de que tudo é novo. Mas será que isso é, de fato, inovação?
Em 1874 no Brasil, investidores analisavam concessões, avaliavam projetos, liam críticas publicadas em jornais e tomavam decisões diante de narrativas concorrentes, exatamente como hoje.
E a pergunta que fica não é apenas sobre aquele investimento, mas sobre todos: será que estamos, de fato, reconhecendo o que é novo ou apenas interpretando como inovação aquilo que já existia?
PS (para os curiosos):
Não há muitos registros detalhados sobre o desfecho da Companhia Brazileira de Tram-ways em Pariz afinal, estamos falando de um período em que a transparência e a padronização de informações estavam longe do que conhecemos hoje.
Mas um registro do jornal L’Europe: politique, économique, financière, de abril de 1880, traz um indício relevante: a companhia já se encontrava em liquidação e transferiu seus ativos, incluindo concessões, trilhos, material rodante e estruturas para uma empresa belga, a Brussels Tramways Company. Em troca, recebeu uma combinação de pagamento em dinheiro e participação acionária na nova companhia.
Ou seja, seis anos depois da estruturação, o projeto brasileiro em Paris não apenas mudou de mãos, como terminou absorvido por outro operador europeu.
Mais um lembrete de que, mesmo no século XIX, nem toda narrativa de crescimento se sustentava até o fim.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3