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Professor Mira: Entre a febre e o termômetro. O que o investidor pode aprender com a volatilidade de março

O Ibovespa fechou o mês de março com queda de 3,3%, a primeira queda mensal depois de sete meses


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


Em algum momento de março você olhou para a sua carteira, viu o saldo menor do que estava em fevereiro, e o seu primeiro pensamento foi: “preciso sair disso antes que piore mais”?  Se a resposta for sim, esse artigo é para você.

Março foi um mês duro para quem investe em bolsa no Brasil. O Ibovespa fechou o mês com queda de 3,3%, a primeira queda mensal depois de sete meses seguidos no verde, num ciclo em que o índice tinha acumulado quase 42% de valorização. 

A guerra entre EUA, Israel e Irã, com o petróleo disparando e o Estreito de Ormuz bloqueado, criou exatamente o cenário que mais paralisa o investidor de varejo: incerteza sem data de validade.

Mas antes de falar sobre o que aconteceu com o mercado, preciso falar sobre o que aconteceu com as pessoas.

O termômetro que você quebra de raiva não cura a febre

Pensa comigo: você está com febre e o termômetro marca 39 graus. A sua primeira reação é quebrar o termômetro? 

Claro que não. Mas é exatamente isso que acontece quando o investidor vende uma ação de uma empresa boa porque o preço caiu durante uma crise geopolítica. Você quebra o termômetro, se livra do ativo que está te incomodando, mas a febre (no caso, a crise) continua. E agora você não tem mais o ativo quando o mercado se recuperar.

O preço de uma ação não é o valor da empresa. É o que o mercado está pagando por ela naquele momento específico. E em momentos de guerra, de manchete assustadora, de petróleo a três dígitos, o mercado paga menos, não porque as empresas deixaram de gerar lucro, mas porque o medo está precificado junto.

O que os dados de março revelam 

Aqui está o paradoxo de março: enquanto o Ibovespa caía, os investidores estrangeiros, os grandes fundos internacionais, com acesso a análise de ponta e mesas de operação que funcionam 24 horas, estavam comprando Brasil. 

De acordo com dados da B3, em março entraram R$ 9,4 bilhões líquidos de capital externo no mercado de ações brasileiro, a despeito de ser o mesmo mês em que a guerra no Oriente Médio estava no auge. No acumulado de 2026, esse fluxo estrangeiro chega a R$ 51,1 bilhões comprados na nossa bolsa.

Pensa comigo: quem estava do lado certo da operação? O investidor de varejo que saiu com medo, ou o fundo internacional que ficou comprando enquanto todo mundo vendia?

Não estou dizendo que o estrangeiro está sempre certo. Estou dizendo que existe uma informação nesse dado que vale a pena entender antes de apertar o botão de vender.

O fechamento do mês deixando uma lição 

Nesta terça-feira, com sinais de que EUA e Irã podiam estar próximos de um acordo, o Ibovespa subiu 2,71% em um único pregão, o maior salto do mês. O dólar caiu para R$ 5,17, menor nível desde 11 de março.

Quem tinha saído da bolsa durante as semanas de queda travou o prejuízo e não participou dessa recuperação. Quem ficou, ou quem usou a queda para comprar mais, fechou o mês em posição muito diferente. Esse é o custo real do pânico, percebe? Não é abstrato, há números para contextualizar o que ocorre com o comportamento do investidor.

O problema não é o mercado, é a falta de plano

A bolsa de valores vai ter meses ruins, e isso é uma certeza matemática e não uma mera probabilidade. Crises geopolíticas, choques de commodities, eleições, pandemias: o mercado reage a tudo isso com quedas. E toda vez que isso acontece, a pressão emocional para sair é enorme.

O que diferencia quem passa por isso e chega do outro lado com o patrimônio intacto ou ainda maior, de quem realiza prejuízo no pior momento não é inteligência, acesso a informação privilegiada ou sorte. É ter um plano claro de investimento atrelado às próprias metas.

É essencial que você tenha um plano que responda uma pergunta que você certamente fará quando o mercado chacoalhar: por que eu comprei esse ativo? Se a resposta ainda for consistente durante a queda, você não tem motivo para vender. Se a resposta mudou, se os fundamentos da empresa ou do fundo mudaram, aí sim, talvez seja hora de reavaliar. Mas vender porque o preço caiu, sem que nada tenha mudado nos fundamentos, é tomar decisão com o emocional no lugar do racional.

O que março ensina para os próximos meses

O Ibovespa acumula +13,21% em 2026 mesmo depois de toda a volatilidade de março. Isso é o retrato do longo prazo vencendo o curto prazo.

Mas tem uma outra lição que março trouxe que vai além dos números: o mundo está mais instável, e essa instabilidade não vai embora. O petróleo, a guerra, as eleições no Brasil em outubro, as tarifas de Trump e tantos outros fatores, são variáveis que vão continuar movimentando o mercado nos próximos meses. Não existe janela de calmaria garantida para investir.

E é justamente por isso que esperar o “momento certo” para entrar, ou sair durante a tempestade e esperar a calmaria para voltar, é uma das estratégias mais caras que existem. E aqui fica uma dica para anotar no post-it e colar na geladeira: o momento certo para revisar sua carteira é quando você tem clareza, não quando você tem medo.

O que março revelou sobre o investidor

Se você saiu da bolsa em março com medo, não se culpe. Oportunidades surgem o tempo todo, e decisões melhores ainda podem ser tomadas a partir daqui. Talvez o ponto mais importante seja usar esse momento para estruturar algo que deveria existir antes da turbulência: um plano.

Vale revisitar algumas perguntas simples, mas que raramente são feitas com a devida clareza. Por que você comprou o que comprou? Se a resposta não estiver clara, o problema dificilmente está no mercado. Qual é o seu horizonte de tempo? Renda variável exige prazo, e desalinhamentos aqui costumam custar caro. E, principalmente, quanto de oscilação você suporta sem transformar desconforto em decisão?

Março foi um teste, não exatamente pelos eventos em si, mas pela forma como cada investidor reagiu a eles. Crises fazem parte do funcionamento do mercado e tendem a separar, com rapidez, quem está estruturado de quem apenas responde ao curto prazo.

Um dos motivos para a criação da Comunidade Mira foi justamente reduzir esse tipo de vulnerabilidade, pois quando as decisões deixam de ser reativas e passam a se apoiar em critérios claros, como  metas, alocação, aderência e leitura de mercado, os ruídos do cotidiano perdem força.

Nos mercados, a linha entre risco e oportunidade raramente é evidente no momento em que as decisões precisam ser tomadas. E, no fim, os resultados costumam refletir menos o que aconteceu lá fora e mais a forma como cada investidor atravessou o processo.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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