Objetivos financeiros

Independência financeira feminina não é discurso. É proteção

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que cerca de um terço das mulheres brasileiras acima de 16 anos já sofreu algum tipo de violência por parceiro íntimo


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


A violência contra a mulher costuma ser tratada, com razão, sob as dimensões física e psicológica, e sem dúvida alguma, são aspectos estruturais que precisam estar no debate diário em nossa sociedade. 

Existe, contudo, uma forma silenciosa de agressão que não deixa marcas visíveis, mas compromete profundamente a autonomia e a capacidade de decisão: a violência patrimonial. Ela opera por meio do dinheiro, ou melhor, do controle do dinheiro.

Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que cerca de um terço das mulheres brasileiras acima de 16 anos já sofreu algum tipo de violência por parceiro íntimo. Dentro desse universo, a violência patrimonial tem ganhado destaque, com crescimento relevante nos registros e maior incidência entre mulheres de 25 a 34 anos e impacto ainda mais severo sobre mulheres pretas.

Outro dado, divulgado pelo DataSenado, deveria orientar o debate público com mais seriedade: aproximadamente 40% das mulheres que sofrem violência doméstica permanecem na relação por dependência financeira. Esse número não fala apenas de renda, mas de ausência de margem de escolha. Isso deveria nos constranger como sociedade.

Quando o dinheiro vira instrumento de controle

A violência patrimonial se manifesta de formas concretas e juridicamente reconhecidas. A Lei Maria da Penha inclui entre as agressões o controle de recursos financeiros, a retenção de documentos, a imposição de dívidas, a venda de bens sem consentimento e a restrição de acesso a contas bancárias. São práticas que reduzem progressivamente a autonomia da vítima, muitas vezes sob o argumento de organização doméstica, “melhor gestão” ou até mesmo “cuidado e proteção”. 

Em grande parte dos casos, a mulher sequer identifica imediatamente a dinâmica de poder envolvida. O desconforto aparece como sensação de humilhação ou incapacidade, mas a dimensão econômica do problema permanece difusa. O dinheiro, que deveria ser instrumento de liberdade, transforma-se em mecanismo de dependência.

A dependência econômica cria uma assimetria que se reflete em todas as esferas da vida. Quem não controla seus próprios recursos tende a ter menos poder de decisão, menor capacidade de mobilidade e maior dificuldade para romper ciclos abusivos. O impacto não é apenas momentâneo; ele se acumula ao longo do tempo, afetando trajetória profissional, construção de patrimônio e segurança na aposentadoria.

O impacto econômico que vai além da esfera privada

Tratar a violência patrimonial como um problema exclusivamente doméstico é um equívoco, pois ela possui efeitos econômicos amplos. Mulheres que têm sua autonomia financeira limitada enfrentam mais obstáculos para qualificação, inserção e permanência no mercado de trabalho. A renda futura é comprometida, a capacidade de poupança é reduzida e a acumulação de patrimônio se torna mais lenta ou inexistente.

Essa dinâmica reforça desigualdades estruturais e perpetua ciclos intergeracionais de vulnerabilidade. Quando a independência financeira é restringida, não se limita apenas o presente; limita-se também o futuro.

É nesse ponto que a discussão sobre educação financeira ganha densidade. Não se trata de oferecer fórmulas simplistas de investimento, mas de ampliar a capacidade de compreensão sobre direitos patrimoniais, organização orçamentária e planejamento de longo prazo. Conhecimento financeiro não elimina a violência, mas reduz vulnerabilidades e amplia alternativas.

Educação financeira como instrumento de autonomia

Quando a Comunidade Mira estava sendo gestada, uma das minhas principais preocupações era que ela pudesse ser também um instrumento de autonomia financeira, e uma de minhas exigências aos desenvolvedores era para que num mesmo login fosse possível ter dois CPFs cadastrados. 

Pode parecer um detalhe operacional, mas garanto que é uma escolha estrutural e muito potente. Quando uma ferramenta de gerenciamento de finanças pessoais possibilita que tudo esteja dividido entre dois CPFs, além do aspecto prático da organização, está fomentando também o diálogo aberto e saudável quanto às metas familiares, a construção de patrimônio, autonomia entre as partes, responsabilidades, e tudo mais que envolva a dinâmica financeira da família.

Autonomia financeira não significa necessariamente ruptura de relações, tampouco implica individualismo absoluto. Significa capacidade de decisão instrumentalizada. Significa participar ativamente das escolhas econômicas do lar, conhecer receitas e despesas, ter acesso a contas próprias e construir reservas que garantam segurança mínima diante de imprevistos ou mudanças opcionais de rota.

Conscientização e superação do tabu

Ainda persiste, em muitas famílias, a concentração da administração financeira em apenas um dos cônjuges, geralmente o homem. Essa centralização de informação cria desequilíbrios que podem evoluir para formas mais explícitas de controle. Transparência e compartilhamento de decisões não são apenas boas práticas de gestão doméstica; são mecanismos de equilíbrio e, no caso das mulheres, segurança.

O Brasil avançou em termos legais ao reconhecer a violência patrimonial como forma de agressão. Entretanto, reconhecer na legislação não é suficiente se o tema continuar cercado por tabu e silêncio. Falar sobre dinheiro dentro das relações não deveria ser constrangimento, mas responsabilidade.

Dinheiro é muito mais do que unidade de troca, pois representa capacidade de decidir sobre a própria vida, e uma sociedade que restringe essa capacidade a metade de sua população compromete seu próprio desenvolvimento como um todo.

Se parcela significativa das mulheres permanece em relações abusivas por dependência financeira, então a independência não é apenas uma meta de prosperidade individual, mas um instrumento de proteção. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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