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Professor Mira: Eleições, Trump e dólar fraco. O que está sendo precificado para 2026?


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


À medida que o calendário eleitoral de 2026 entra oficialmente no radar, o mercado financeiro começa a fazer o que sempre faz em anos de eleição: antecipar cenários antes que eles se tornem consenso. E para a maioria dos grandes investidores, não se trata de torcida, ideologia ou juízo de valor sobre candidatos. Trata-se de preço.

O investidor profissional não espera a urna abrir para ajustar portfólio. Ele tenta descobrir, antes da média, qual será a leitura predominante do mercado sobre risco fiscal, juros e câmbio. É essa antecipação que começa a gerar volatilidade e oportunidades.

O Brasil entra em ano eleitoral com o fiscal ainda no centro do problema

No plano doméstico, a eleição de 2026 impacta o mercado principalmente por um motivo: risco fiscal. Não importa quem esteja à frente nas pesquisas, a discussão sobre gastos públicos segue pressionando a taxa de juros de longo prazo.

No cenário de continuidade do governo atual, o mercado trabalha com a ideia de que grande parte desse risco já está precificada. Lula é uma figura conhecida, suas escolhas econômicas já foram testadas e o investidor sabe onde estão os pontos de tensão. Nesse ambiente, a tendência é de menos surpresa e mais lateralização dos ativos.

O movimento muda quando candidatos de direita ganham espaço. Não porque exista certeza de ajuste fiscal profundo, mas porque a opinião média dos entes do mercado acredita que haverá algum esforço nessa direção.

Essa expectativa, ainda que imperfeita ou até ilusória, é suficiente para gerar movimentos importantes, pois o mercado começa a precificar queda de juros antes que qualquer política seja implementada.

O limite da narrativa fiscal e o papel do Centrão

Aqui entra um ponto que costuma ser subestimado. Independentemente do discurso eleitoral, e de quem vença a eleição, o orçamento brasileiro continua fortemente pressionado pela dinâmica política do Congresso.

O Centrão e o uso recorrente de emendas parlamentares seguem como fatores estruturais de estresse fiscal. Mesmo em cenários onde o mercado projeta austeridade, essa engrenagem funciona como um freio. É ela que explica por que o juro longo resiste a cair com mais força.

O mercado até pode comprar a narrativa de ajuste no curto prazo, mas carrega um pé atrás estrutural. É esse conflito entre expectativa e realidade que mantém o prêmio de risco elevado.

Onde surgem as oportunidades na renda fixa

Em anos eleitorais, o mercado costuma precificar antes aquilo que ainda não aconteceu. É nesse ponto que os títulos pós fixados do tipo IPCA+ ganham protagonismo.

Se a leitura dominante passar a ser a de queda futura de juros, esses ativos tendem a se valorizar via marcação a mercado. Não é uma aposta na execução perfeita de políticas, mas na percepção média dos investidores. Esse tipo de movimento costuma ser rápido e concentrado, por isso é importante estar atento ao mercado, pois quem espera confirmação demais geralmente chega atrasado.

O fator Trump e o dólar que não se comporta como deveria

No cenário global, 2026 carrega um elemento adicional de instabilidade: Donald Trump. A discussão sobre o resultado da troca no comando do Federal Reserve e a influência de Trump sobre o banco central têm pesado sobre o dólar.

Em condições normais, juros mais altos nos Estados Unidos fortaleceriam a moeda, mas o que vemos agora é diferente. Mesmo com juros elevados, o dólar não ganha tração consistente, entre outros motivos, pela desconfiança quanto à independência do Fed.

Quando o mercado passa a enxergar o banco central como politicamente capturado, a moeda perde parte de sua função de reserva de valor. Isso ajuda a explicar a leitura de dólar globalmente mais fraco.

O impacto desse cenário sobre o real e os ativos brasileiros

Um dólar mais fraco no mundo reduz a pressão sobre moedas emergentes. No caso brasileiro, isso cria um ambiente em que o real tende, no mínimo, a não se desvalorizar de forma relevante.

Essa dinâmica externa funciona como um amortecedor importante em um ano já carregado de risco político doméstico, e também ajuda a sustentar ativos locais, desde que o fiscal não se deteriore de forma abrupta.

O que faz sentido para o investidor

O ano de 2026 vai demandar atenção do investidor, e muita leitura de movimentos. Além de eleições e política monetária, basta acompanhar brevemente o noticiário para identificar inúmeros riscos geopolíticos difíceis de mapear.

Nesse ambiente, a volatilidade deve ser o cenário base ao longo do ano, o que exige mais liquidez, mais acompanhamento e menos apego a narrativas fixas, pois entender onde estão as expectativas e como elas se transformam em preço é que ajudará o investidor a fazer melhores escolhas.

Investir não é votar

Talvez o ponto mais importante de todos seja este. Investir não é um exercício de militância ou de escolhas ideológicas. Em anos de alta polarização, a chance de confundir convicção pessoal com análise financeira cresce exponencialmente.

Acontece que o mercado não recompensa quem está politicamente certo, mas sim quem entende antes como os preços vão se mover. Ignorar isso costuma custar dinheiro.

O investidor que conseguir separar preferência política de leitura de mercado terá mais chances de proteger patrimônio e capturar oportunidades ao longo de 2026. O resto é ruído.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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