Investir melhor
Professor Mira: Geopolítica, o tabuleiro que define o lucro (ou o prejuízo) da sua carteira
Uma briga por território ou uma sanção econômica do outro lado do oceano pode, sim, encarecer o financiamento daquela empresa brasileira de varejo ou construção civil que você tem na carteira
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Se você é daqueles que abre o home broker, olha o gráfico de uma empresa que está com os fundamentos “redondinhos” e, de repente, vê uma queda de 5% sem que tenha saído um único fato relevante sobre ela, bem-vindo ao mundo real. Muitas vezes, o motivo dessa queda não está no balanço da empresa, mas em uma mesa de negociação a 10 mil quilômetros de distância.
O fato é que a gente não investe no vácuo e hoje, mais do que nunca, entender ao menos o essencial do noticiário que envolve geopolítica deixou de ser assunto apenas para acadêmicos. Não que você vá operar com base em notícias o tempo todo, pois isso não seria inteligente no investimento de longo prazo, mas entender como as peças desse tabuleiro global se movem ajuda muito no seu planejamento e tomada de decisão.
Política e economia são inseparáveis
Durante muitas décadas, a economia mandava na política, e vimos o processo de globalização acontecer com o mundo se integrando a partir da busca das empresas por eficiência operacional, produzindo onde era mais barato. Obviamente isso ainda acontece, porém, especialmente na última década, temos visto a política assumir um protagonismo fundamental, tornando a disputa por poder econômico pautada por uma guerra de narrativas como há muito não se via com tanta intensidade.
Não se trata mais apenas de onde é mais barato produzir, mas de onde é mais seguro e politicamente alinhado. Sabe o que isso significa na prática? Que as cadeias de suprimentos globais, que antes eram otimizadas para o lucro máximo, estão sendo redesenhadas para sobrevivência máxima. Isso gera custo, gera inflação e, consequentemente, mexe com as taxas de juros e com o valor das ações.
O choque geopolítico e o “sangue” da economia
Muitos investidores tendem a uma simplificação de raciocínio ao considerar que a geopolítica só afeta o preço do petróleo ou do dólar, mas a realidade é bem diferente disso. Um estudo recente do Parlamento Europeu mostra que os choques geopolíticos são fontes de instabilidade sistêmica que afetam diretamente o sistema bancário.
Pensa comigo: o banco é o coração da economia, certo? Quando o mundo fica “tenso”, o custo para os bancos captarem dinheiro sobe. E você sabe o que acontece quando o banco paga mais caro pelo dinheiro? Ele cobra mais caro de quem pede empréstimo e fica mais seletivo. Isso trava o crescimento das empresas em que você investe. Ou seja: uma briga por território ou uma sanção econômica do outro lado do oceano pode, sim, encarecer o financiamento daquela empresa brasileira de varejo ou construção civil que você tem na carteira.
Geopolítica é o risco que não avisa quando vai chegar e que, muitas vezes, não pode ser calculado pelos modelos tradicionais de crédito.
Do “ruído” à mudança estrutural
O grande segredo para o investidor de longo prazo é saber diferenciar o “tuíte” polêmico de uma mudança estrutural. O ruído gera aquela volatilidade que dá um certo frio na barriga, mas passa. Já a mudança estrutural muda os rumos da riqueza circulante no mundo.
Estamos vendo potências mundiais tentando proteger suas tecnologias (como semicondutores e energia limpa) e usando a economia como arma. Isso é um exemplo importante de mudança estrutural. O fim do “excepcionalismo” de um único país mandando no mundo e a ascensão de um cenário multipolar significa que o capital vai circular de um jeito diferente. O Brasil, como grande exportador de commodities, está bem no meio desse fogo cruzado. Por exemplo, se a China muda seu modelo de crescimento ou se os EUA fecham suas fronteiras comerciais, o preço da soja e do minério de ferro na sua tela muda no segundo seguinte.
Como proteger seu patrimônio nesse cenário?
Nesse momento talvez você esteja se perguntando: “Então devo parar de investir em renda variável?” Pelo contrário! É justamente em momentos como os que estamos protagonizando que surgem grandes oportunidades para quem tem planejamento e gestão de risco.
Para navegar nesse mar revolto, anota aí:
- Diversificação não é mais opção, é obrigação: não dá para ter todos os ovos na mesma cesta, especialmente se essa cesta for muito dependente de um único cenário político.
- Olhe para a resiliência operacional: prefira empresas que tenham cadeias de suprimentos diversificadas e que não dependam de um único país ou fornecedor em áreas de conflito.
- Atenção ao “Yield” de qualidade: em tempos de fragmentação e dívidas governamentais altas no mundo todo, ativos que geram caixa real e têm proteção contra a inflação são seus melhores amigos.
- Estude macroeconomia: pare de olhar só para o lucro por ação e comece a entender como os juros globais e a diplomacia afetam o setor em que você investe.
Conhecimento é poder: não operar notícias é diferente de ignorá-las
Investir com consciência é entender que o mundo é um ecossistema. Não dá para ignorar o que acontece lá fora e achar que sua carteira está imune. A geopolítica é como o clima: você não controla a chuva, mas pode ter um guarda-chuva ou construir um abrigo sólido.
No atual momento histórico, onde a ordem global deixa de ser guiada exclusivamente pela eficiência e integração, motes centrais da globalização, passando a ser guiada também pela preocupação com segurança nacional e alinhamento político, você precisa entender esse movimento para ter uma gestão de risco eficiente.
O conhecimento é o que vai te manter longe do movimento de manada daqueles que se desesperam com qualquer notícia. Quando você entende as forças que movem as nações, você passa a investir com mais clareza e propósito.
Sentir medo é normal, faz parte da nossa natureza. Mas o investidor que estuda transforma o medo em prudência e a prudência em lucro. Foque no longo prazo, informe-se em fontes de qualidade e não deixe os ruídos momentâneos tirarem o seu sono. No mundo dos investimentos, o prêmio vai para quem tem paciência, disciplina e informação de qualidade.
*As opiniões dessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3