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Professor Mira: o caso Banco Master – e quando o lucro mascara o abismo


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


A liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central (BC) não é apenas mais um evento isolado no mercado financeiro; é um estudo de caso completo sobre o que acontece quando a gestão de uma instituição ignora fundamentos básicos em favor de uma expansão agressiva e enviesada por interesses políticos e pessoais. 

Para o investidor, o episódio é didático: ele reforça que, no mercado, não existe “almoço grátis” e que a rentabilidade nunca deve ser analisada sem o seu fiel escudeiro, o risco.

Da origem à gestão temerária

O Banco Master nasceu da aquisição da massa falida do Banco Máxima. Sob o controle de Daniel Vorcaro, visto pelo mercado como um outsider sem a experiência necessária para o setor, a instituição adotou uma estratégia perigosa.

Enquanto bancos conservadores equilibram capital, prazos e riscos, o Master operava de forma inversa:

  • Captação agressiva: Oferecia taxas de CDB exorbitantes, chegando a 130%, 140% e até 150% do CDI.
  • Ativos de alto risco: O capital captado era investido em “ativos podres” ou empresas em dificuldades financeiras, como Ambipar, Oi, Gafiza e Light.

Em certo ponto, a operação tornou-se, guardadas as proporções, análoga a uma pirâmide financeira, dependendo de novas captações constantes para pagar investidores antigos.

O alerta vermelho e a tentativa de socorro político

O sinal definitivo de que algo estava errado veio no final de 2024, quando o Banco Central exigiu um aporte de R$ 2 bilhões para evitar a liquidação. O que se seguiu foi um emaranhado de tentativas de influência política.

Primeiro, a tentativa de resgate pelo BRB. O Banco de Brasília (estatal) tentou comprar a participação necessária pelos mesmos R$ 2 bilhões, uma operação considerada sem embasamento técnico.

Em contraste, o BTG Pactual ofereceu R$ 1,00 pelo banco, sinalizando que a instituição, na prática, não tinha valor líquido e apenas “problemas” a serem assumidos.

O Banco Central barrou a operação com o BRB, efetivou a liquidação e o controlador foi preso pela Polícia Federal ao tentar deixar o país.

As lições que ficam sobre gestão de risco

O evento abala o mercado, mas serve para calibrar a visão do investidor comum. Se você não entende o evento, você não entende o risco.

Todo investimento possui risco. O risco inerente de um banco é a possibilidade de ele quebrar. O risco residual é o que sobra após as proteções. No Brasil, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) transforma o risco de perda total em um risco residual limitado ao teto de R$ 250 mil por CPF e por instituição.

Mas, independente da proteção que exista, o investidor precisa estar atento ao fato de que prêmio de risco não é bônus. Taxas muito acima da média de mercado (como os 150% do CDI do Master) são chamadas de prêmio de risco. Esse valor adicional serve para compensar o investidor por um perigo maior. Buscar a maior taxa sem entender o porquê dela é abrir mão da segurança.

O caso Master ilustra ainda, a importância da diversificação: 

  • Investidores que mantiveram valores dentro do limite do FGC estão protegidos.
  • Quem concentrou grandes quantias (ex: R$ 600 mil em um único CDB) agora enfrenta anos de incerteza jurídica para tentar recuperar o saldo excedente.

Sorte não é estratégia

A atuação diligente do Banco Central e da Polícia Federal evitou um risco sistêmico maior, mas a lição para o investidor individual permanece. A gestão de risco não elimina as ameaças, mas prepara você para elas.

Antes de alocar seu capital, pergunte-se: “Eu entendo o que esse investimento faz e por que ele paga tanto?”. No fim das contas, a rentabilidade é importante, mas sem controle e diversificação, ela se torna apenas sorte e, definitivamente, contar com a sorte não é uma estratégia de investimento.

O que observar antes de investir

Diferente de uma empresa comum, um banco é um intermediário de risco. Para garantir que seu dinheiro não está financiando uma operação temerária, siga estes passos:

1. Analise o “Prêmio de Risco” (A taxa do CDB)

  • Desconfie de rentabilidades que fogem drasticamente da média do que o mercado como um todo esteja praticando.
  • Quanto maior a incerteza sobre a capacidade do banco pagar, maior o prêmio que ele precisa oferecer para atrair investidores.
  • Taxas excessivas foram o prenúncio da quebra do Banco Santos em 2004 e, agora, do Master.

2. Avalie a gestão e a governança

  • Experiência técnica: Verifique se os controladores possuem conhecimento profundo em finanças e economia ou se são “outsiders” sem experiência no setor.
  • Histórico empresarial: Investigue se os gestores possuem um passado de sucessos ou de fracassos e se a vida pessoal é pautada pela ostentação, o que pode indicar falta de conservadorismo.
  • Transparência: Instituições sólidas mantêm processos claros de conformidade e gestão de riscos.

3. Investigue a qualidade dos ativos

  • Onde o banco investe? Procure saber se a carteira de crédito é composta por empresas saudáveis ou por “ativos podres” e empresas em dificuldades.
  • Complexidade: Ativos de difícil mensuração, como precatórios e certos FIDCs, carregam maior incerteza e risco de fraude na marcação de preços.
  • Dependência de fluxo: Observe se o banco parece depender apenas de novas captações para pagar os investidores antigos, o que pode apontar para uma gestão temerária e, a depender do caso, até mesmo fraudulenta. 

4. Verifique os indicadores de capital e liquidez

  • Adequação de capital: Um banco saudável deve manter capital suficiente para absorver perdas inesperadas.
  • Equilíbrio de prazos: A instituição deve equalizar os prazos entre o dinheiro que entra (captação) e o que sai (empréstimos/investimentos), mantendo ativos líquidos disponíveis.

O plano de segurança: FGC e diversificação

Mesmo após a análise, o risco residual sempre existirá. Por isso, nunca abra mão destes dois pilares:

  1. Respeite o teto do FGC: O Fundo Garantidor de Crédito cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição. Se você tem R$ 600 mil, por exemplo, o excedente de R$ 350 mil está totalmente exposto ao risco de liquidação e pode levar anos para ser recuperado judicialmente.
  2. Diversifique por classe e emissor: Não coloque todo o seu patrimônio em uma única instituição ou produto. Distribua entre renda fixa de diferentes bancos, títulos públicos e outras classes de ativos.

A proteção do seu patrimônio começa com o seu conhecimento. Se você não consegue explicar como um investimento gera aquele retorno, provavelmente não deveria estar nele.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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