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Professor Mira: O que leva a Bolsa de Valores para as máximas, e o que está acontecendo na economia?
Não se trata de escolher entre renda fixa ou bolsa, mas de entender por que o mercado está se movendo agora e como isso se encaixa no seu planejamento
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Se você está acompanhando as sucessivas máximas históricas que o Ibovespa vem entregando, mesmo com a Selic em nível restritivo, pode estar meio confuso. Afinal, olhando apenas o noticiário doméstico, o movimento parece difícil de justificar. Juros altos seguem pressionando o crédito, o consumo e a atividade. Ainda assim, a bolsa segue ascendente.
A explicação não está em um súbito otimismo com a economia brasileira. Está na combinação entre expectativa de ciclo, fluxo internacional e uma mudança relevante no cenário global de alocação de capital.
O mercado não reage ao presente, reage ao próximo passo
A primeira chave para entender o movimento recente é simples: o mercado financeiro não espera a mudança acontecer para se posicionar, ele se antecipa.
Nos últimos dias, a leitura dominante passou a ser a de que o ciclo de aperto monetário no Brasil está próximo do fim. Isso não significa corte de juros imediato, mas sim que o pior ponto da restrição já ficou para trás. Com isso, o mercado passa a recalcular preços olhando para frente.
Quando a expectativa é de juros mais baixos no futuro, o valor presente das empresas muda hoje. Fluxos de caixa passam a ser descontados a taxas menores e ativos de risco ganham atratividade antes da economia real reagir. Esse movimento não é emocional, é técnico.
Dólar mais fraco muda o mapa do capital global
Outro fator decisivo nos últimos dias é o enfraquecimento do dólar no cenário internacional. O movimento não representa uma saída de investidores dos ativos americanos, mas sim uma redução da exposição cambial à moeda.
Investidores globais passaram a pagar prêmios elevados para proteger posições em dólar, mantendo ativos nos Estados Unidos, mas convertendo a exposição para outras moedas. Essa dinâmica altera o fluxo de capital global e favorece mercados fora do eixo tradicional.
Com o dólar perdendo força, ativos precificados em moedas emergentes ganham relevância relativa. Esse processo tende a beneficiar países exportadores de commodities e mercados com valuation comprimido, exatamente o caso do Brasil.
Commodities voltam ao centro da alocação
E também não podemos dissociar a valorização da bolsa brasileira do movimento global em direção a ativos reais. Ouro, prata e outras commodities registraram volumes elevados de negociação nos últimos dias, em um ambiente de crescente desconfiança em relação às moedas fiduciárias e ao endividamento dos governos.
Esse ciclo é bem diferente do observado nos anos 2000. Naquele período, a demanda por commodities era impulsionada pela urbanização acelerada da China. Hoje, o motor é outro, e o investidor busca proteção patrimonial em um mundo fiscalmente pressionado.
Nesse contexto, produtores de commodities voltam a ocupar posição central nos portfólios globais. Com isso, América Latina, e especialmente o Brasil, aparecem como destinos naturais desse fluxo.
O Brasil está barato e o estrangeiro está comprando muito
Enquanto o investidor local permanece majoritariamente ancorado na renda fixa, o investidor estrangeiro olha para a bolsa brasileira sob outra ótica. O mercado negocia com múltiplos atrativos, empresas relevantes seguem gerando caixa e a exposição a ativos reais funciona como proteção adicional.
Nas últimas semanas, o fluxo estrangeiro tem sido um dos principais motores da alta do Ibovespa. Esse capital não entra por euforia, mas por assimetria. O risco percebido já está no preço, mas o potencial de reprecificação, ainda não.
Essa dinâmica alimenta inclusive a discussão sobre uma possível reavaliação estrutural da bolsa brasileira. Se o cenário de dólar mais fraco, commodities fortes e fluxo para emergentes persistir, o mercado deixa de ser apenas barato e passa a ser tratado como justo.
O paradoxo dos juros versus bolsa em alta
O movimento da bolsa contrasta com a realidade da renda fixa no Brasil. Com o CDI próximo de 15% ao ano, o investidor local segue confortável em posições conservadoras. O custo de oportunidade para migrar para a renda variável ainda é elevado.
Ao mesmo tempo, o mercado de títulos públicos embute prêmios relevantes, ainda refletindo preocupações com risco fiscal e inflação acima do centro da meta no longo prazo. Aqui temos o paradoxo: de um lado, o mercado acionário se antecipa a um ciclo melhor. Do outro, a renda fixa exige retorno alto para compensar incertezas estruturais. As duas coisas podem coexistir.
O que faz sentido para o investidor agora
A alta da bolsa nos últimos dias não elimina o papel da renda fixa na carteira. A Selic elevada segue oferecendo proteção e retorno atrativo, especialmente em prefixados para travar agora boas taxas antes que inicie o ciclo de cortes, e também em títulos indexados à inflação.
Por outro lado, ignorar completamente a renda variável em um momento de transição de ciclo costuma ser um erro recorrente. Os maiores movimentos de valorização acontecem quando o cenário ainda é desconfortável, não quando tudo já está resolvido.
Diversificação, leitura de ciclo e gestão de risco continuam sendo os pilares. Não se trata de escolher entre renda fixa ou bolsa, mas de entender por que o mercado está se movendo agora e como isso se encaixa no seu planejamento.
A alta recente do Ibovespa não é um descolamento da realidade. Ao contrário, é o mercado ajustando preços diante de um mundo com menos dólar, mais ativos reais e capital buscando retorno onde o risco já está pago.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3