Investir melhor
Professor Mira: por que o Brasil ainda não aprendeu a poupar?
A educação financeira não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva do indivíduo
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Esta semana vivi a grata experiência de participar como convidado especialista em uma audiência pública no Senado Federal que debateu o projeto de lei 5520/2025 que institui a Semana Nacional do Pequeno Investidor. Saí de lá com uma certeza que carrego desde que comecei minha carreira de educador financeiro, mas que raramente vejo dita com tanta clareza num espaço institucional: educação financeira não é produto, não é serviço, não é benefício de classe média, ela é a fronteira que ainda falta completar na cidadania brasileira.
Cidadania que vai além do voto
O Brasil passou as últimas décadas expandindo direitos. Direito ao voto, à saúde, à educação básica, entre tantos outros, foram conquistas reais, duramente construídas. Mas existe uma dimensão da cidadania que ficou para trás nessa história toda: o letramento financeiro.
O cidadão brasileiro hoje vota, estuda, trabalha, mas ainda não consegue estruturar suas economias para ter autonomia. E não consegue porque nunca foi ensinado a ele como fazer. O sistema financeiro brasileiro é muito bem estruturado, com forte regulamentação e instituições de alto gabarito, e como profissional do mercado, tenho muito orgulho do que fizemos até aqui. Entretanto, uma lacuna sempre esteve aberta: ações focadas em fomentar a participação de quem está na base, contribuindo ativamente com o desenvolvimento econômico do país através do seu trabalho.
E, infelizmente, o resultado prático dessa lacuna está em todo lugar: 80,9% das famílias brasileiras endividadas. 31% dos brasileiros sem nenhuma reserva financeira. E R$ 30 bilhões por mês transferidos para plataformas de apostas, boa parte desse dinheiro oriundo de pessoas que sequer sabem distinguir bet de investimento.
Esses são problemas que vão muito além da questão da renda, pois se fosse, não teríamos na classe AB, os brasileiros mais ricos, um cenário onde apenas metade consegue poupar e investir regularmente. A questão envolve letramento financeiro, um conhecimento que não está devidamente disseminado e, por isso, faz com que o problema esteja presente em praticamente todas as camadas da sociedade.
O alto custo de um país que não poupa
O Brasil poupa entre 15% e 18% do PIB, sendo que a média mundial é de 27% e o ponto positivo fora da curva é a China, que poupa 44%. Muito mais que curiosidade estatística, esse dado impacta diretamente na economia do país, pois tem relação direta com o endividamento.
O país que não forma poupança doméstica fica dependente do capital que vem de fora, e o custo disso são os juros mais altos do planeta. Enquanto nos Estados Unidos 75% do financiamento das empresas vem do mercado de capitais e apenas 20% dos bancos, no Brasil esse quadro é exatamente inverso. A empresa brasileira fica refém do crédito bancário caro, e o cidadão brasileiro fica refém do rotativo do cartão, cujos juros superam os 400% ao ano.
Nada disso é coincidência, mas sim a conta de um país que nunca teve educação financeira como política pública séria.
Fraudes digitais: uma epidemia silenciosa
Vivemos atualmente no Brasil um cenário dicotômico e que traz grandes preocupações: ao mesmo tempo que o avanço tecnológico potencializa o acesso, temos um crescimento como nunca antes visto, dos cibercrimes. A inteligência artificial já é usada para falsificar rostos, vozes e ambientes regulados para enganar poupadores, e como o próprio Gabriel Galípolo afirmou, o regulador não consegue chegar em todos os lugares da internet onde essas ofertas aparecem.
Nesse ambiente, a educação financeira é a única defesa que funciona em tempo real. Não porque substitui o papel da CVM ou do Banco Central, que precisam de mais recursos e mais analistas do que têm hoje, mas porque transforma o investidor na primeira linha de defesa do próprio patrimônio.
O que a ENEF e a BNCC já realizam e por que não basta
O Brasil não começou ontem a pensar no tema. A Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) existe desde 2010, articulada entre Banco Central, CVM, SUSEP e PREVIC. A educação financeira entrou na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como tema transversal. O programa “Na Ponta do Lápis” do Ministério da Educação tenta integrar formação financeira, fiscal e previdenciária nas escolas.
Todos estes são avanços reais, mas a lacuna entre o que está no papel e o que chega de fato à vida das pessoas ainda é muito grande.
Tem um ponto que o debate no Senado deixou claro: a educação financeira não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva do indivíduo. Ensinar alguém a organizar o orçamento é importante, mas se as taxas são opacas, se os conflitos de interesse dos assessores não são declarados, se a regulação não tem gente suficiente para fiscalizar, mesmo tendo letramento financeiro básico, o cidadão continuará vulnerável.
Cidadania financeira é essencial para o desenvolvimento
Criar, através do PL 5520/2025, uma semana de atenção nacional para este tema, amplia a possibilidade de que a mesma vá, gradativamente, se tornando uma pauta permanente. Como educador, isso é algo que me motiva muito a contribuir com o projeto.
Muito além da semana em si, o que me empolga é o que ela pode inaugurar: uma agenda de educação financeira obrigatória no ensino básico, maior transparência sobre os produtos financeiros e o trabalho das assessorias, e o reconhecimento do pequeno investidor para além de seu papel de consumidor de produto financeiro, como um agente econômico importante para toda a infraestrutura econômica do país.
De acordo com dados da Anbima, de março deste ano, o volume financeiro que os investidores movimentam no país, em renda fixa e variável, ultrapassa R$ 8,8 trilhões. É um número muito relevante e precisa ser tratado com a seriedade que o volume representa para o desenvolvimento do Brasil.
Saí do Senado animado e com a sensação de que estamos no começo de uma conversa que pode mudar a relação do brasileiro com o mercado de capitais e, sobretudo, com sua própria construção de patrimônio e conquista de autonomia.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3