Tesouro direto

Tesouro Renda+ 2065: oportunidade real ou euforia com juros altos?

Título passou a chamar atenção não apenas de quem pensa em aposentadoria, mas também de investidores interessados na marcação a mercado


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


O Tesouro Renda+ 2065 tem sido assunto recorrente entre investidores em função de suas taxas. Em um ambiente de juros elevados, incertezas fiscais e curva longa pressionada, o título passou a chamar atenção não apenas de quem pensa em aposentadoria, mas também de investidores interessados em ganhar com a chamada marcação a mercado.

Mas antes de qualquer empolgação, é preciso separar duas coisas: o que o título é de fato e o que ele pode representar em um cenário específico de juros, pois investir olhando apenas a taxa, definitivamente não é o que faz um investidor estratégico.

Por que o Renda+ entrou no radar

O Brasil vive um momento em que as taxas reais de longo prazo estão em patamares historicamente elevados. Em diversos momentos recentes, os títulos IPCA+ longos chegaram a negociar próximos de IPCA + 7% ao ano, e alguns até acima disso. 

Esse nível de juro real reflete prêmio de risco fiscal, incerteza sobre a trajetória da dívida pública e dúvidas sobre a consolidação das contas do governo, e tudo isso são variáveis que precisam ser levadas em conta ao escolher investimentos. 

Com a Selic em patamar elevado e o mercado projetando juros altos por mais tempo, a curva de longo prazo abriu. E é justamente aí que entra o Tesouro Renda+ 2065. Quando as taxas sobem, o preço do título cai. Quando as taxas caem, o preço sobe. Essa relação inversa é o coração da marcação a mercado, e é isso que está despertando interesse.

O que é, de fato, o Tesouro Renda+

O Tesouro Renda+ é um título público indexado ao IPCA. Ele paga uma taxa fixa acrescida da inflação e foi estruturado para formar uma renda complementar futura, especialmente para aposentadoria. Diferentemente do Tesouro IPCA+ tradicional, ele foi desenhado para pagar parcelas mensais no futuro, funcionando como uma espécie de “salário programado”.

Ou seja, sua finalidade original não é especulativa. Ele foi criado como instrumento de planejamento previdenciário. Isso não impede, contudo, que o investidor utilize a dinâmica da marcação a mercado a seu favor. Mas é importante entender que essa não é sua vocação principal.

Volatilidade não é risco de calote

Um ponto essencial: quando se fala que o Renda+ 2065 é volátil, não se está falando em risco de quebra do emissor. O emissor é o Tesouro Nacional, portanto, risco soberano, o que torna os títulos do Tesouro muito seguros. A volatilidade aqui é de preço, não de crédito.

Títulos longos oscilam mais porque seu valor presente é extremamente sensível às mudanças nas taxas de juros. Quanto maior o prazo, maior a chamada “duration”, e maior a intensidade das oscilações.

Isso significa que, no curto prazo, o investidor pode ver o valor aplicado subir ou cair de forma relevante. Essa oscilação é desconfortável para quem não entende o mecanismo, mas ela é matemática, não aleatória.

E aqui está a diferença fundamental entre volatilidade previsível e incerteza pura: no caso de um título IPCA+, é possível simular cenários com bastante precisão.

A assimetria que chama atenção

Com taxas reais próximas de máximas históricas recentes, surge o conceito de assimetria positiva. Se hoje o mercado negocia, por exemplo, próximo de IPCA + 7%, o investidor está contratando uma taxa real elevada. Caso o cenário fiscal melhore, a inflação convirja para próximo da meta e os prêmios de risco diminuam, as taxas podem cair.

Se caírem para algo como IPCA + 4% ou IPCA + 3%, o preço do título se valoriza de forma expressiva. Em horizontes de três anos, dependendo do ponto de entrada, simulações indicam potencial de valorização relevante.

Por outro lado, para que haja perdas significativas no horizonte de alguns anos, seria necessário um estresse ainda maior do que o já observado em momentos recentes, levando as taxas para patamares extremos, como IPCA + 9% ou mais.

Isso não significa ausência de risco. Significa que o equilíbrio entre potencial de ganho e potencial de perda, nos níveis atuais de taxa, tornou-se mais interessante do ponto de vista matemático.

O risco que quase ninguém menciona: prazo e comportamento

Existe, porém, um risco maior do que o fiscal ou o inflacionário: o risco comportamental, que não podemos perder de vista. O investidor compra um título com vencimento em 2065, mas muitas vezes não tolera uma oscilação negativa de 5% ou 10% no curto prazo. A marcação a mercado é um instrumento poderoso, mas exige horizonte de tempo bem calculado e muita disciplina.

Grande parte das simulações que indicam assimetria favorável considera um prazo de pelo menos três anos. Em janelas muito curtas, de um ou dois anos, por exemplo, o resultado pode ser completamente diferente e isso cria pânico em quem investe sem entender bem a lógica do mercado. 

Algo muito importante que gosto de reforçar sempre: o Renda+ não é reserva de emergência, e também não é instrumento para quem pode precisar do recurso a qualquer momento. Há liquidez, mas preço depende do mercado. Quem precisa de liquidez imediata, não pode investir em título volátil. 

O cenário fiscal importa 

Para analisar o Renda+ é fundamental olhar para o pano de fundo. O Brasil convive com uma dívida pública elevada, desafios de resultado primário e um ambiente político que influencia diretamente as expectativas de consolidação fiscal.

Se o governo conseguir sinalizar trajetória crível de estabilização da dívida, o prêmio de risco tende a cair. Se, ao contrário, houver deterioração das expectativas, as taxas longas podem subir ainda mais.

O comportamento do Renda+ 2065 está intimamente ligado a essa percepção de risco fiscal. Ele é, em grande medida, um termômetro da confiança do mercado no futuro das contas públicas.

Vale a pena usar o Renda+ para marcação a mercado?

A pergunta correta talvez não seja “vale a pena?”, mas “faz sentido dentro do meu planejamento?”.

Do ponto de vista técnico, taxas reais elevadas aumentam o potencial de ganho em caso de fechamento da curva e você pode fazer simulações matemáticas que ajudam muito a avaliar riscos e perspectivas, pois ao contrário de produtos de renda variável, a matemática da renda fixa possibilita isso. 

A assimetria, nos níveis atuais, é mais favorável do que foi em períodos de juros comprimidos, mas o título continua sendo, antes de tudo, um instrumento de longo prazo voltado à formação de renda futura.

Quem decide utilizá-lo para capturar movimentos de taxa precisa entender exatamente o mecanismo de precificação, o horizonte necessário e a tolerância a oscilações e, sobretudo, não perder de vista que sim, a oportunidade existe, mas o risco também.

E, como em qualquer decisão financeira, a taxa contratada é apenas uma parte da equação. A outra parte é o seu perfil de investidor, sua estratégia, seu prazo e sua capacidade de atravessar volatilidade sem transformar planejamento em improviso.

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