Objetivos financeiros
Yo Fordelone: Carnaval das aparências. O que é ser rico no Brasil?
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
O Carnaval aqui em casa não foi de bloquinho nem de sambas na avenida. Aproveitei a folga para ler o tão comentado livro Coisa de Rico, do antropólogo Michel Alcoforado. Um trecho em especial ficou ecoando na minha cabeça:
“A grande batalha das elites brasileiras não é pela construção de um império, é pela conquista das coisas de rico.”
A frase é provocativa e, diga-se de passagem, extremamente verdadeira. No Brasil, ser rico ainda é muito associado à capacidade de comprar coisas: o carro do ano, a viagem internacional, o apartamento maior, a escola mais cara, o restaurante da moda. Riqueza virou sinônimo de consumo visível.
Neste Carnaval mesmo, você deve ter se reparado com pessoas performando viagens que nem sempre cabem no bolso sem suaves parcelas. A estética da prosperidade muitas vezes vem antes da construção real dela.
O problema de tudo isso é que, quando alguém está em processo de construção financeira por meio do trabalho e dos investimentos, essa lógica pode funcionar como um freio invisível. Cada avanço é rapidamente convertido em um novo bem. Cada aumento de renda gera um novo padrão de gastos. O patrimônio cresce devagar, enquanto o estilo de vida corre em alta velocidade.
Michel Alcoforado propõe uma classificação interessante sobre nossa relação com dinheiro e bens:
- O pobre não tem dinheiro nem coisas.
- O falido tem coisas adquiridos em outra época, mas não tem dinheiro.
- O metido a besta tem coisas, mas não tem como sustentá-las ou as sustentas a duras penas. Se perder o emprego, por exemplo, tudo desmorona. Esse vive performando riqueza.
- O avarento tem dinheiro, mas não tem coisas.
- E o rico, de fato, tem dinheiro e bens.
Essa tipologia revela algo importante: não é a posse de objetos que define riqueza, mas o equilíbrio entre patrimônio, renda e capacidade de sustentar escolhas no longo prazo.
+ Yo Fordelone: Somente investir não salva a pátria. Economizar, sim
A verdadeira riqueza é silenciosa. Ela aparece menos nas vitrines e mais nos extratos. Está na liberdade de dizer “não” a um trabalho ruim, na tranquilidade diante de uma emergência médica, na possibilidade de escolher como usar o próprio tempo.
Minha proposta como alguém que também não está livre das tentações de consumo é estabelecer momentos específicos de comemoração. Se sua meta é chegar ao primeiro milhão, por exemplo, planeje viagens que façam parte do projeto: uma ao atingir os primeiros R$ 100 mil, outra aos R$ 500 mil e a principal no objetivo final. Isso permite celebrar conquistas sem perder o foco.
Num país onde o consumo é frequentemente confundido com sucesso, talvez o maior ato de educação financeira seja aprender a diferenciar desejo de status de construção de futuro. Comprar menos “coisas de rico” pode ser justamente o caminho para se tornar rico de verdade.
No fim das contas, a batalha não deveria ser por aparentar prosperidade, mas por construir autonomia. Porque o patrimônio mais valioso não é o que se mostra, é o que sustenta suas escolhas.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3