Organizar as contas
Yo Fordelone: Organização financeira não é fazer tudo. É saber priorizar
Até a declaração de imposto de renda pode ajudar na organização financeira
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
Existe uma percepção bastante difundida de que, para ser uma pessoa organizada financeiramente, é preciso dar conta de tudo: controlar minuciosamente os gastos, manter planilhas atualizadas, entender em profundidade a declaração de imposto de renda e, além disso, estar sempre economizando.
Essa visão, embora bem intencionada, costuma produzir mais frustração do que resultado. Isso porque sempre algum prato estará quebrado.
Parte de um ideal pouco realista: o de que é possível executar todas as frentes da vida financeira com o mesmo nível de excelência, o tempo todo.
Na prática, organização financeira não está relacionada à capacidade de fazer tudo, mas sim à habilidade de fazer escolhas conscientes.
Planejar as finanças pessoais vai além de definir técnicas ou escolher ferramentas. Envolve sobretudo definir prioridades. É reconhecer que tempo, dinheiro e energia são recursos limitados e, portanto, precisam ser direcionados de forma estratégica.
Isso significa, muitas vezes, simplificar.
E aqui entra um ponto quase contraintuitivo: o simples parece não ser suficiente, mas frequentemente é exatamente o que funciona.
Há quem não se identifique com o controle detalhado de despesas. Nesses casos, concentrar os gastos em um único meio de pagamento, como um cartão de crédito ou conta digital, e acompanhar a fatura ou saldo pode ser uma alternativa suficiente e eficiente.
Da mesma forma, atividades mais técnicas, como a declaração de imposto de renda, podem ser terceirizadas, liberando tempo e reduzindo o risco de erros. Confesso que estou nesse grupo: a atividade financeira que mais me entedia é declarar o IR. Por isso, tenho um contador para isso.
Por outro lado, o planejamento também passa por reconhecer aquilo que é importante manter. O que eu quero dizer é que, diferentemente do que o pensamento raso possa indicar, gastos com lazer, bem-estar ou experiências não precisam ser eliminados por completo para que exista organização financeira. O ponto central não é restringir indiscriminadamente, mas equilibrar.
Nesse contexto, economizar deixa de ser sinônimo de cortar tudo e passa a ser um exercício de direcionamento. Trata-se de abrir espaço no orçamento para aquilo que de fato tem valor, ainda que isso implique reduzir ou eliminar outras despesas menos relevantes.
Um exemplo simples: você gosta de tomar café fora. Ótimo, continue. Mas talvez não seja necessário que cada café venha acompanhado de pão de queijo, chocolate e água com gás. Economizar, no fim, é focar.
Esse raciocínio também ajuda a reduzir a sensação de que o esforço financeiro “não está funcionando”. Quando há clareza sobre as escolhas feitas, o processo se torna mais consistente e sustentável ao longo do tempo. Não por acaso, muitas pessoas começam controlando tudo em planilhas detalhadas até o momento em que a rotina aperta e o controle deixa de caber no dia a dia. Quantas pessoas você conhece que desistiram no meio do caminho?
Organização financeira, portanto, não é um modelo único a ser seguido, tampouco um conjunto rígido de regras. É uma construção individual, que deve considerar preferências, limitações e objetivos.
Ao substituir a busca por controle absoluto por um planejamento intencional, o dinheiro deixa de ser fonte constante de pressão e passa a cumprir seu papel mais importante: viabilizar escolhas.
No fim, não se trata de fazer tudo. Trata-se de fazer sentido.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3