Investir melhor
Yo Fordelone: A comparação que realmente importa
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
Nas últimas semanas, o Instagram virou um grande túnel do tempo. Todo mundo postando fotos de 2016. Corpos diferentes, rotinas diferentes, vidas diferentes. Um grande exercício coletivo de nostalgia.
Eu entrei nessa onda também. Mas não pela estética e sim pela reflexão.
Em 2016, eu tinha três empregos, cerca de R$ 300 mil investidos e um sonho que, para muita gente, parecia pequeno demais: ter controle do meu tempo, minha liberdade financeira. Não no sentido de ostentação, mas de escolha. Poder decidir como usar meus dias sem depender exclusivamente de um contracheque.
O “deu certo” que muita gente enxerga olhando de fora não veio porque eu acertei sempre. Veio porque, a cada ciclo, eu comecei a errar um pouco menos. E, principalmente, a decidir um pouco melhor.
Isso é algo que vejo todos os dias nas conversas que tenho com pessoas sobre dinheiro. Gente extremamente competente, trabalhadora, inteligente, mas que se sente constantemente insegura quando o assunto é investir. Não por falta de capacidade, mas por excesso de comparação.
Copiam o amigo, o cunhado, o influenciador da semana ou a carteira pronta de alguma instituição. Seguem recomendações como se fossem receitas universais, esquecendo que dinheiro não funciona no “tamanho único”.
Quase nunca param para responder a pergunta mais importante: isso faz sentido para a minha fase de vida, minha renda, meus riscos e meus objetivos?
No fundo, a comparação errada é uma armadilha silenciosa. Ela faz parecer que todo mundo está mais adiantado, mais confiante e mais bem-sucedido.
A grama do vizinho sempre parece mais verde porque você não vê o custo, o tempo e as renúncias que existem ali. Também não enxerga onde a pessoa está mirando, seu nível de risco ou sua experiência.
Comparar resultados sem entender processos é uma das formas mais rápidas de tomar decisões ruins
Quando falamos de dinheiro, a comparação costuma ignorar fatores essenciais: estabilidade de renda, responsabilidades familiares, reservas, tolerância a perdas e até saúde emocional. O que é uma decisão razoável para alguém pode ser completamente inadequado para outro, mesmo que, por fora, os números pareçam parecidos.
O contexto muda tudo, mas não fujo à regra. Eu mesma me pego em uma comparação desleal com outros criadores com maior engajamento nas redes sem colocar na conta que enquanto alguns produzem em uma ambiente silencioso eu estou gravando enquanto penso no almoço das crianças e na consultoria que preciso finalizar com um cliente.
A única comparação honesta é com você mesma alguns anos atrás, com a sua forma antiga de decidir. Com o seu nível anterior de consciência financeira.
Você pode entrar em 2026 exatamente do mesmo jeito que entrou em 2025.
Repetindo padrões, terceirizando decisões e esperando que o resultado seja diferente.
Ou pode mudar o processo.
Liberdade financeira não nasce de recomendação cega. Ela nasce de entender dados, cenários e riscos… e adaptar isso a sua realidade. Usar as informações para reduzir incertezas e decidir com mais inteligência.
No fim das contas, a foto mais importante não é a de 2016.
É a que você ainda vai tirar daqui a alguns anos, olhando para trás e reconhecendo: eu fiz escolhas melhores do que antes.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3