Investir melhor
Yo Fordelone: Entre a guerra e o recorde, muitos escolhem não investir
O investidor que constrói patrimônio não é o que acerta o momento ideal. É o que aprende a comprar ativos baratos e continua mesmo quando o ambiente não parece ideal
Yolanda Fordelone
Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.
O mundo está em guerra, o que afastou muita gente dos investimentos, à espera de tempos mais tranquilos. Semanas antes, estávamos vendo manchetes sobre os recordes consecutivos do Ibovespa B3, o que também afastou muita gente (afinal, a bolsa podia já estar cara).
Entendeu a contradição?
Quando o cenário é ruim, não investimos porque “é perigoso”.
Quando o cenário é bom, não investimos porque “já subiu demais”.
Na prática, estamos sempre encontrando um motivo para não investir. É uma busca constante pelo alinhamento dos astros entre capacidade de poupança, conhecimento e mar calmo nos investimentos.
Criamos desculpas sofisticadas para justificar o medo: guerra, eleições, juros, dólar, crise, topo histórico, incerteza global. Mas, no fundo, o que nos tira do jogo é a impaciência, especialmente nos primeiros cinco ou seis anos da jornada como investidor.
Esse é o período mais ingrato.
Você aporta todo mês, estuda, organiza a vida financeira e o resultado parece pequeno. Apenas centavos caem na conta como dividendos ou juros. A carteira cresce devagar e qualquer queda no mercado soa como um sinal de que “talvez isso não funcione”.
É exatamente aí que muitos desistem.
Só que existe um ponto de virada silencioso.
Depois de alguns anos de constância (geralmente cinco ou seis), a carteira começa a fazer algo novo: ela passa a render sozinha o mesmo valor que você estava colocando do próprio bolso.
Se você investia R$ 1 mil por mês, por exemplo, chega um momento em que a carteira também gera perto disso em rendimentos, juros e dividendos. É como se seus aportes tivessem sido dobrados sem que você precisasse trabalhar mais por isso.
Mas, para chegar nesse ponto, é preciso atravessar a chamada zona da arrebentação, aquela fase em que as ondas são fortes, o progresso é lento e a tentação de sair do mar é enorme.
Quem sai cedo nunca descobre o que existe depois.
Não existe cenário perfeito para investir.
Sempre haverá um motivo para esperar: uma crise, uma euforia, uma manchete alarmante ou um recorde histórico.
O investidor que constrói patrimônio não é o que acerta o momento ideal. É o que aprende a comprar ativos baratos e continua mesmo quando o ambiente não parece ideal.
Talvez a pergunta não seja “é um bom momento para investir?”.
Talvez a pergunta correta seja: vou usar este momento como desculpa para sair do jogo ou como oportunidade para descobrir o que pode ficar barato?
Porque, no longo prazo, não é o alinhamento dos astros que constrói riqueza. É a constância.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3