Organizar as contas

Yo Fordelone: Quando tudo vira urgência, o preço fica mais caro

Todo mundo quer o resultado, mas quase ninguém quer pagar o preço invisível do processo


Yolanda Fordelone

Yolanda Fordelone

Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.


2025 se foi com o morango do amor, as discussões sobre chinelo, os bonecos Labubu e o novo ano já começa com uma aposta que promete movimentar o consumo: as canetas emagrecedoras. Não sei se é porque estou numa fase mais fit, mas tenho sido impactada por uma avalanche de conteúdos: gente que usou e emagreceu rápido, gente que critica, reportagens sobre efeito rebote e alertas médicos.

Não estou aqui para defender nem para condenar o uso. O ponto que me chama atenção é outro: o que essa febre revela sobre a nossa relação com o tempo, com o desconforto e com a espera.

Tudo virou urgência.

Todo mundo quer o resultado (emagrecer, mudar o corpo, virar a chave), mas quase ninguém quer pagar o preço invisível do processo: ajustar a alimentação, criar rotina, lidar com o tédio da constância, aceitar que o resultado vem devagar.

Se parar para pensar, isso não acontece só com o corpo. Acontece com o dinheiro também.

No fim do ano, viralizaram fotos de cardápios de praias com preços absurdos. Quiosques cobrando valores que beiravam o surreal por um prato simples. E eu vivi algo parecido recentemente. Passei a manhã inteira em uma praia linda, mas com um quiosque impraticável. Fiquei ali, curti o mar, mas na hora de comer levantei, fui para outra praia e almocei pagando um preço que fazia sentido para o meu bolso.

Demorou mais? Sim. Deu mais trabalho? Também.

Mas foi uma escolha consciente entre pagar qualquer preço agora ou esperar um pouco para pagar um preço justo. A pergunta que fica martelando é: será que a gente ainda está disposto a esperar?

Porque nas finanças acontece exatamente o fenômeno oposto.

Todo mundo quer liberdade financeira, mas ninguém quer pagar a conta de reduzir gastos na fase de acumulação. Todo mundo quer investir melhor, mas não quer abrir mão do conforto imediato. Todo mundo quer chegar lá, mas sem sair daqui.

O problema não é querer resultado rápido. O problema é confundir pressa com necessidade.

Quando tudo vira urgência, a gente aceita qualquer preço no consumo, no corpo e no dinheiro. Não conseguimos recusar nem adiar.

Nosso cérebro está longe de ser racional e as finanças comportamentais já falam há anos da nossa tendência a preferir gratificações imediatas e dar pouco valor a um benefício futuro, mesmo que ele seja maior. Em outras palavras, tendemos a valorizar demais o presente.

O estudo “Impatience and Savings”, da National Bureau of Economic Research (NBER), traduziu em números essa preferência.

As pessoas têm uma taxa de desconto de curto prazo de cerca de 30% ao ano. Traduzindo: a gente exige um prêmio muito alto para esperar. Se não for algo claramente melhor, o agora ganha.

É como se alguém perguntasse: você prefere R$ 100 hoje ou R$ 130 no futuro? Do ponto de vista lógico, esperar é melhor. Mas muita gente escolhe os R$ 100 hoje.

Por quê? Porque, emocionalmente, o cérebro dá um desconto para o futuro e acha que os R$ 130 valem muito menos hoje. 

O futuro parece menor, menos real e menos atraente.

Primeira má notícia para você. A liberdade financeira da maioria das pessoas que eu conheço exige escolhas e dizer alguns nãos.

Não quero ser cavaleira do apocalipse, mas outra má notícia: o futuro é incerto nos investimentos e finanças. O ponto é que, se o senso de urgência ganhar a todo momento nas suas escolhas, esse futuro fica bem certeiro: falta de grana.

Talvez a grande pergunta de 2026 não seja quanto custa, mas: você está disposto a esperar para pagar um preço mais aceitável?

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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