Como a crise na Venezuela afeta a Petrobras e o preço do combustível no Brasil
Possível queda no valor global do petróleo abre espaço para redução de preços nas bombas e alívio na inflação, embora falta de transparência na política da Petrobras gere dúvidas sobre o repasse
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Caso os Estados Unidos sejam bem sucedidos em exercer um controle maior sobre as reservas petrolíferas da Venezuela após o sequestro de Nicolás Maduro, empresas brasileiras como a Petrobras podem sofrer efeitos indiretos devido à queda do preço do petróleo.
“Se o mercado acreditar que realmente o Trump vai tomar conta da Venezuela e que as empresas americanas e outras privadas vão voltar a investir no país no curto prazo, a tendência é de queda no preço do barril”, afirma o economista Adriano Pires, diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Preços mais baixos significam maior pressão sobre o lucro das petroleiras, após um 2025 já marcado por uma forte desvalorização da commodity. O barril WTI despencou 19,9% no ano passado, registrando seu pior desempenho anual desde 2020, enquanto o Brent encerrou o período com uma queda de aproximadamente 14,3%. “Para a Petrobras não é bom, porque perde receita”, segue Pires.
No primeiro pregão após a invasão da Venezuela, o petróleo teve variação positiva, de cerca de 1%. “Isso ocorre principalmente porque esse tipo de evento gera insegurança, e a insegurança é um fator básico para a elevação do preço de qualquer produto ou de commodities”, explica o advogado Marcelo Godke, especialista em Direito Internacional Empresarial. “No entanto, no médio e no longo prazos, o cenário me parece o oposto.”
Como ficam os lucros das petroleiras brasileiras?
As consequências de médio e longo prazo para as empresas nacionais permanecem indefinidas. Caso a quantidade de petróleo disponível aumente globalmente e os preços caiam, seus lucros serão afetados.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, minimizou o problema e disse que um crescimento na produção venezuelana dependerá de investimento, não sendo algo que pode ser feito “em 24 horas”.
A reabertura do mercado venezuelano pode oferecer ainda perspectivas de expansão para a Petrobras e até para outras empresas menores, caso o movimento não fique restrito a companhias dos EUA. “Um campo de 20 mil barris não é para Chevron. Um campo desses, por exemplo, pode atrair empresas de médio porte americanas, canadenses, ou até brasileiras, como PetroReconcavo ou Prio”, analisa Adriano Pires.
Ao mesmo tempo, o cenário atual venezuelano eleva a instabilidade geopolítica na região, fator que tende a inibir aportes de capital estrangeiro.
Exportações brasileiras de petróleo serão afetadas?
Especialistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro acreditam que não haverá impactos significativos sobre o volume de petróleo exportado pelas empresas brasileiras.
Economista e professor da Universidade de São Paulo (USP), Simão Silber explica que um aumento de produção do petróleo na Venezuela pelas empresas norte-americanas poderia ocasionar redução das exportações brasileiras para o país.
“Por outro lado, abrem-se outros mercados. Particularmente o asiático fica mais favorável para o Brasil na medida em que houver um desvio do abastecimento do petróleo venezuelano”, afirma Silber.
Até então, a Venezuela fornecia sobretudo para a China, país com escassez de reservas petrolíferas próprias.
A quantidade de petróleo produzido e exportado pelo Brasil seguirá ainda a dinâmica da Opep+ (versão ampliada da Organização dos Países Exportadores de Petróleo), grupo formado pelos principais produtores do mundo, inclusive a Venezuela. Atualmente, a organização controla os preços do petróleo ao estabelecer cotas de produção para cada país.
Silber lembra, no entanto, que assim como outras organizações internacionais, a Opep+ tem enfrentado um desgaste de seu papel. No começo do ano passado, a Arábia Saudita chegou a desobedecer ao limite de cotas estabelecidos pelo grupo. Assim, é necessário aguardar mais definições para saber o impacto real sobre as exportações do Brasil.
Combustível vai ficar mais barato?
Com o petróleo mais baixo, é possível ainda que haja uma redução do preço dos combustíveis nos postos de gasolina brasileiros. No entanto, a falta de transparência na política de preços da Petrobras impede os analistas de cravarem com toda certeza uma redução.
No início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Petrobras adotou uma nova política de Preços de Paridade de Importação (PPI) que busca reduzir os impactos da volatilidade dos preços do petróleo no exterior para o consumidor. O método do cálculo, no entanto, não foi divulgado.
“Como o modelo de preços do petróleo aqui é muito controlado, alterações de preços vão depender fundamentalmente do governo. Mas, se tiver uma mudança, será para baixo, não para cima”, analisa Silber.
O economista Adriano Pires acredita que uma redução dos preços deve ocorrer, especialmente motivada por interesses eleitorais. O valor do combustível afeta transversalmente diversos itens na inflação do país, e uma redução poderia assim abrir espaço até mesmo para cortes nos juros.
Incertezas no horizonte
Toda análise sobre o futuro do mercado global ainda esbarra na grande incerteza sobre a Venezuela. “A gente tem que buscar entender como vai ser uma eventual transição política. A Delcy Rodríguez vai ficar no poder até efetivamente terminar o mandato do Maduro? Ela vai convocar novas eleições? Não sabemos”, comenta o cientista político Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Caso as disputas se acirrem e os Estados Unidos não consigam realizar seu plano de ampliar a produção de petróleo venezuelana, o efeito pode ser radicalmente o oposto a uma queda de preços. “Eu acho que tem que ficar bem cuidadoso com o petróleo, porque não temos essa notícia boa vindo imediatamente. Gostaria de falar diferente, mas é isso”, analisa o economista Carlos Honorato, professor da FIA Business School.
*Matéria publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir