Notícias

Galípolo: conservadorismo do BC garante posição mais confortável para lidar com choque do petróleo

Segundo Galípolo, panorama demanda 'tempo para entender'

Com ISTOÉ Dinheiro

A ISTOÉ Dinheiro é uma plataforma de informação sobre economia, negócios, finanças, tecnologia e investimentos.

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, avalia que a postura ‘conservadora’ da autarquia provê um cenário de maior conforto para lidar com a crise do petróleo e seus impactos.

A avaliação do presidente do Banco Central é de que ainda é difícil calcular os impactos exatos, mas que o panorama evidencia um choque de oferta – o que, em tese, implica em inflação mais alta e crescimento mais baixo.

“A parcimônia, a serenidade e o conservadorismo do BC entre final de 2024 e até agora no começo de 2026 concede ao BC a possibilidade de ele tomar mais tempo para entender os desdobramentos desse conflito”, disse Gabriel Galípolo, em coletiva de imprensa sobre o Relatório de Política Monetária do mês de março.

“Você tem um consenso dos banqueiros centrais que um choque de oferta produz inflação para cima e crescimento para baixo, mas a depender do quão aguda será a crise, talvez os pesos e proporções sejam diferentes, inclusive para deprimir a demanda da economia”, completou o presidente da autoridade monetária.

Assim, o BC deve ‘tentar aprender’ mais sobre o cenário até a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), entre os dias 28 e 29 de abril.

“A posição que temos hoje tem alguns benefícios que decorrem de sermos exportadores líquidos [de petróleo] e termos uma taxa de juros em patamar bastante contracionista”, acrescentou Galípolo.

Com uma resposta mais imediata dos governos em relação à crise do petróleo, a interpretação sobre o teor dos impactos também mudou.

Isso, considerando que nos dias iniciais o diagnóstico era de um choque de oferta decorrente de um estrangulamento mais de ordem logística por conta do fechamento do Estreito de Ormuz – cenário que ganhou novas cores com o tempo.

“Parece que vamos ganhando a interpretação de que esse é um choque de oferta que não afeta mais simplesmente uma questão logística relativa ao fechamento do estreito, mas que afeta logística e capacidade produtiva também que pode ter sido destruída, e que demora um tempo maior para você conseguir fazer uma recuperação”, disse o presidente do BC.

O conservadorismo citado por Galípolo faz alusão aos diversos comunicados em que a autoridade monetária falou que se fazia necessário manter a Selic em nível contracionista por período “bastante prolongado”. Até janeiro de 2026 o BC havia mantido os juros básicos na casa dos 15%, quando o tom da comunicação passou a ser mais neutro, com viés dovish, reconhecendo sinais iniciais de desaceleração econômica e maior confiança no processo de desinflação.

Agora, no mês de março, o BC iniciou o ciclo de flexibilização com um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.), levando a Selic para 14,75% – apesar do movimento de queda, o comunicado refletiu preocupações com o ambiente externo, especialmente choques em commodities e incertezas geopolíticas. A ata reforçou que a política monetária segue contracionista e que o ritmo de cortes dependerá da evolução dos dados econômicos.

Aprendizados com o passado

O presidente do BC cita que trata-se do quarto choque de oferta consecutivo de grande magnitude em uma década, e que agora os banqueiros centrais ficam mais relutantes ao avaliar o cenário.

Os choques de oferta anteriores indicaram que respostas precipitadas podem exigir um cavalo de pau na política monetária em um período subsequente.

“Entender o que é esse conflito em si envolve pensar nos diversos casos anteriores que tivemos e quais foram as recomendações à época. No caso, por exemplo, do BCE, tivemos choque de oferta de energia, resposta rápida e tiveram que caminhar na direção contrária, e aí com impactos que são sempre difíceis para os banqueiros centrais em um cenário em que se muda de posição”, disse.

Apesar do cenário nebuloso, o BC entente que ‘ficou clara’ a possibilidade de geração de efeitos de segunda ordem por conta da crise do petróleo, o que pode aumentar a duração dos impactos.

Caso Banco Master

Sobre o Banco Master, o presidente do BC relembrou o curso das investigações pela autarquia e que, a priori, não se estava encontrando lastro ao analisar os números – entretanto isso não significava um veredito, mas indícios de problemas.

Sobre o momento atual, diz que não é hora de ser complacente mas, ao mesmo tempo, não se pode “exacerbar buscando protagonismo ou passar ilações e distorções para tentar empurrar em direção que se tenha interesse”.

“É muito importante fazer isso para o bem da institucionalidade da República. É essencial que cada um de nós respeite seu mandato institucional, não tem salvador da pátria para um momento como esse”, disse Galípolo.

*Matéria publicada originalmente em IstoÉ Dinheiro, parceiro de B3 Bora Investir

Quer analisar todos os seus investimentos em um só lugar, em uma plataforma intuitiva? Baixe o APP B3