Notícias

Para gestores, Selic deve cair no primeiro semestre, mas trajetória dos juros no médio prazo depende do fiscal

Às vésperas da decisão do Copom, gestores avaliam que a Selic deve iniciar um ciclo de queda ao longo do primeiro semestre

Às vésperas da primeira decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de 2026, o mercado vê pouca divergência sobre a trajetória da taxa básica de juros da economia brasileira – pelo menos para esse ano. Com inflação em queda e desaceleração da atividade, gestores veem espaço para o início do ciclo de afrouxamento monetário. Ainda que as projeções não apontem para uma queda já amanhã, esse movimento sequer seria visto como uma surpresa. A principal incerteza, no entanto, não está no curto prazo, mas na trajetória dos juros no médio prazo: até onde a Selic pode cair e por quanto tempo?

Para Bruno Serra Fernandes, portfolio manager do Itaú, o ciclo de afrouxamento começa em março, e deve seguir até que a taxa de aproxime dos 11% ao ano, no fim de 2026. “Há mais de 15 anos não vemos uma taxa de 15% ao ano, como hoje. E nesse ciclo, o pico da inflação foi perto de 5,5%. A Selic ter chegado a 15% tem explicação: a expansão fiscal do início do governo Lula 3. Some-se a isso a primeira transição de um presidente do BC, com a autoridade monetária independente. Essa primeira transição foi dolorosa e o BC teve que comprar a credibilidade levando os juros a 15%. As próximas transições serão mais fáceis”.

Na avaliação de Serra, apesar de ter sido necessário esse aperto, o cenário mudou e já é possível iniciar o ciclo de queda. “Com inflação caindo e consumo desacelerando, esse juro de 15% começa a não fazer mais sentido”, disse.

Embora esse seja o cenário-base, Serra ponderou que uma decisão de corte já nesta reunião não seria interpretada de forma negativa. Segundo ele, embora improvável, um movimento antecipado estaria alinhado à melhora recente dos indicadores e não comprometeria a leitura de credibilidade do Banco Central.

A leitura é semelhante à de Rodrigo Azevedo, sócio-fundador da Ibiuna Investimentos. Para ele, a manutenção da Selic nesta Super Quarta é o desfecho mais provável, mas o momento exato do início do ciclo de queda é menos relevante do que os fundamentos que justificam a mudança de postura. “Acho que começa a recuar em março, mas poderia ser antes”, afirmou, destacando que um eventual corte antecipado não seria, por si só, um erro de política monetária.

Azevedo também chamou atenção para o risco de o mercado se apoiar excessivamente na projeção central do Banco Central. “A margem de erro dessas projeções é alta, especialmente em um ambiente de incerteza”, disse. Na sua avaliação, a análise deveria se concentrar no balanço de riscos – isto é, na probabilidade de a inflação se desviar para cima ou para baixo em relação ao cenário-base. Com inflação em queda e atividade mais fraca, esse balanço tende a abrir espaço para o início do afrouxamento monetário.

Se, no curto prazo, o consenso aponta para cortes ainda no primeiro semestre, o horizonte de médio e longo prazo é mais incerto. Para os gestores, a trajetória da Selic depende fundamentalmente do fiscal. Azevedo ressaltou que o Brasil combina dívida elevada com juros altos, o que torna o cenário binário: ou há um ajuste fiscal mais consistente, ou a economia acaba sendo forçada a se ajustar de forma mais abrupta. “Quando há crise, há ajuste”, afirmou, ressaltando que isso tem implicações diretas para o nível de juros de equilíbrio.

Serra reforçou que o vetor do crescimento fiscal tem sido dominante nos últimos anos, ainda que o impulso tenha perdido força mais recentemente. Segundo ele, um ajuste concentrado apenas no aumento de receitas melhora o quadro, mas não é suficiente para levar o juro estrutural a níveis significativamente mais baixos. “Se o ajuste for do lado do gasto, consigo imaginar uma Selic próxima de 8%. Caso contrário, o juro precisa permanecer mais alto”, disse.

Quer analisar os seus investimentos em um só lugar? Baixe o APP B3! Mais tempo para você, mais inteligência para seus investimentos