Por que captura de Maduro não abalou os mercados e o que esperar para o preço do petróleo
Ação de Trump facilita que empresas dos EUA tenham acesso às maiores reservas de petróleo do mundo, mas ainda há muitas incertezas sobre o futuro venezuelano
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Diferente de outras grandes crises geopolíticas que eclodiram nos últimos anos — como o início da guerra em Gaza ou a invasão russa na Ucrânia — a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos pouco impactou até o momento os mercados e os preços do petróleo.
As ações de petroleiras americanas subiram nesta segunda-feira (5), mas os preços dos barris de petróleo fecharam em alta de pouco mais de 1%.
Especialistas ouvidos pela IstoÉ Dinheiro avaliam que a reação tímida dos mercados é explicada pela série de incertezas que ainda pairam sobre o futuro da Venezuela e da produção de petróleo no país. Ao mesmo tempo, a produção de petróleo global pouco será afetada no curto prazo, já que a Venezuela responde por ínfimos 1% da produção global e depende de investimentos vultosos para ampliar sua infraestrutura.
“No caso da Venezuela, o efeito [sobre o mercado global] é diverso porque ela tem uma posição irrelevante como produtora de petróleo. Sua posição de protagonismo é como proprietária de reserva de petróleo”, explica o economista Adriano Pires, diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
Apesar de ter a maior reserva da commodity no mundo, com mais de 300 bilhões de barris, a produção da Venezuela aparece na 21ª posição global, segundo dados da IEA (International Energy Agency). O ranking é liderado por Estados Unidos, China, Índia e Rússia.
O protagonismo da Opep+ e o fator Trump
A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos ocorreu num cenário de preço do petróleo já pressionados. Em 2025, o preço do barril do tipo WTI recuou 19,9%, maior declínio porcentual desde 2020. Já o Brent caiu cerca de 14,3% no ano.
O preço do petróleo tem refletido diretamente as decisões da Opep+ (versão ampliada da Organização dos Países Exportadores de Petróleo), grupo formado pelos principais produtores do mundo, inclusive a Venezuela. “É quem basicamente ainda controla o preço do petróleo com base na oferta”, afirma Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
No domingo (4), a Opep+ reuniu-se de forma emergencial para analisar a situação venezuelana, e decidiu manter inalterada a produção.
Investidores avaliam que a ação de Trump na Venezuela permitirá que as empresas dos EUA tenham acesso às maiores reservas de petróleo do mundo. Trump planeja se reunir com executivos de empresas petrolíferas dos EUA nesta semana para discutir o aumento da produção venezuelana.
Qualquer previsão, todavia, depende da superação das incertezas sobre o futuro venezuelano. A produção de petróleo despencou nas últimas décadas, restringida pela má administração e pela falta de investimento estrangeiro após a nacionalização das operações petrolíferas nos anos 2000.
“A gente não sabe se tem alguns setores nacionalistas ou chavistas que de repente vão reagir e a gente vai ter uma guerra civil”, analisa Paz. “Mas se for bem sucedido o plano de Trump, a Venezuela sob tutela dos Estados Unidos significará petróleo mais abundante e produto muito mais barato.”
Quais empresas podem ser favorecidas?
O índice de energia do S&P 500 subiu para seu nível mais alto desde março de 2025, com Exxon Mobil subindo 2,2% e Chevron saltando 5,1% após Trump afirmar que as grandes empresas petrolíferas americanas retornarão à Venezuela.
A ExxonMobil e a ConocoPhillips encerraram suas operações na Venezuela após o governo de Hugo Chávez exigir em 2007 que a empresa estatal PDVSA detivesse ao menos 60% de participação em todos os projetos petrolíferos.
A Chevron foi a única gigante americana a aceitar os termos e permanecer no país. Anos depois, em 2017, a companhia conseguiu manter sua presença novamente ao obter licenças especiais do governo dos EUA, contornando os embargos que proibiam a continuidade das operações de empresas americanas em solo venezuelano.
Tanto a Chevron como a ExxonMobil possuem ainda negócios relevantes na Guiana, país vizinho da Venezuela e também lar de reservas significativas de petróleo. Para Adriano Pires, são duas das empresas que podem mais rapidamente se beneficiar de uma mudança no paradigma comercial do petróleo venezuelano.
Professor da FIA Business School, Carlos Honorato destaca que empresas de tecnologia petroleira também podem se beneficiar de uma mudança de regime na Venezuela, já que o país conta com infraestrutura extremamente desatualizada. Alguns exemplos são Halliburton, SLB e Weatherford.
E qual o impacto para o Brasil?
No Brasil, as ações das empresas do setor de petróleo fecham em queda nesta segunda-feira, ainda que tímidas, incluindo os papéis da Petrobras (-1,43%) e da Prio (-1,51%).
O recuo nos preços dos ativos no Brasil decorre da constatação de que os preços do petróleo permanecerão baixos por um período mais prolongado. “Esse ano vai ser um ano difícil para os petroleiros se o preço do petróleo realmente ficar onde a gente acha que vai, abaixo dos US$ 60”, analisa Pires.
Por ora, a avaliação é que o impacto para o Brasil tende a ser maior em termos geopolíticos e no preço do barril de petróleo, e não no volume de exportações, já que esta seguirá controlada pela Opep+.
Pires avalia que petroleiras brasileiras também podem se beneficiar no médio e longo prazo de uma eventual abertura do mercado de exploração na Venezuela, a depender do novo arranjo político e econômico que surgirá no país. “Um campo de 20 mil barris não é para Chevron. Um campo desses, por exemplo, pode atrair empresas de médio porte americanas, canadenses, ou até brasileiras, como PetroReconcavo ou Prio”, diz.
Futuro incerto para a Venezuela
Apesar de a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, ter estendido a mão para o governo dos EUA para “trabalharem conjuntamente numa agenda de cooperação orientada ao desenvolvimento compartilhado”, não está claro se o novo governo venezuelano vai de fato cooperar com os EUA na questão petrolífera.
Honorato destaca que Trump deixou claro que seus planos dizem mais respeito ao petróleo venezuelano do que a situação política do país. “Ele não está preocupado em mudar o regime. Então, se tiver um arranjo de uma elite chavista — que é considerada corrupta — ao governo americano, muito provavelmente você vai ter menos impacto do que o imaginável”, analisa.
Outra avaliação é de que uma ocupação militar — como as realizadas pelos Estados Unidos em Iraque e Afeganistão nos anos 1990 e 2000 — é improvável. “Os Estados Unidos teve péssimas experiências com intervenções mais complexas. Acho que o Trump está longe de querer isso. Ele vai querer colocar alguém no poder lá que faça o que ele quer, e que a intervenção vai ser mais política do que militar”, diz Paz.
*Matéria originalmente publicada em IstoÉ Dinheiro, portal parceiro de Bora Investir