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Corte de juros esbarra na geopolítica: como a guerra no Oriente Médio obriga investidores a recalcular a rota

Especialistas traçam cenários e perspectivas de investimentos em renda fixa e variável em diferentes ativos, considerando as incertezas com o risco de inflação no curto prazo

O ciclo de corte de juros começou, mas em uma velocidade mais lenta do que era esperado no início do ano. Investidores que aumentaram as apostas em ativos pré-fixados, de olho na queda do juro, foram surpreendidos pelo conflito no Oriente Médio, o que mudou a perspectiva sobre velocidade e profundidade no corte da Selic.

Diante desta mudança de cenário, especialistas apontam as estratégias para o investidor recalcular a rota em meio às incertezas no curto prazo e à volatilidade que já era esperada para este ano de eleição.

Conflito no Oriente Médio muda leitura de cenário

Na reunião de março, o Comitê de Política Monetária (Copom) entregou o primeiro corte desde maio de 2024, reduzindo a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano, devido ao aumento das incertezas após o início do conflito no Oriente Médio. 

O petróleo, que passou de US$ 72 para uma média de US$ 103 por barril em poucas semanas, trouxe risco para a inflação de combustíveis e frete. E, assim, em poucas semanas, os planos de investimentos mudaram de perspectiva.

Perspectivas de investimentos para tempos de incertezas

Para navegar neste período de incertezas, é preciso ponderar riscos e prazos. Para os títulos prefixados, o consenso entre os gestores é de alerta máximo. 

Alexandre Fernandes, head de crédito da Paramis, explica que a mudança do cenário geopolítico alterou a simetria de risco e retorno dessas posições, que haviam ganhado força com a expectativa inicial de queda de juros. 

Fernando Benavenuto, planejador financeiro e sócio da Anvex Capital, alerta para o erro mais grave do momento, que é a concentração excessiva em prefixados longos, uma vez que a carteira não pode ser montada presumindo que o processo de cortes será linear e imune a choques externos. O prêmio oferecido por esses papéis, na análise de Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, não compensa o risco de assimetria negativa caso o Banco Central decida interromper ou desacelerar os cortes da Selic.

Diversificação com cautela na renda fixa

A palavra de ordem entre os especialistas, portanto, é diversificação e cautela com a volatilidade. Ricardo Trevisan ressalta que o maior erro do investidor é a falta de equilíbrio, lembrando que manter uma parcela saudável em ativos pós-fixados (CDI) é uma atitude prudente que protege a carteira caso os cortes não ocorram no ritmo esperado. 

Na renda fixa, a preferência recai sobre os títulos atrelados à inflação (IPCA+). Trevisan afirma preferir o “miolo da curva”, com papéis vencendo entre dois e quatro anos, pois os títulos muito longos carregam uma volatilidade excessiva impulsionada pelo cenário externo e pelos reflexos dos combustíveis. Benavenuto vai na mesma linha, indicando que a calibragem tem sido gradual para evitar tanto o risco de reinvestimento nos papéis curtos quanto os sobressaltos dos vértices longos.

No crédito privado, que engloba debêntures, CRIs e CRAs, a palavra de ordem é a qualidade do balanço do emissor. Fernandes observa que, após um período de forte compressão dos prêmios no setor, houve uma melhora recente nas taxas, o que levou a gestora a encurtar a duração dos papéis para reduzir a volatilidade. Trevisan e Benavenuto indicam que as oportunidades reais estão em emissores de alta qualidade com fluxo de caixa previsível, dando preferência para debêntures de infraestrutura em energia elétrica e saneamento, além de CRAs de grandes tradings agrícolas, evitando a todo custo empresas alavancadas.

Seletividade na renda variável

No mercado de renda variável, a seletividade dita o ritmo das alocações. Luciano França, head de ações da Paramis, aponta que sua carteira busca assimetrias em empresas que unem valuation descontado, geração de caixa e gatilhos objetivos de reprecificação. 

Entre as apostas, França destaca três frentes principais: incorporação residencial de alta qualidade, empresas de utilities e saneamento, e o setor de óleo e gás. 

Na incorporação residencial de alta qualidade, a tese central é a de empresas com boa execução, disciplina de capital e capacidade de sustentar margem mesmo em um ambiente ainda seletivo, explica Fernandes. “O gatilho de alta é a combinação entre queda de juros, melhora de acessibilidade ao crédito imobiliário e continuidade de vendas fortes, o que tende a destravar múltiplos ainda descontados”, diz.

Sobre utilities e saneamento, a tese é de geração de caixa mais previsível, proteção inflacionária embutida e potencial de reprecificação quando a taxa de desconto cai. “O gatilho de alta é duplo: de um lado, juros reais menores; de outro, entrega operacional, revisões tarifárias e eficiência, que reforçam a percepção de qualidade desses ativos”, avalia.

Já sobre óleo e gás, o head de ações da Paramis ressalta que o gatilho de alta envolve a disciplina de capital em um setor cujo fluxo de caixa é muito relevante, principalmente com o impacto no preço do petróleo em função da guerra no Oriente Médio. 

Trevisan também vê oportunidades em energia elétrica, grandes bancos privados e construtoras de média e alta renda, mas alerta que está reduzindo ativamente a exposição ao varejo discricionário e a empresas alavancadas, já que o alívio no custo da dívida demorará mais e a alta dos combustíveis espreme o orçamento familiar.

Benavenuto destaca que as alocações mais consistentes neste momento de incertezas tendem a se concentrar em bancos de alta qualidade, empresas de infraestrutura e exportadoras ligadas a commodities. 

“No caso dos bancos, a tese se ancora na elevada rentabilidade, disciplina de crédito e capacidade de distribuição de resultados, mesmo em um ambiente macro mais volátil. Em infraestrutura, empresas com receitas reguladas e indexadas à inflação oferecem previsibilidade e proteção real de caixa, além de potencial de reprecificação com a queda de juros. Já no segmento de commodities, a tese está ligada à dinâmica global de oferta e demanda, especialmente em um contexto de tensões geopolíticas que podem impactar cadeias produtivas e sustentar preços internacionais. O gatilho comum a essas teses é a combinação de normalização monetária, resiliência operacional e reavaliação de múltiplos em um cenário de maior visibilidade econômica”, explica.

Para Fernandes, a abordagem não passa por evitar setores ou classes de ativos, já que pode haver oportunidades mesmo em meio ao estresse. “No high grade, no qual os ativos são mais líquidos, estamos mais focados em evitar problemas do que acelerar a alocação. No high yield, ativos menos líquidos, buscamos boas estruturas de garantias. Também procuramos nos antecipar na gestão preemptiva e ativa de eventuais desafios,  atuando em parceria com as companhias  para as quais provemos capital”, diz.

Pontos de atenção: combustíveis, eleição, e juros nos EUA

Olhando para o futuro, os investidores precisam monitorar variáveis críticas que podem forçar novas rotas. 

Além da tensão no Oriente Médio e do preço do petróleo nas bombas, o cenário fiscal doméstico em um ano pré-eleitoral (2026) e as decisões de juros do Federal Reserve nos Estados Unidos estão no radar dos gestores. 

O cenário fiscal poderá elevar o risco de inflação caso aumentem as chances de elevação dos gastos do governo. Medidas de incentivo à economia, por exemplo, tendem a pressionar os preços pelo aumento da demanda. Já as decisões sobre os juros nos EUA podem aumentar ou diminuir a atração do investidor estrangeiro em colocar dinheiro no Brasil – e o fluxo do dólar também compõe outra variável de pressão sobre preços.

Fôlego para o investidor

Apesar das incertezas, Alexandre Fernandes aconselha que o investidor não fique mudando de posição ao ritmo dos acontecimentos.

“Uma carteira construída fundamentalmente com bons nomes não deveria necessitar de mudanças estruturais muito radicais. Talvez seja necessário um ajuste fino em exposições pré-fixadas e inflação em vértices médios, incluindo alguma diversificação internacional”, diz.

Para navegar essa volatilidade, Benavenuto recomenda filtrar o noticiário, focar em tendências de indicadores econômicos e contar com assessoria profissional, pois a disciplina e a consistência são mais determinantes para o sucesso do que os movimentos reativos de curto prazo.

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