Organizar as contas

Já é hora de pensar nos gastos de fim de ano? Saiba como se preparar

Preparação financeira inclui planejamento de gastos com as celebrações, dívidas e contas de início de ano, além da definição de prioridades para evitar desequilíbrios nas finanças

A segunda quinzena de outubro marca o início da preparação para um período de maior pressão sobre o orçamento das famílias. Além das despesas com as festas de fim de ano, os consumidores precisam considerar compromissos que chegam em janeiro, como IPVA e material escolar. Nesse cenário, antecipar o planejamento financeiro e definir o destino do décimo terceiro salário pode ajudar a equilibrar as contas e evitar que gastos concentrados em poucos meses comprometam a renda no início do próximo ano.

Pensar em um plano para os gastos do fim de ano envolve, antes de tudo, uma estratégia consistente de organização financeira, o que inclui pesquisa de preços, antecipação de compras e mesmo a composição de uma reserva financeira.

O professor da FIA Business School Marcos Piellusch destaca que essa tática de antecipação dos gastos ajuda a precaver o investidor quanto a possíveis imprevistos no fim de ano, permitindo uma proteção maior ao orçamento e um uso mais direcionado do décimo terceiro.

“Quem deixa essa organização para dezembro está sujeito à impulsividade e à necessidade de recorrer ao cartão de crédito para parcelar as compras. Pensar com antecedência transforma esse instinto impulsivo em uma decisão integrada no orçamento”, afirma.

Bolívar Godinho, professor de Finanças da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), ressalta o papel que a reserva de emergência desempenha para blindar o orçamento contra gastos impulsivos e ajudar a manter um maior equilíbrio das finanças durante o período. 

“Ter essa reserva é essencial. O ideal é que ela cubra de três a seis meses de gastos para atender a possíveis imprevistos nesse período também.”

Para o especialista, uma recomendação é montar uma planilha para compilar os gastos previstos para o período, o que inclui não somente as despesas de Natal e Ano Novo, mas também as contas que chegam após a virada do ano.

“Uma planilha com o valor dos gastos mensais ajuda a identificar aqueles pequenos gastos que passam despercebidos e também verificar a entrada de caixa. Ao fazer esse planejamento, dá para calcular quanto gastar sem comprometer o orçamento, projetando já as despesas de início do ano, como IPVA, material escolar, entre outras.”

O uso estratégico do décimo terceiro

Para muitos, uma grande vantagem dessa época em relação às finanças é poder contar com o auxílio do décimo terceiro salário, pago geralmente a partir do mês de novembro.

Conforme os especialistas, um uso tático desse valor, no contexto das despesas do fim de ano, passa pelo desenho de um plano em que essa quantia entra como um agente atenuante nos cálculos.

Piellusch pontua que um uso bem aplicado do décimo terceiro consistiria em uma divisão do valor entre quantias separadas para pagamento de dívidas e contas mensais, e para o orçamento destinado às despesas do fim de ano.

“É importante ter em mente que o décimo terceiro não é exatamente um dinheiro ‘extra’, especialmente nesse momento de endividamento alto das famílias. Quem está endividado precisa ter isso como prioridade, seja quitar ou atenuar essas dívidas. E para aqueles que estão com as contas em dia, dividir o valor entre os gastos de dezembro e as contas de janeiro”, afirma.

O professor da FIA menciona ainda a possibilidade de investir uma parte desse capital, quando possível.

“Alocar uma parte num CDB, por exemplo, algo com liquidez diária. Com o patamar atual da Selic, mesmo dois meses de rendimento fazem alguma diferença”, afirma Piellusch.

Godinho, por sua vez, destaca o papel central do décimo terceiro no momento de organizar as contas de fim de ano.

“Planejar e estabelecer metas com aquele dinheiro e evitar agir com impulso. Por isso, deve-se olhar para janeiro, fevereiro e março, para entender o que se pode gastar agora no fim do ano.”

Driblando as armadilhas

Além da proteção contra eventuais imprevistos, o planejamento dos gastos, incluindo o uso estratégico do décimo terceiro, evita que o consumidor caia em determinadas armadilhas que deterioram as finanças e o orçamento disponível.

A principal delas, nesse contexto, seria o uso desmedido do cartão de crédito e, sobretudo, do parcelamento de compras.

“O parcelamento é muito ruim, porque cria-se um fluxo negativo e permanente. Empilham-se gastos ao longo dos próximos meses e isso acaba com a flexibilidade do orçamento. Ao passo que, se você poupar primeiro para comprar depois, a liberdade de capital se mantém.”

Para o professor da UNIFESP, o uso do cartão de crédito, especialmente mais de um cartão, é desaconselhado nesse contexto, não somente pelas consequências do parcelamento no médio e longo prazo, mas também pelos juros altos praticados pelo rotativo do cartão.

“Claro, ele tem suas vantagens, como programas de milhas, cashback. Só que, quando mal usado, o cartão de crédito complica e muito a vida financeira da pessoa.”

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