Onda de recuperações extrajudiciais acende alerta no crédito privado: saiba como proteger seu patrimônio
Com juros altos e crescimento lento, empresas como Raízen e GPA enfrentam reestruturações que podem impor descontos de até 70% no valor dos títulos
O mercado brasileiro de crédito privado atravessa um período de turbulência que tem levado investidores a revisarem suas estratégias. O aumento nos pedidos de recuperação extrajudicial (RE) por empresas de capital aberto reflete um cenário macroeconômico hostil, caracterizado pela manutenção de taxas de juros em patamares elevados e um crescimento econômico abaixo de 2%.
Segundo Marcos Camilo, CEO da Pulse Capital, esse fenômeno não é repentino, mas fruto de um ambiente onde as despesas financeiras corroem a liquidez operacional ao longo do tempo. Quando os juros permanecem altos por períodos prolongados, a inadimplência torna-se um efeito inevitável para companhias muito alavancadas.
Alta de juros ‘secou’ caixa das empresas
A dinâmica entre o custo da dívida e a geração de receita é o que está por trás dessa crise. Bruno Perri, sócio-fundador da Forum Investimentos, explica que a maioria das dívidas corporativas é pós-fixada (indexada ao CDI), o que faz com que o saldo devedor acelere rapidamente em ambientes de juros altos. “Empresas que se endividaram bastante com dívidas pós-fixadas (a taxas flutuantes) em 2020 [quando a Selic estava em 2%] ou no fim de 2023 [quando a Selic começou a cair], veem o custo de suas dívidas aumentar rapidamente”, afirma Perri.
Ao mesmo tempo, há um gatilho para a atual aversão ao risco, que remonta a eventos recentes, como os casos Raízen, GPA e Americanas, além de fraudes em instituições financeiras, como o Banco Master e Digimais.
“Esses eventos aumentaram a percepção de risco, levando os investidores a exigirem mais prêmio, o que resultou no aumento dos spreads”, explica Perri. Esse movimento teve um impacto direto no bolso: em fevereiro e março, muitos fundos de crédito operaram abaixo do CDI, refletindo a marcação a mercado negativa causada pela abertura dessas taxas.
Em contrapartida, a receita das empresas tende a crescer apenas em linha com o PIB e a inflação, resultando em uma piora progressiva nos índices de alavancagem e na capacidade de cobertura de juros. “A receita dessas empresas cresce menos do que a despesa financeira, aumentando a alavancagem e diminuindo a cobertura de juros”, avalia Perri.
O CEO da Pulse Capital reforça que o ambiente de juros altos por tempo prolongado consome a liquidez operacional. “As empresas gastam muito dinheiro com despesas financeiras, reduzindo a capacidade de investimento e de cumprimento de obrigações operacionais. A inadimplência torna-se inevitável”.
Para o investidor pessoa física, o impacto mais imediato dessas reestruturações é sentido no valor dos ativos e na liquidez. No caso da Raízen, títulos de crédito como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) chegaram a registrar descontos de até 70% no mercado secundário em relação ao valor original, segundo Perri, o que significa que um investimento de R$ 10 mil pode ter seu valor de mercado reduzido para R$ 3 mil em momentos de estresse.
‘Delay’ nas agências de rating e busca por alto retorno
Um dos maiores riscos para o investidor está na confiança cega em notas de rating e na busca por taxas de retorno elevadas sem a devida análise técnica. Bruno Perri critica a lentidão das agências de classificação de risco em rebaixar empresas que já demonstram deterioração financeira.
“As agências de rating são consideradas lentas para registrar mudanças, e casos recentes de empresas com notas boas que entraram em recuperação judicial demonstram a necessidade de análises mais aprofundadas”, diz Perri.
Além disso, muitos investidores ignoram que ativos como Debêntures, CRI, CRA e FIDC não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre apenas instrumentos como CDB, LCI e LCA.
Prudência e diversificação
A recomendação dos especialistas para navegar entre ativos e retornos é a prudência e a diversificação rigorosa.
De acordo com Camilo, o investidor deve focar na qualidade dos ativos e no portfólio dos fundos, em vez de olhar apenas para a performance passada.
Perri sugere que o investidor adote políticas próprias, como nunca concentrar mais de 1% da carteira em um único emissor. Ele cita também que investir em fundos de crédito, que já são diversificados por natureza, com 40 a 45 papéis, também pode ser uma saída. E, se um investimento parecer problemático e não adequado ao perfil de risco, o investidor deve considerar vendê-lo antes que um evento de crédito ocorra, porque depois é mais difícil sair sem perdas significativas.
Caso o perfil do investidor não comporte a volatilidade e o risco de crédito atual, a migração para títulos do Tesouro Direto ou ativos bancários com garantia do FGC pode ser o caminho mais seguro.
“O mercado de capitais no Brasil ainda precisa amadurecer muito e aprender a precificar o risco corretamente”, afirma Marcos Camilo.
O horizonte de alívio: 2027 e 2028
Para quem espera uma melhora rápida, o diagnóstico de Bruno Perri é de cautela. Ele prevê um período de “aperto nos cintos” que deve durar ao longo de 2026. “As empresas devem se preparar para um período difícil devido aos juros altos e ao baixo crescimento. A expectativa é de que o ciclo melhore apenas em 2027 ou em 2028, com juros menores trazendo alívio estrutural para o caixa”, diz. Isso porque uma queda consistente na Selic leva cerca de um ano para ser plenamente sentida nos balanços, reduzindo as despesas financeiras e liberando capital para a operação.
Neste intervalo, as empresas alavancadas precisam focar na redução do endividamento à medida que os vencimentos ocorrem.
Para o investidor, o cenário de crise abre uma janela de oportunidade, mas que exige seletividade técnica. Enquanto o mercado está avesso ao crédito privado, preferindo a segurança do Tesouro Direto ou de ativos bancários com garantia, surgem chances de adquirir papéis de empresas de alta qualidade com taxas muito superiores às de meses atrás.