Investir melhor
Arthur Vieira: O papel não paga nada!
Sempre tem alguém e um motivo do outro lado na mesa
Gosto de começar minhas palestras com essa imagem e a frase: sempre tem alguém e um motivo do outro lado da mesa.

Bilhões de reais circulam diariamente no mercado financeiro. Milhões de pessoas investindo em centenas de produtos financeiros disponíveis, como os títulos do Tesouro Direto, aplicações bancárias, debêntures, CRI, CRA, ações, cotas de fundos entre tantos outros.
Se existe um título disponível para você investir, existe alguém que o emitiu e por algum motivo. O alguém pode ser o próprio Tesouro Nacional (governo federal), uma instituição financeira ou empresas dos demais setores. O motivo é conseguir dinheiro para financiar suas atividades, investimentos ou projetos. Por meio de empréstimos, quando o título for de renda fixa, ou vendendo uma participação da empresa, quando for renda variável. Portanto, esse alguém se compromete a pagar juros pelo dinheiro que pegou emprestado ou dividir uma parte dos lucros.
Do outro lado o alguém é você, que tem seus motivos, seus objetivos, ao escolher investir em um dentre centenas de títulos disponíveis. Você empresta o seu dinheiro ou se torna sócio de uma empresa, com expectativa de receber mais dinheiro de volta no futuro.
É comum, em jargão de mercado, dizer que “o papel paga juros” ou “o papel paga dividendos”, mas o fato é que “o papel” não paga nada! Quem paga os juros ou os dividendos é o alguém que o emitiu.
Os títulos do Tesouro Direto vão render juros desde que o governo os pague. Um CDB vai render juros desde que o banco que o emitiu pague. Uma debênture vai render juros desde que a companhia que a emitiu pague. Uma ação vai distribuir dividendos desde que a companhia que a emitiu tenha lucro. E assim por diante.
Ou seja, o dinheiro que você espera receber como retorno do seu investimento não cai do céu e sim sai do bolso de alguém. Isto é, ele precisa ser gerado por alguma atividade econômica. No fim da cadeia, alguém precisa gerar receita, caixa, lucro ou recursos públicos suficientes para que a sua expectativa de ganho se realize.
Da mesma forma, o dinheiro que está financiando as atividades do governo, dos bancos e demais empresas, também não caiu do céu e sim saiu do seu bolso e de milhões de outros brasileiros, que escolheram investir nos títulos.
Como essa imagem te ajuda a investir melhor
Quando você visualiza isso e entende que sempre existe alguém e um motivo por trás de cada investimento disponível, fica mais claro um roteiro para tomar boas decisões de investimentos.
Saiba em que está investindo
Lembre-se que o papel não paga nada. Entenda quem está do outro lado da mesa, porque aquela empresa (ou governo) precisa de dinheiro e como a atividade dela gera dinheiro para poder te pagar de volta.
Mais retorno vem acompanhado de mais risco
O que você espera ganhar é aquilo que, do outro lado da mesa, o governo ou alguma empresa tem obrigação de te pagar. Quanto maior for a sua expectativa de ganho, mais difícil será para quem está do outro lado conseguir gerar dinheiro para te pagar juros ou gerar lucro para distribuir dividendos.
Se for renda fixa, informe-se sobre garantias
Você emprestaria dinheiro para uma empresa sem que ela te ofereça nenhuma garantia caso não consiga pagar? Se você investe em CRI, CRA e debêntures, provavelmente já fez isso. Conheça as garantias e avalie se faz sentido para você emprestar dinheiro nessas condições.
Conheça os seus objetivos ao investir
Assim saberá avaliar se faz sentido comprar um título que existe para satisfazer os objetivos de quem está do outro lado da mesa. Caso contrário, não invista.
Antes de escolher um investimento apenas porque rende mais, porque é isento de imposto de renda ou porque o seu assessor te sugeriu, lembre-se que o dinheiro não vai cair do céu e sim ser gerado por um negócio que precisa vender, gerar caixa e lucrar.
Na próxima vez que olhar para um investimento, imagine a mesa. De um lado, você e seus objetivos. Do outro, alguém que precisa do seu dinheiro e tem um objetivo para buscá-lo. Antes de perguntar quanto o papel paga, pergunte quem está do outro lado e de onde virá o dinheiro para pagar você.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3