Renda variável
Einar Rivero: A nova cara da bolsa brasileira. Recorde de volume revela diversificação crescente dos investidores
Levantamento da Elos Ayta mostra que, embora o mercado de ações continue dominante, ETFs, BDRs e fundos imobiliários ganham participação e indicam amadurecimento estrutural da B3
Einar Rivero
Einar Rivero é engenheiro e especialista em dados financeiros, com carreira dedicada à análise de informações econômicas e à geração de insights estratégicos para o mercado. Ao longo de mais de duas décadas, atuou em posições de liderança em grandes plataformas de dados, consolidando-se como referência em estudos e levantamentos sobre o mercado financeiro brasileiro, América Latina e EUA.
Os números da bolsa muitas vezes revelam mudanças que não aparecem imediatamente nas manchetes. Um levantamento da consultoria Elos Ayta sobre o volume financeiro médio diário anual negociado na B3 entre 2020 e 2026 mostra exatamente isso: a bolsa brasileira continua crescendo, mas também está mudando de perfil.

Em termos nominais, praticamente todos os segmentos analisados atingem níveis recordes ou próximos dos recordes históricos em 2026. O volume médio diário total negociado chega a R$ 29,5 bilhões, aproximando-se do pico observado em 2021, período marcado pela forte participação de investidores pessoa física.
Mas a informação mais relevante não está apenas no tamanho do mercado, e sim na forma como esse volume está distribuído entre os diferentes ativos negociados na bolsa.
Ações ainda dominam, mas sua participação diminui
O mercado à vista de ações, negociado em lote padrão, continua sendo o principal motor de liquidez da bolsa brasileira.
Em 2026, o segmento movimenta R$ 25,8 bilhões por dia, o segundo maior volume da série histórica, atrás apenas de 2021.
Apesar disso, quando se observa a participação relativa desse segmento no volume total negociado, a tendência é de redução gradual.
A fatia das ações caiu de 93,8% do volume total em 2020 para 87,6% em 2026.
Esse movimento não significa perda de relevância das ações, mas sim um fenômeno diferente: o crescimento de outros instrumentos financeiros negociados na bolsa.
Segundo estudos clássicos de microestrutura de mercado desenvolvidos por economistas como Maureen O’Hara e Joel Hasbrouck, a diversificação dos instrumentos negociados é um dos sinais de amadurecimento de um mercado de capitais. À medida que novos produtos ganham liquidez, o mercado tende a se tornar mais profundo e eficiente.
ETFs ganham espaço e refletem avanço da gestão passiva
Entre os segmentos que mais avançam em participação estão os ETFs, fundos de índice negociados em bolsa.
O volume médio diário desses produtos cresce de R$ 1,4 bilhão em 2020 para R$ 2 bilhões em 2026.
Mais relevante ainda é o aumento da participação relativa no mercado:
- 2020: 5,16%
- 2025: 7,14%
- 2026: 6,80%
Esse patamar representa o segundo maior percentual da série histórica.
O crescimento acompanha uma tendência global. Estudos da indústria financeira mostram que os ETFs vêm se consolidando como uma das principais portas de entrada para investidores que buscam diversificação e baixo custo de investimento.
BDRs registram maior participação da série histórica
Se os ETFs crescem de forma consistente, os BDRs apresentam uma expansão ainda mais acelerada.
O volume médio diário negociado nesse segmento sobe de R$ 104 milhões em 2020 para R$ 1,1 bilhão em 2026, um crescimento superior a dez vezes no período.
Como consequência, a participação no volume total negociado na bolsa atinge 3,86%, o maior nível de toda a série histórica.
O avanço reflete uma mudança importante no comportamento do investidor brasileiro: o aumento da diversificação internacional das carteiras.
Após mudanças regulatórias que ampliaram o acesso aos BDRs para investidores pessoa física, tornou-se mais simples investir em empresas estrangeiras diretamente pela bolsa brasileira.
Fundos imobiliários ampliam liquidez na bolsa
Outro segmento que apresenta crescimento relevante é o dos fundos de investimento imobiliário (FIIs).
O volume médio diário negociado sobe para R$ 519 milhões em 2026, enquanto a participação no total chega a 1,76%, também o maior nível da série histórica.
Desde 2020, a fatia desse mercado praticamente triplicou.
Esse movimento reflete o interesse crescente de investidores em ativos que combinam renda periódica, exposição ao setor imobiliário e liquidez de negociação em bolsa.
Estrangeiros voltam, mas o mercado está diferente
Um ponto adicional chama atenção no levantamento: em 2026, a bolsa brasileira registra forte entrada de investidores estrangeiros.
Mesmo assim, o volume médio diário total ainda permanece abaixo do registrado em 2023.
Isso sugere que o crescimento recente da liquidez não está sendo impulsionado apenas pelo mercado de ações tradicional, mas também pela expansão e diversificação de instrumentos negociados na bolsa.
Em outras palavras, a estrutura do mercado está mudando.
Uma bolsa mais diversificada e sofisticada
A análise do volume negociado entre 2020 e 2026 aponta para três tendências estruturais do mercado brasileiro:
1. Diversificação dos instrumentos financeiros
ETFs, BDRs e FIIs ganham espaço no volume total negociado.
2. Internacionalização das carteiras
O crescimento dos BDRs mostra o aumento da exposição dos investidores brasileiros a empresas globais.
3. Evolução da estrutura do mercado
A bolsa passa gradualmente de um ambiente predominantemente acionário para uma plataforma mais ampla de negociação de diferentes classes de ativos.
Na prática, isso indica que a B3 está se tornando um mercado cada vez mais profundo e diversificado, acompanhando a evolução observada em outras bolsas internacionais.
E, como costuma ocorrer nos mercados financeiros, quando a estrutura muda, também surgem novas oportunidades para investidores e gestores de recursos.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3