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Em busca do portfólio perfeito – ele existe?


Estela Borgheri, colunista do Bora Investir

Estela Borgheri

Planejadora Financeira e co-fundadora da empresa Vínea Gestão de Capital, Estela é formada em Administração de Empresas e pós-graduada em Business Administration pelo Insper. Possui a certificação CFP® e é Consultora CVM


Esse é o tema de um livro muito famoso e conhecido no mercado financeiro e que ajuda muito os alocadores de carteira a conseguirem encontrar uma fórmula na gestão de ativos. Mas antes que você morra de curiosidade para saber a resposta: não, não existe UM portfólio perfeito.

A história dos investimentos começa há muito tempo e o autor do livro conta uma passagem muito interessante sobre o que pode ter sido a origem dos fundos de investimento da forma como são hoje.

É a história das “30 Imortais de Genebra” (ou “Trente Demoiselles”): na França, século XVIII, o ministro das Finanças de Luís XVI, deu uma solução “genial” (e muito criativa) para permitir que os franceses participassem da guerra da Independência americana, sem sobrecarregar os contribuintes franceses – porque como sabemos, uma guerra exige muitos recursos públicos e naquela época não era diferente. Ele então propôs fazerem empréstimos de investidores privados (pessoas comuns). Mas o “tiro no pé” foi que ele propôs que o pagamento desses empréstimos fosse na forma de anuidades vitalícias: enquanto a pessoa permanecesse viva, o credor recebia um pagamento anual. E ainda tinha uma “colher de chá”: o credor poderia determinar a pessoa em cuja vida a anuidade foi emitida.

Não demorou muito para que as pessoas mais inteligentes, banqueiros suíços por exemplo, descobrissem como ganhar muito dinheiro com isso. Vários bancos de Genebra entraram no esquema, desenvolvendo fundos de investimento que representavam um conglomerado de anuidades vitalícias emitidas pelo governo francês. Os bancos criaram uma lista de jovens genebrinas, geralmente com idades entre 5 e 10 anos, que após sobreviverem à varíola, foram nomeadas como as vidas que receberiam as anuidades vitalícias. Ou seja, enquanto essas jovens saudáveis, que já passaram pelos grandes problemas da vida, sobrevivessem, o governo francês deveria pagar anuidades àqueles fundos de investimento que detinham essas anuidades. Grande parte da população de Genebra investiu no esquema. Nasceu então o que ficou conhecido como as “30 imortais de Genebra”. A essa altura, você já pode imaginar que não deu certo: a prática contribuiu para agravar a crise fiscal da monarquia francesa, sendo um dos fatores do colapso das finanças públicas que antecedeu a Revolução Francesa.

Isso tudo para dizer que esquemas de investimento já existem há muito tempo, porém foi com alguns grandes nomes do mercado que eles deixaram de ser empíricos, ganharam teses e se revolucionaram.

Nomes como Harry Markowitz, que criou a ideia de que você pode combinar ativos e reduzir a variância da carteira. A fronteira eficiente de Markowitz significa que você não precisa se concentrar em cada ativo individual, mas sim em um portfólio que oferece o maior nível de retorno esperado para um determinado nível de risco.

Outro grande contribuinte foi William Sharpe, com seu modelo que ajudou a democratizar o investimento, mostrando que é possível obter retornos satisfatórios sem precisar de conhecimento técnico extenso para escolher ativos específicos, por meio de portfólios diversificados e investimentos passivos, como fundos de índice e ETFs (fundos que acompanham um índice, como por exemplo um fundo que acompanha o CDI, então rende muito próximo a esse indicador).

E o autor do livro cita muitos outros. Cada um com sua teoria e percepção de mercado do que é eficiente em uma alocação perfeita.

Mas na minha opinião nenhum deles está mais certo do que Bob Schiller. Reconhecido por destacar a importância das emoções e comportamentos humanos, e não apenas da racionalidade, na movimentação dos mercados financeiros, ele é um dos pioneiros da área de finanças comportamentais. Ele diz que há um portfólio perfeito para cada indivíduo.

Todas essas teorias super-racionais, se não considerarem as reações humanas e acima de tudo as particularidades de cada indivíduo, jamais serão perfeitas.

O seu portfólio precisa ter uma alocação que respeita: sua idade, sua fase de vida, seu perfil de tolerância ao risco, sua capacidade e disponibilidade de acumulação de patrimônio, sua renda, os projetos de vida que você tem hoje (tem filhos? quer ter? está comprando um imóvel? quer tirar um sabático?). Por isso é única.

Nem todas essas cabeças brilhantes citadas no livro, juntas e trabalhando para você, criariam um portfólio sequer bom com informações que não respeitem os pontos que elenquei acima. De que adianta ter uma carteira toda estruturada para longo prazo, com ativos de risco como ações, se o seu objetivo é juntar dinheiro para um sabático ano que vem? Ou se você é muito conservador e não aguenta volatilidade?

É importante que você ouça do seu consultor/assessor muito mais perguntas quando vai elaborar uma carteira do que obtenha respostas. Cuidado com quem te aconselha sem fazer essas perguntas primeiro – essa certeza não existe. Nada está dado.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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