Tesouro direto
Professor Mira: O sobe e desce das taxas do Tesouro Direto; como funciona a oscilação dos títulos do TD
Tesouro Direto: taxas voltaram a subir e o saldo do IPCA+ caiu. Entenda a marcação a mercado
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Em uma semana, o Tesouro Prefixado 2029 passou de 13,84% para 12,31% ao ano, na queda diária mais forte dos prefixados desde 2008, e quem tinha o título viu o saldo engordar. Nesta quarta-feira, 14, o mesmo papel já pagava 12,54%, e o investidor que abriu o aplicativo descobriu que a marcação a mercado também anda para trás.
Acontece que esse ganho só vira dinheiro para quem vende antes do vencimento, e a volta das taxas acrescenta uma lição: o tamanho do susto depende do prazo do título, e quem escolhe um prazo incompatível com o próprio objetivo transforma uma oscilação passageira em prejuízo de verdade.
Por que as taxas do Tesouro Direto voltaram a subir
A virada começou na terça-feira, 13, primeiro pregão depois do feriado, com a maior alta diária dos prefixados desde o primeiro turno, e ganhou força hoje com fatores que puxam na mesma direção: as primeiras pesquisas do segundo turno trouxeram leituras diferentes sobre a vantagem do primeiro colocado, a inflação americana de setembro veio acima do esperado e o petróleo voltou a passar de US$ 106 o barril.
O dado americano pesa mais do que parece, porque a chance de o Fed voltar a subir juros na reunião do fim do mês saltou de 22% para 54% em poucas horas, e quando a taxa paga pelo governo dos Estados Unidos sobe, o investidor global passa a exigir mais para emprestar a países emergentes, o que chega às taxas do Tesouro Direto mesmo que a gente não tenha nenhuma notícia doméstica ruim.
Aqui dentro, o Boletim Focus elevou a inflação esperada para 2026 de 5,01% para 5,22%, depois de o IPCA em 12 meses estourar o teto da meta, e inflação mais alta é o pior inimigo do prefixado, porque corrói o ganho real da taxa que você travou. Com novas pesquisas previstas para esta semana, a oscilação deve continuar até 25 de outubro.
Prefixado e IPCA+ longos: a oscilação é proporcional aos prazos
O conceito que melhor explica esse movimento foi formalizado em 1938 pelo economista Frederick Macaulay: a duration, que mede, de forma simplificada, quanto tempo em média o investidor espera para receber o dinheiro do título.
Quanto maior esse prazo, mais o preço reage a cada mudança na taxa, porque o desconto aplicado se acumula ano após ano, e é por isso que dois títulos do Tesouro Direto podem oscilar em intensidades muito diferentes no mesmo dia.
Os números desta semana mostram o efeito na prática, já que a alta de 0,23 ponto no Prefixado 2029, que vence em pouco mais de dois anos, tira perto de 0,5% do preço, enquanto uma alta bem menor, de 0,07 ponto, no Tesouro IPCA+ 2050 leva cerca de 1,5% do saldo. É o mesmo mecanismo que, na direção contrária, fez alguns títulos longos de IPCA+ valorizarem perto de 25% em um mês.
Aversão à perda: o risco de conferir o saldo todo dia
Em 1995, os economistas Shlomo Benartzi e Richard Thaler descreveram a aversão míope à perda: como a dor de perder pesa mais do que o prazer de ganhar, quem confere a carteira com muita frequência enxerga mais quedas do que o retorno de longo prazo justificaria e tende a decidir pior, mesmo com um investimento que, no horizonte certo, entrega exatamente o que prometeu.
Para quem vai carregar um Tesouro IPCA+ 2050 até o vencimento, uma queda de 1,5% em dois dias é ruído, e vender agora, com medo de devolver o ganho da eleição, significa trocar uma taxa de inflação mais 6,62% ao ano por uma decisão tomada no ritmo das pesquisas. Antes de mexer na carteira, algumas respostas valem mais do que a cotação do dia:
- Se você vai precisar do dinheiro antes do vencimento, aceite que o preço de saída depende do dia da venda, ou troque por um título com prazo casado com suas metas.
- Se a alta das últimas semanas fez a renda fixa longa ganhar peso demais na carteira, realizar parte para voltar à alocação definida é rebalanceamento, sem relação com palpite eleitoral.
- Se a vontade de comprar nasceu só porque o título subiu, lembre que título longo comprado para lucrar com a próxima queda de taxa é aposta, mesmo que o emissor seja o Tesouro.
- A reserva de emergência continua no Tesouro Selic, que hoje paga a Selic mais 0,09% ao ano e quase não oscila.
Ajuste fiscal e juros da dívida decidem o rumo do Tesouro
Daqui em diante, o rumo das taxas passa pelo fiscal: parte dos gestores avalia que o mercado antecipou nos preços um ajuste nas contas públicas que ainda não existe, e as propostas em disputa divergem sobre regra fiscal, salário mínimo e benefícios, num ano em que os juros da dívida pública devem chegar a R$ 1,2 trilhão.
O Copom de 4 de novembro vai decidir depois das urnas, com a Selic em 13,75%, a inflação esperada subindo e os juros americanos sob pressão, e por isso a taxa de um título longo carrega hoje uma pergunta que pesquisa nenhuma responde: quanto ajuste o próximo governo vai entregar, e em quanto tempo?.
Quem compra um IPCA+ 2050 a 6,62% está emprestando ao país por quase 24 anos a uma taxa que já embute um palpite sobre essa resposta, e o saldo vai oscilar a cada sinal vindo de Brasília. O título é do Tesouro, mas o preço de cada dia é a opinião do mercado sobre o próximo governo, e opinião, ao contrário da taxa contratada, não tem data de vencimento.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3