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Professor Mira: ETFs internacionais na B3 e a proteção que a eleição testou
ETFs internacionais na B3 subiram enquanto bolsa, FIIs e Tesouro longo caíram. Veja como montar sua proteção sem abrir conta lá fora
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Se toda a sua carteira de ações estava na bolsa brasileira, sem nenhuma fatia em ETFs internacionais, ela encolheu quase 18% entre a sexta-feira anterior ao segundo turno, 23 de outubro, e a sexta-feira seguinte, dia 30, que foi quanto caiu nesse período o BOVA11, o ETF que replica o Ibovespa.
Nessa mesma semana, o IVVB11, negociado na B3 e atrelado ao S&P 500, o índice das 500 maiores empresas americanas, subiu 8,5%, e essa distância explica melhor do que qualquer teoria por que essa fatia merece espaço na carteira.
Não quero que você leia esse número como prova de que a bolsa americana é melhor que a nossa, pois não é o objetivo e nem é isso que o número significa. A semana pós-eleição mostrou uma parte da carteira reagindo ao contrário da outra no momento em que o investidor mais precisava, e esse é o sentido de proteger a carteira: evitar que ela se mova inteira para o mesmo lado.
Por que os ETFs internacionais subiram no pós-eleição
A explicação está menos em Wall Street do que no câmbio: o IVVB11 é um fundo brasileiro, com cotas em reais, que investe no S&P 500, então quando o dólar sobe, o mesmo patrimônio passa a valer mais reais. Foi o que aconteceu em 26 de outubro, quando o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,40, no pregão em que o Ibovespa caiu 13,88%.
A prova está nas duas versões do mesmo índice: entre 23 de outubro e 3 de novembro, o S&P 500 caiu 0,7% em dólar e subiu 8,3% em reais, ou seja, todo o ganho do investidor brasileiro veio da alta de cerca de 10% do dólar.
Repare na lógica: o mesmo medo que derruba as ações brasileiras, o de que as contas públicas fiquem sem ajuste, empurra o dólar para cima, já que quem desmonta posição na bolsa daqui sai também do real.
Na carteira, a conta fica assim: com 80% em BOVA11 e 20% em IVVB11, a perda naquela semana teria sido de perto de 12,7%, contra os quase 18% de quem estava só no Ibovespa. A fatia internacional não evitou o prejuízo, mas reduziu o tombo em cerca de 30%.
Diversificação internacional começa pelo seu salário
Concentrar tudo no próprio país é tão comum que ganhou nome, viés doméstico, depois que os economistas Kenneth French e James Poterba mostraram, em artigo de 1991, que americanos, japoneses e britânicos mantinham quase todo o patrimônio em ações locais. Aqui ele pesa mais, pois o Brasil responde por menos de 1% do valor das bolsas do mundo nos índices da MSCI, e os Estados Unidos, por mais de 60%.
O desdobramento mais útil veio em 1997, com estudo de Marianne Baxter e Urban Jermann demonstrando que a renda do trabalho anda junto com a economia do país onde a pessoa vive. No nosso dia a dia, o seu salário, o seu emprego e o seu imóvel já são apostas no Brasil, e quando a crise é brasileira, todos sofrem junto com a sua carteira.
A semana pós-eleição mostrou que essa lógica vale também dentro dos investimentos: quem trocou ação por fundo imobiliário ou por Tesouro longo achando que estava diversificado, viu tudo cair junto, e o IFIX, índice dos fundos imobiliários, recuou cerca de 11,7% entre 23 de outubro e 3 de novembro, para perto do menor nível em 12 meses.
No Tesouro Direto, a taxa do IPCA+ 2032 saltou de 6,72% para 8,10% acima da inflação em 26 de outubro, a segunda maior alta diária da série iniciada em 2005, e o IPCA+ 2050 perdeu 23,6% na marcação a mercado naquele dia.
Nada disso desqualifica FIIs ou Tesouro: a perda na marcação só se realiza para quem vende Tesouro antes do vencimento, e no caso dos FIIs, quem vive da renda deve olhar mais para os rendimentos do que para a cota. A semana só deixou claro que, nesta crise, o único fator da carteira que andou ao contrário foi o câmbio.
Dólar a R$ 5,49: o seguro sai caro depois do acidente
Antes de correr para o home broker, vale olhar o outro lado: entre 4 de novembro de 2025 e 23 de outubro de 2026, o BOVA11 subiu 36,7% e o IVVB11, apenas 4,6%, com o real valorizado, e é nesse tipo de período que muita gente abandona a parcela internacional.
Funciona como qualquer seguro, cujo prêmio é pago nos anos em que nada acontece, e bastaram seis pregões para o placar de 12 meses se inverter: até 3 de novembro, o IVVB11 acumulava alta de 14,3%, e o BOVA11, de 10,5%.
O risco agora é o oposto, o de comprar dólar depois que ele já subiu, como quem contrata o seguro do carro com o para-choque amassado. A moeda fechou nesta terça-feira a R$ 5,49, maior nível desde o fim de 2025 e acima dos R$ 5,34 que o Boletim Focus projeta para dezembro, e a fatia internacional se constrói com aportes graduais, sem tentar adivinhar o topo.
A fatia de fora também tem riscos próprios, como juros americanos mais altos e um dólar que perdia força no mundo nesta quarta-feira, após a vitória democrata nas eleições de meio de mandato, e por isso eu sempre reforço que ela entra como seguro, nunca como aposta.
Como investir no exterior pela B3 sem conta lá fora
Se você deseja essa diversificação internacional, o caminho ficou mais simples: segundo a B3, já são 219 ETFs com emissão local e 312 BDRs de ETFs, recibos de fundos negociados lá fora, e os investidores em ETFs chegaram a 929 mil em agosto. Tudo se compra pelo home broker, em reais, exatamente da mesma forma como você compra ações.
O ETF local é um fundo brasileiro que replica um índice de fora, enquanto o BDR de ETF dá acesso a um fundo listado no exterior e amplia o cardápio de regiões e setores. Alguns cuidados valem para os dois:
- Mantenha a reserva de emergência em renda fixa no Brasil, porque as suas despesas são em reais.
- Conte com o imposto: ETFs de ações e BDRs pagam entre 15% e 25% de IR sobre o ganho, sem a isenção de R$ 20 mil mensais das ações brasileiras, com recolhimento por sua conta.
- Diversifique sem pulverizar: poucos ETFs amplos fazem mais do que dezenas de BDRs comprados por impulso.
Nas minhas carteiras recomendadas na Comunidade Mira, ETFs e BDRs de teses globais comprados na própria B3 têm função de proteção, ao mesmo tempo em que há carteiras nas quais recomendo outras composições para quem precisa de renda imediata em reais, renda e crescimento, renda em dólar, etc. São várias carteiras, justamente porque o peso de cada parte tem que vir sempre da sua meta, e não do noticiário.
Depois do Copom, o câmbio vai depender do ajuste fiscal
O Copom anuncia nesta quarta-feira, à noite, a decisão sobre a Selic, hoje em 13,75%, com o mercado apostando na manutenção. A resposta que vai mover o câmbio e a bolsa, porém, virá depois, com a escolha da equipe econômica e o desenho do ajuste das contas públicas que o governo reeleito ainda não apresentou.
Considero provável que o ajuste aconteça, porque o espaço para aumentar impostos no Congresso é estreito, e se ele vier o real tende a recuperar terreno e a parcela internacional voltará a parecer peso morto.
É aí que ela mostra seu valor menos óbvio: permite comprar ações brasileiras descontadas e títulos com taxas raras, como o Tesouro IPCA+ 2032, que voltou a pagar 8,03% acima da inflação na terça-feira, sem que todo o patrimônio dependa do prazo e do tamanho do ajuste.
Com uma parte do patrimônio ligada ao crescimento global, o investidor consegue carregar esses ativos brasileiros até que o ajuste fiscal apareça nos preços, sem ser obrigado a vendê-los no pior momento para cobrir uma perda que a carteira inteira sofreu junto.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3