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Professor Mira: Ibovespa sobe após o 1º turno da eleição; entenda o que o preço já embute e como agir até o 2º turno
O histórico ajuda a calibrar a surpresa: desde 2002, o Ibovespa subiu no primeiro pregão após o primeiro turno em seis de sete eleições presidenciais
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
A alta de 7,70% do Ibovespa na segunda-feira (5) pós-eleição foi a maior em um único pregão desde março de 2020 e, claramente, uma aposta coletiva sobre um futuro que ainda não aconteceu. É justamente por isso que esse número pede de quem investe mais cuidado do que entusiasmo.
Ibovespa em alta, dólar recuando e juros futuros de prazo mais longo em significativa queda, são uma espécie de reprecificação do risco Brasil feita na velocidade da apuração. O resultado das urnas, na visão do mercado, aumenta a probabilidade de um ajuste nas contas públicas no próximo governo, e daí o raciocínio se encadeia: se o risco fiscal cai, o investidor aceita um prêmio menor para financiar o Tesouro, os juros longos recuam, o real se fortalece e o lucro futuro das empresas passa a valer mais no presente.
Acontece que a dívida pública desta terça-feira é a mesma de sexta, assim como o orçamento e a regra fiscal, e é nessa distância entre preço e fundamento que mora a sua decisão.
Por que o Ibovespa sobe antes de as contas públicas mudarem
O preço de uma ação corresponde ao valor presente dos lucros que a empresa deve gerar ao longo dos anos, descontados por uma taxa que embute os juros do país e o risco de investir nele. Quando essa taxa cai, a mesma empresa, com o mesmo lucro, passa a valer mais, e por isso bancos e varejo, setores sensíveis a juros e ao consumo doméstico, puxaram a alta.
O histórico ajuda a calibrar a surpresa: desde 2002, o Ibovespa subiu no primeiro pregão após o primeiro turno em seis de sete eleições presidenciais, mas a maior reação até então tinha sido de 5,54%, em 2022, o que mostra que o inesperado estava no tamanho do movimento, e não na direção.
Algumas casas de análise estimam que as ações brasileiras, excluídas as duas gigantes de commodities do índice, ainda teriam espaço para subir de 11% a 20% se o múltiplo de preço sobre lucro voltasse à média histórica, mas repare na condição embutida no cálculo: o múltiplo só volta à média se a expectativa que acabou de entrar no preço se confirmar, o que transforma esse potencial em continuação da mesma aposta.
Dólar a R$ 5 e juros futuros em queda: quem ganha e quem perde
O movimento que empurrou o índice para cima derrubou outra parte da Bolsa: com o dólar saindo de R$ 5,22 na sexta para R$ 5,00 na segunda-feira, cada dólar de receita das exportadoras passou a valer menos reais, e empresas de celulose, aviação e mineração fecharam em queda num dia de euforia generalizada.
Considero esse contraste muito didático porque mostra que uma carteira bem construída dificilmente sobe inteira num dia como esse, e nem deveria, já que a parcela que caiu, assim como os ativos dolarizados que encolheram em reais, é a que protege o seu patrimônio se o câmbio voltar a se depreciar, e desmontá-la logo depois de uma queda de 4% no dólar costuma render arrependimento no primeiro susto.
Tesouro prefixado e IPCA+ continuam atrativos?
No Tesouro Direto, o prefixado com vencimento em 2032 saiu de 14,21% ao ano na última sexta-feira, para 12,71% na manhã desta terça, e quem já tinha esse título ou um Tesouro IPCA+ viu o saldo subir por causa da marcação a mercado.
Quem chega agora entra com uma taxa 1,5 ponto menor e herda um risco: se a disputa até 25 de outubro trouxer de volta a incerteza fiscal, as taxas sobem de novo e a marcação passa a jogar contra. Com a Selic em 13,75% ao ano desde a reunião do Copom de 16 de setembro, o pós-fixado segue entregando juro real elevado sem esse sobe e desce, e ao meu ver continua sendo o lugar natural para a reserva de emergência e para o dinheiro com data marcada nos próximos meses.
Efeito manada: o risco de comprar na euforia
Dias assim acionam dois vieses bem documentados pelas finanças comportamentais: Em 1992, os economistas Sushil Bikhchandani, David Hirshleifer e Ivo Welch chamaram de cascata informacional o momento em que cada investidor copia os outros e deixa a própria análise de lado, supondo que a multidão sabe algo que ele não sabe.
O viés oposto foi descrito por Hersh Shefrin e Meir Statman em 1985 como efeito disposição: a pressa de vender o que subiu para garantir o lucro e a teimosia de segurar o que caiu. Nesta semana é ele que empurra o investidor a realizar o que disparou e manter o que recuou, sem que nenhuma das duas decisões converse com o objetivo da carteira.
Os dois reagem ao preço do dia, e quem decide assim acaba operando a eleição em vez de cuidar do próprio objetivo. Na prática, o plano vem antes da cotação:
- Confira a sua alocação-alvo antes de olhar a cotação: se a alta fez a fatia de ações passar do percentual que você definiu, rebalancear é disciplina de carteira, sem relação com palpite eleitoral.
- Se você estava fora da Bolsa e quer entrar, divida o aporte em parcelas ao longo das próximas semanas.
- No caso dos títulos de renda fixa, case o prazo do título com o prazo de sua meta, porque prefixado longo só faz sentido para o dinheiro que pode esperar o vencimento.
- Mantenha a reserva de emergência no pós-fixado, onde a volatilidade entre os turnos não chega.
O teste do Ibovespa começa depois de 25 de outubro
Até 25 de outubro, a oscilação deve continuar alta: o índice que mede a volatilidade esperada do Ibovespa bateu recorde, aos 33,21 pontos, na sexta-feira anterior à votação. O teste mais importante, porém, vem depois das urnas e passa pelo câmbio.
Um real mais forte barateia importados e combustíveis e ajuda a segurar uma inflação que o Banco Central projeta em 5,2% para 2026, acima do teto da meta, de 4,5%. Não por acaso, as apostas num corte de 0,50 ponto na Selic em dezembro saltaram de 18% para 45% em um único dia.
O Copom de 4 de novembro vai decidir já conhecendo o resultado da eleição, mas sem nenhuma medida fiscal sobre a mesa, e daí em diante a equipe econômica, o orçamento de 2027 e a regra fiscal vão pesar mais do que qualquer pesquisa.
Se o ajuste vier, os juros longos têm espaço para cair mais; se não vier, a curva que despencou em um dia pode devolver o movimento em poucas semanas. Na segunda-feira, o mercado antecipou o desconto, mas a fatura do ajuste ainda nem foi emitida, e é ela que vai dizer se esse preço foi lucidez ou pressa.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3