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Professor Mira: Ibovespa em alta é fluxo de capital externo ou melhora de fundamentos?

Ibovespa sobe com retorno de estrangeiros, mas fluxo não é fundamental. Saiba distinguir movimento de pregão de tese de investimento


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


O Ibovespa ultrapassou 189 mil pontos e voltou ao maior nível desde maio, enquanto o dólar recuou para R$ 5,08. O movimento é genuíno, e a reação instintiva de quem tem posições na Bolsa é pensar que o vento virou a favor, contudo, antes de ajustar a carteira com base nessa leitura, vale separar duas coisas: preço de fluxo e preço de fundamento. 

O que impulsionou o índice foi a volta do capital estrangeiro e não necessariamente a melhora na geração de valor pelas empresas que o compõem. 

O mesmo motivo que derrubou o Ibovespa agora o sustenta

Depois de um agosto em que o Ibovespa encadeou dez quedas seguidas, perdeu R$ 15,6 bilhões em fuga estrangeira e sofreu o rebaixamento do JPMorgan, o índice reverteu a trajetória com 11 altas consecutivas, interrompidas em 3 de setembro aos 188 mil, e retomou a alta na semana seguinte. 

O motor do movimento é identificável: retorno de investidores estrangeiros, que voltaram a comprar, combinado com um cenário eleitoral que o mercado leu como positivo para ativos domésticos.

Na minha leitura, esse é um movimento de fluxo: capital estrangeiro que entra no Brasil por diferencial de juros ou por timing de notícia é o mesmo capital que sai quando o diferencial aperta ou quando a notícia muda. 

Capital que entra e sai pela mesma janela

A distinção que o economista Jonathan Ostry, do FMI, formalizou em estudos sobre gestão de fluxos de capital é útil aqui: existe capital que entra pela porta da frente, com horizonte de longo prazo e compromisso com o ativo, e existe capital que entra pela janela, com horizonte de curtíssimo prazo e compromisso com o spread. O Ibovespa de 189 mil pontos é, em boa medida, o capital da janela.

Isso não significa que o movimento seja falso ou que deva ser ignorado. Significa que a base que o sustenta é diferente da base que sustentaria uma valorização por melhora de fundamentos. 

Quando uma empresa aumenta lucro, amplia margem e reduz dívida, o preço de sua ação sobe porque o valor gerado subiu. Quando o índice inteiro sobe porque investidores estrangeiros recolocaram o Brasil na alocação, o preço sobe porque a demanda pelo ativo subiu, independentemente de o ativo ter melhorado. As duas coisas podem coincidir, mas não são a mesma coisa, e esse entendimento é essencial na alocação de qualquer carteira. 

A diferença entre fluxo e fundamento 

O conceito de preço de fluxo versus preço de fundamento é particularmente relevante em mercados emergentes, onde a participação do capital estrangeiro é desproporcional ao tamanho da economia local. 

No Brasil, o investidor estrangeiro representa uma fatia significativa do volume negociado na B3, e seus movimentos de entrada e saída refletem não apenas o que ele pensa sobre o Brasil, mas o que ele pensa sobre o mundo. Se o Federal Reserve sinaliza juros menores, o capital migra para emergentes em busca de retorno, e o Ibovespa sobe sem que nenhuma empresa brasileira tenha mudado. Se a aversão ao risco global aumenta, o capital sai dos emergentes, e o Ibovespa cai sem que nenhuma empresa brasileira tenha piorado.

O investidor que comprou ações no início de setembro porque o índice estava em alta precisa se perguntar o que ele está comprando. Se está comprando a tese de que o Brasil melhorou, precisa identificar quais fundamentos melhoraram, mas se está comprando o movimento de fluxo, precisa saber que o mesmo fluxo pode se inverter por uma notícia que não tem nada a ver com o país. 

A diferença entre as duas leituras é o que define se a posição é de investimento ou de especulação, e ambas são legítimas, desde que o investidor saiba qual está fazendo.

Como posicionar a carteira quando o motor é externo

Na renda fixa, o cenário permanece favorável. O Copom se reúne em 15 e 16 de setembro, e o mercado precifica um corte de 0,25 ponto na Selic, que sairia de 14% para 13,75%. O Boletim Focus de 4 de setembro mantém essa projeção, com o IPCA de 2026 em 5,00%. Para quem está em pós-fixado, a remuneração segue atrativa, e o horizonte de cortes é gradual, o que significa que o CDI não vai perder valor de um dia para o outro. Para quem está em prefixado, a deflação do IPCA-15 de agosto já derrubou os juros futuros, e quem travou taxas antes está em posição confortável.

Na renda variável, o ponto de atenção é o que sustenta a posição. Empresas que dependem de fluxo externo, como as do setor de commodities, estão mais expostas à reversão do movimento, enquanto aquelas que dependem de consumo doméstico enfrentam um cenário mais complexo: o PIB do segundo trimestre mostrou que o consumo das famílias recuou 0,4%, e o endividamento segue elevado. 

Dessa forma, a leitura correta não é comprar o Ibovespa porque subiu, é identificar quais empresas estão se beneficiando de um fluxo temporário e quais estão efetivamente gerando valor que justifica um preço maior. O investidor que usa a volatilidade a seu favor, com aportes programados e horizonte de longo prazo, transforma o movimento de fluxo em oportunidade de preço, não em tese de investimento. 

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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