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Professor Mira: Deflação no Brasil é oportunidade ou armadilha para investidores?
O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, a queda mais intensa desde agosto de 2022. Entenda por que preços em baixa aliviam o bolso, mas não justificam euforia na hora de investir
Professor Mira
Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira
Os preços caíram 0,40% em agosto. É a primeira deflação em um ano e a queda mais forte desde 2022. A reação natural é achar que o vento virou de vez, que a inflação acabou e que a Selic vai despencar. Vou ser direto com você: não é bem assim.
Entendo o impulso. Mas é aqui que a gente precisa frear a emoção e olhar para dentro do número, porque a composição dessa deflação conta uma história bem diferente da manchete.
O dado tem méritos reais. A inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,52% para 4,24% e voltou a ficar abaixo do teto da meta depois de três meses acima. Energia mais barata, alimentos recuando, combustíveis em queda. Isso é respiro concreto no orçamento das famílias.
Só que esse respiro tem data de validade.
Quando você abre o detalhe, aparece o bônus de Itaipu. Ele derrubou a energia elétrica residencial em 6,25% e retirou sozinho 0,26 ponto percentual do índice. Ou seja, um único item explicou mais da metade de toda a deflação do mês. E é um crédito de uma vez só, que não se repete em setembro.
Quando a deflação é boa notícia e quando é sinal de alerta
Ao analisar números de inflação, é essencial fazer uma distinção. Existe a deflação de oferta, quando fatores pontuais ou sazonais reduzem custos específicos. E existe a deflação de demanda, quando as pessoas param de consumir, empresas cortam investimento e a economia entra numa espiral de queda. A de agosto é claramente de oferta. E os serviços confirmam isso.
Serviços são o termômetro da inflação estrutural, não podem ser importados e refletem diretamente o aperto entre oferta e demanda dentro de casa. Se a demanda tivesse esfriado de verdade, eles cederiam primeiro. Não foi o que aconteceu: os serviços subjacentes seguem em 5,0% em 12 meses, praticamente parados em relação aos 5,1% anteriores, e os intensivos em mão de obra rodam em 7,2%. A meta é 3%.
Sou obrigado a apresentar o outro lado, porque é relevante: a média móvel de três meses dos núcleos, dessazonalizada e anualizada, recuou de 4,40% para 3,87%. Esse é o melhor argumento de quem enxerga uma desinflação de verdade em curso, e não dá para ignorar. Mas núcleo e serviços contando histórias diferentes é justamente o que caracteriza um processo ainda não consolidado. Uma medida melhorou na margem. A outra, a que responde por quase 70% da cesta e depende de salários, não se mexeu.
O Boletim Focus registra essa mesma ambiguidade. A expectativa para o IPCA de 2026 caiu de 5,02% para 5,01%, uma revisão marginal sobre a qual já escrevi aqui na coluna. Para 2027, subiu de 4,25% para 4,28%, na terceira alta semanal seguida. Traduzindo: o mercado enxerga a desinflação deste ano como parcialmente emprestada do futuro.
O viés que faz o investidor confundir alívio com euforia
Existe um viés comportamental que aparece exatamente nesses momentos e estraga decisão de alocação. É o viés de disponibilidade, quando a mente dá mais peso à informação recente e dramática do que à informação que exige contexto.
Uma deflação de 0,40% é um número grande, visível, emocionalmente marcante. Serviços a 7,2% num item de relatório é um dado que exige esforço analítico para ser encontrado e interpretado.
Adivinha qual dos dois move a carteira do investidor médio? Quem reage à manchete como se a inflação tivesse acabado está sendo capturado por esse viés, e isso custa dinheiro.
O que isso significa para os seus investimentos
A desaceleração, mesmo pontual, dá espaço para o Banco Central seguir cortando. A Selic está em 14%, depois do quarto corte consecutivo de 0,25 ponto.
Aqui vale precisão na análise: a mediana do Focus aponta a Selic em 13,75% no fim de 2026, ou seja, apenas mais um corte, enquanto as projeções mais otimistas trabalham com 13,25%, o que exigiria três cortes de 0,25 ponto nas reuniões restantes.
A distância entre esses dois cenários é a própria tensão entre uma deflação pontual e um núcleo de serviços que não cede.
Na renda fixa pós-fixada, a leitura é direta: com a Selic em trajetória de queda, o CDI vai render menos ao longo do tempo.
Você continua bem remunerado no curto prazo, mas precisa acompanhar o ritmo dos cortes para decidir quando travar taxas prefixadas em patamares atrativos. E atenção ao timing: o dado de agosto já aliviou as taxas futuras, então, quem travou antes está confortável. Quem esperar demais pode encontrar a janela mais estreita.
Na renda variável, juros em queda historicamente favorecem a Bolsa, porque reduzem o custo de capital e melhoram a atratividade relativa das ações. Mas o momento pede cautela, pois o fluxo estrangeiro e a incerteza eleitoral criam um cenário adverso que pode persistir independentemente da trajetória da Selic.
Olhar só para juros caindo, sem considerar o fluxo, é leitura pela metade.
Isso não significa ausência de oportunidade. Existem ativos ainda subprecificados com bons pontos de entrada, mas você não deve construir a tese sobre o consumo: o alívio de agosto é um crédito de energia pontual, um sopro de caixa nas famílias, não recomposição estrutural de renda. Se os serviços continuarem em 7,2%, quem está pagando por eles não ficou mais rico.
Alívio é bem-vindo, euforia não
A deflação de agosto cria um dilema de comunicação para o Banco Central, e esse é o principal desafio dele nos próximos meses. Em tese, os números permitem cortar, mas na prática, a inflação de serviços, que o Copom acompanha de perto como termômetro de demanda, não dá o mesmo sinal que o IPCA-15 sugere.
É o tipo de assimetria que torna a próxima ata mais importante que o próximo número. O que o Copom disser sobre serviços vai dizer mais sobre a trajetória dos juros do que qualquer deflação isolada.
O IPCA fechado de agosto sai em 11 de setembro e vai incorporar a segunda quinzena, que o IPCA-15 não capturou. Vale acompanhar, mas com a expectativa calibrada: não será a deflação de um mês que definirá se o ciclo de cortes tem perna longa ou se encurta antes do que o mercado precifica.
Em inflação, assim como em investimento, quem olha só para o retrovisor não vê a curva que vem à frente.
*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3