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Professor Mira: JPMorgan rebaixa Brasil para neutro. Veja o que muda para o investidor 

A primeira coisa que você precisa atentar é não confundir um rebaixamento de curto prazo com uma mudança estrutural


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


O Ibovespa B3 caiu 2,50% na terça-feira (11/08), aos 167.875 pontos, o menor patamar desde 20 de janeiro. O movimento foi direcionado por uma decisão que veio de fora: o JPMorgan rebaixou a recomendação para ações brasileiras de “overweight” (exposição acima da média, o equivalente a compra) para “neutro” no portfólio de América Latina. O dólar subiu 0,98%, a R$ 5,16, e o real teve o pior desempenho entre as moedas globais no dia.

Para quem investe no Brasil, a pergunta não é se o rebaixamento foi justo ou não, mas o que ele revela sobre o cenário que está se desenhando e que ainda não foi totalmente precificado em nossos ativos.

Por que o JPMorgan rebaixou as ações brasileiras

Decisões dessa natureza são muito técnicas, e neste caso, o JPMorgan listou três fatores: o fim do ciclo de cortes da Selic (o BC cortou para 14%, mas sinalizou que não há roteiro pré-definido para novos cortes), a desaceleração econômica brasileira e a volatilidade do período eleitoral.

Aqui vejo um ponto de atenção importante: o JPMorgan cortou a projeção do Ibovespa ao final de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos, sinalizando que mesmo após o rebaixamento, ainda prevê alta em relação aos patamares anteriores à queda. Sendo assim, podemos concluir que não houve mudança de direção, mas sim de convicção. E em mercado, como você certamente sabe, convicção é tudo.

Saída de estrangeiros da B3 começou antes do rebaixamento

Considero que o dado mais revelador não é a queda de um dia ou alguns dias, é o fluxo de capital: R$ 5,5 bilhões saíram da B3 na primeira semana de agosto. Em maio, estrangeiros já haviam retirado R$ 17 bilhões da Bolsa e o próprio JPMorgan alertava que “não era hora de voltar”, mas em janeiro, ao contrário, o mesmo banco previa “forte entrada de estrangeiro” no Brasil. A reversão de sentimento é o marco, não o tombo isolado.

Isso tem nome na literatura de finanças comportamentais. Robert Shiller, Nobel de Economia em 2013, documentou o que chamou de “contágio de sentimento”: quando grandes players mudam de posição, a reação em cadeia amplifica o movimento para além do que os fundamentos justificam. O pequeno investidor que vê a manchete e decide vender no pânico está reagindo ao contágio, não à análise. Em outras palavras, é nosso velho conhecido efeito manada, que nunca foi bom conselheiro.

Fatores que pressionaram o Ibovespa além do rebaixamento

É importante dizer que a queda não foi causada apenas pelo JPMorgan, pois no mesmo dia, três outros fatores convergiram:  a pesquisa CNT/MDA  mostrou Lula abrindo vantagem sobre Flávio Bolsonaro (42,4% contra 28,7%), a ata do Copom evitou sinalizar novos cortes de juros, e o IPCA de julho veio em 0,07%, acima do 0,03% esperado. Além disso, a tensão no Oriente Médio entre EUA e Irã manteve pressão sobre o petróleo.

Essa convergência é o que torna o movimento mais significativo do que um rebaixamento isolado, e isso é importante que você entenda antes de tomar quaisquer decisões quanto às suas posições em renda variável. Quando múltiplos sinais apontam na mesma direção, o mercado não está reagindo a uma notícia, ele pode estar reprecificando um cenário inteiro.

A diferença entre reagir e se posicionar é decisiva

A primeira coisa que você precisa atentar é não confundir um rebaixamento de curto prazo com uma mudança estrutural. O JPMorgan destacou oportunidades em ações exportadoras, que se beneficiam do dólar alto, então quem tem exposição a esses setores tem uma proteção natural contra o cenário que o rebaixamento descreve.

Essa proteção setorial, no entanto, não substitui a base da sua carteira: o Brasil segue com juros reais entre os mais altos do mundo, e é aí que mora o segundo ponto de atenção. O CDI a 14% continua sendo um retorno que praticamente nenhum outro mercado oferece, e o investidor que mantém sua reserva em pós-fixado não tem motivo para se desesperar com a queda da Bolsa, pois no atual contexto o cenário de incerteza não é ruim, é remunerador.

Com essas duas frentes cobertas, exportadoras protegendo a parcela de risco e o CDI sustentando a reserva, vale olhar para o que os próprios eleitores estão sinalizando, porque esse dado ajuda a calibrar expectativas: 33,3% dos entrevistados na pesquisa CNT/MDA avaliam que a economia vai ficar igual, qualquer que seja o vencedor das eleições.

Esse é um sinal de que o eleitor médio não espera transformação nem catástrofe e, historicamente, mercados que precificam extremos costumam se corrigir quando a realidade se mostra mais moderada.

Ações brasileiras e a janela de oportunidade que está aberta

De acordo com o relatório do JPMorgan, apesar de as ações brasileiras serem negociadas a um múltiplo de 8,1x o lucro projetado, abaixo da sua média histórica de 10,4x, o mercado brasileiro não acompanhou o rali de 24,1% dos países emergentes no acumulado do ano, o que justifica uma postura mais cautelosa. 

Naturalmente, esse descompasso irá se reverter em algum momento, e quem estiver posicionado quando a maré virar, captura o movimento que o pânico desta semana criou. Reagir ao rebaixamento é vender na baixa e assumir desnecessariamente um prejuízo, enquanto se posicionar diante do rebaixamento é ler o que ele revela e agir com base no cenário, não no impulso. 

É esse o ponto que separa quem vai se arrepender da decisão tomada esta semana, de quem vai olhar para trás e reconhecer o momento como uma oportunidade de entrada. Por isso, o que você deve buscar compreender sobre os movimentos atuais na bolsa não é sobre o susto do rebaixamento, mas sobre a distância que ele escancarou entre o preço atual dos ativos brasileiros e o valor que os fundamentos ainda sustentam, pois essa distância, historicamente, tende a se fechar a favor de quem manteve a calma.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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