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Professor Mira: Petróleo acima de US$ 100 e o recado que a trégua frágil deixa ao investidor

Petróleo volta a subir com impasse entre EUA e Irã. Veja por que reagir a cada pregão custa caro e o que observar na carteira


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


O petróleo precisou de apenas três pregões para devolver a queda que muita gente tratou como o começo do fim da crise no Oriente Médio. Na segunda-feira (21), o Brent fechou a US$ 100,34 o barril, embalado pela expectativa de um acordo entre Estados Unidos e Irã, na quinta-feira (24) chegou a US$ 107, sem que nenhum acordo tivesse sido assinado, e depois recuou para US$ 105,47 com novas notícias de negociação, e é esse vaivém que o investidor precisa aprender a ler.

No geral, a semana confirmou o que as grandes casas de análise já sinalizavam ao divergir tanto sobre o preço do barril: o Julius Baer projetava o Brent em US$ 77,50 em três meses, enquanto o Bank of America elevou sua projeção para o segundo semestre de US$ 83 para US$ 95. Quando instituições desse porte divergem tanto, o recado para o investidor pessoa física é que ninguém tem visibilidade sobre o petróleo nos próximos meses, e a carteira não deveria ser montada como se alguém tivesse.

O petróleo caiu com Ormuz e voltou a subir com a diplomacia

A semana funcionou como uma aula sobre a diferença entre o que é físico e o que é promessa no preço do petróleo. A queda de segunda veio de um dado concreto: segundo o JPMorgan, o volume de petróleo saudita transportado pelo Estreito de Ormuz saltou para uma média de 2,9 milhões de barris por dia, contra 700 mil em agosto, e a Saudi Aramco chegou a carregar cerca de 14 milhões de barris em sete superpetroleiros num único fim de semana. A isso se somou a notícia de que o Irã poderia reabrir o estreito em uma semana.

A parte física continua de pé, mas a diplomática não resistiu à própria semana: na tribuna da ONU, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que Teerã nunca se renderia aos Estados Unidos, o chefe de segurança iraniano disse que Ormuz segue fechado até que as condições do país sejam atendidas, e as conversas em Nova York sobre uma reabertura gradual, em troca do fim do bloqueio americano, ainda não produziram nada concreto. Para dar a dimensão do que falta, apenas 17 navios de carga cruzaram o estreito num fim de semana recente, contra cerca de 125 por dia antes do conflito.

É aqui que o prêmio de risco fica visível: o JPMorgan estima o valor justo do Brent em torno de US$ 90, o que significa que o mercado, que na segunda cobrava cerca de US$ 10 por barril como seguro contra um novo bloqueio, passou a cobrar entre US$ 15 e US$ 17 poucos dias depois. Foi esse prêmio, a parte do preço que reage a cada declaração, que subiu nesta semana.

Diesel e houthis mantêm o petróleo sob pressão

Enquanto as conversas avançavam e recuavam, a Arábia Saudita interceptou seis mísseis dos houthis, apoiados por Teerã, contra Taif e Yanbu, justamente o porto do Mar Vermelho que permitiu ao país depender menos de Ormuz. E não podemos esquecer o sinal que o preço do petróleo bruto esconde, e que o Bank of America já apontava: o diesel segue perto das máximas históricas nos Estados Unidos e na Europa, sinal de escassez real de derivados. 

Nesta semana, esse risco ganhou forma com a notícia, depois negada pela Casa Branca, de que o governo americano estudava proibir por 90 dias a exportação de diesel, e com o alerta da Capital Economics de que alguma restrição desse tipo é provável, o que agravaria o choque atual.

Viés de recência: a lição de três pregões de petróleo

Aqui vale trazer um conceito das finanças comportamentais que explica por que movimentos assim produzem decisões ruins. Amos Tversky e Daniel Kahneman descreveram, em 1973, a heurística da disponibilidade: tendemos a julgar a probabilidade de um evento pela facilidade com que exemplos dele nos vêm à mente, e o que é mais recente é sempre mais fácil de lembrar. 

No mercado, isso aparece como viés de recência, e bastaram alguns pregões de queda para que muita gente passasse a projetar o petróleo barato como o novo normal e desmontasse proteções que, três dias depois, voltaram a fazer toda a diferença.

O antídoto continua sendo separar o que mudou do que apenas foi anunciado: o fluxo físico por Ormuz melhorou, mas a disposição de negociar, as condições enviadas a mediadores e a possibilidade de reabertura em uma semana não se sustentaram nem até o fim da própria semana. Ao meu ver, a carteira deveria reagir ao primeiro grupo de fatos e apenas observar o segundo, porque promessa diplomática em zona de guerra costuma ter prazo de validade bem curto, e acabamos de ver isso acontecer.

Petróleo acima de US$ 100 pressiona inflação e Selic

Para quem investe no Brasil, a volta do barril acima de US$ 100 inverte o efeito de mão dupla que parecia se desenhar no começo dessa semana: de um lado, o combustível mais caro volta a pressionar a inflação num momento em que o Copom acabou de levar a Selic a 13,75% ao ano,  citando o petróleo entre os riscos que exigem cautela, e cada dólar a mais no barril reforça o argumento para o Banco Central seguir mais devagar.

De outro lado, o mesmo movimento favorece a Petrobras e o Ibovespa, em que a petroleira tem peso relevante, e engorda as receitas que a União recebe na forma de royalties e dividendos, uma folga útil para um governo que já gasta muito para segurar o preço dos combustíveis.

Como ajustar a carteira sem apostar no fim da guerra

Aqui preciso reforçar uma orientação recorrente: evite decisões binárias baseadas em uma notícia que pode virar nos dois sentidos, como esta semana mostrou. Para isso, alguns cuidados ajudam:

  • Quem tem posição relevante em Petrobras ou em fundos de energia pode revisar o peso dessa exposição dentro do próprio plano, sem aumentar nem zerar a posição por oscilações de poucos dias.
  • Quem está na renda fixa deve considerar que o petróleo caro enfraquece um dos argumentos para a continuidade dos cortes de juros, somando-se à inflação de serviços e ao risco fiscal que já estavam no radar do Copom.
  • Quem mantém proteção em dólar ou em ativos internacionais tem nesta semana a melhor justificativa para não desmontá-la, já que o prêmio de risco geopolítico mostrou que pode voltar ao preço em poucos pregões.

Subsídio ao diesel adia o choque, mas não o elimina

Penso que o indicador que mais merece a atenção do investidor brasileiro segue sendo o diesel, mas com um detalhe novo. É o diesel que move o frete, o custo dos alimentos e boa parte da inflação que chega ao consumidor, e o Brasil ainda importa uma parcela relevante do que consome. 

Hoje, porém, esse preço está segurado: a Petrobras elevou o diesel em R$ 1 por litro a partir de 19 de setembro, e uma subvenção federal do mesmo valor, válida por 30 dias, manteve inalterado o preço às distribuidoras.

O choque, portanto, saiu da bomba e foi para as contas públicas, num momento em que o conjunto de medidas para os combustíveis já custa cerca de R$ 7 bilhões por mês, segundo a Agência Brasil. 

Se o petróleo seguir acima de US$ 100 quando a subvenção vencer, por volta de 19 de outubro, o governo terá de escolher entre renovar um gasto que pressiona o fiscal ou deixar o reajuste chegar ao consumidor, e qualquer uma das duas saídas pesa sobre o IPCA e sobre o espaço para novos cortes da Selic. O Brent conta a história da geopolítica, enquanto o diesel conta a história do seu orçamento, e, a partir de agora, também a do orçamento do país.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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