Tesouro direto

Professor Mira: Tesouro Direto abaixo de 7% e Treasury nos EUA acima de 5%; o que explica a gangorra dos juros

Tesouro Direto oscila com os juros dos EUA e do Brasil. Entenda a marcação a mercado e como escolher o vencimento certo para o seu objetivo


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


Nesta semana, o Treasury norte-americano de 10 anos chegou a render mais de 5,2% ao ano, o maior nível em quase duas décadas, e o de 30 anos tocou 5,61%, o maior desde 2002, ao mesmo tempo em que o Tesouro IPCA+ 2050, aqui no Brasil, teve a taxa reduzida para 6,93% ao ano mais inflação, abaixo de 7% pela primeira vez desde maio. 

São dois movimentos de sinal oposto com a mesma lógica: o preço de um título de renda fixa se comporta como uma gangorra em relação à taxa que ele paga, e quem olha apenas a cotação enxerga perda onde há oscilação, e ganho onde há apenas o outro lado da mesma balança.

Ao meu ver, o dado mais útil da semana para o investidor pessoa física não é o patamar do Treasury em si, mas a convivência dos dois movimentos, porque ela mostra que o preço do título depende da taxa do momento, enquanto o que você contratou na compra segue intacto até o vencimento.

Por que o preço do título cai quando o juro sobe

Imagine, como exemplo hipotético, um título que paga 7% ao ano acima da inflação. Se o mercado passa a oferecer 8% em papéis novos, o seu título de 7% deixa de valer o preço cheio, e o preço dele precisa ceder até que o rendimento de quem o compra seja equivalente ao que o mercado oferece naquele momento. 

Quando a taxa cai, o raciocínio se inverte e o seu papel de 7% passa a valer mais, que é exatamente o que aparece na tela do Tesouro Direto como valorização. Quanto mais distante o vencimento, mais intensa é essa reação, e o mercado mede isso pela duration, que é a duração média do título.

Esse ajuste diário de preço tem nome: marcação a mercado. Todos os dias, o título é avaliado pela taxa que o mercado pratica naquele momento, e é por isso que o extrato pode mostrar um valor menor do que você pagou sem que tenha havido nenhuma venda. A perda só se concretiza se você vender antes do vencimento; se carregar o título até o fim, recebe a taxa que contratou na compra. 

Sendo assim, um papel de 2050 balança bem mais do que um de 2029, e não por acaso é o IPCA+ 2050 que está liderando a queda nas taxas.

Petróleo caro pressiona a inflação e limita o Fed

O ponto mais delicado dessa gangorra é que a taxa que move o preço do título responde a coisas que mudam de um dia para o outro e não têm nada a ver com o que você contratou. 

O Fed elevou os juros para a faixa de 3,75% a 4% em 16 de setembro, a primeira alta desde 2023, e sinalizou ao menos mais um aumento neste ano. Por cima disso veio o petróleo: o impasse entre Estados Unidos e Irã em torno do Estreito de Ormuz levou o Brent a mais de US$ 107 no início da semana e, no momento em que escrevo, recuou para perto de US$ 102.

Como petróleo caro pressiona a inflação e tira do Fed a margem para aliviar, uma disputa no Golfo Pérsico chega ao juro de 30 anos em Nova York e mexe no preço do seu título sem que você tenha feito nada.

Prêmio de prazo: por que o juro longo resiste?

O dado de hoje é o que mais chama atenção, porque contraria o que a lógica da gangorra faria esperar: o núcleo do PCE, a inflação sem alimentos e energia que o Fed mais acompanha, subiu 0,2% em agosto e 3% em 12 meses, abaixo dos 0,3% e 3,3% esperados, e a aposta de nova alta em outubro, que chegou a passar de 80% no mês, caiu para perto de metade, mas o juro de 10 anos seguiu na faixa de 5,2% a 5,3%. 

Ao que parece, o mercado passou a cobrar um prêmio de prazo, a compensação extra por emprestar por muitos anos em um ambiente de inflação persistente e contas públicas pressionadas, e um prêmio assim não desaparece com um número de inflação mais brando, o que segura o preço dos títulos longos.

Tesouro Direto abaixo de 7%: o lado brasileiro da mesma gangorra

Aqui no Brasil o movimento foi no sentido contrário e ajuda a enxergar o mecanismo funcionando. Na manhã desta quarta, o Tesouro IPCA+ 2050 passou de 7,08% para 6,93% ao ano mais IPCA, e o Prefixado 2029 foi de 13,83% para 13,76%, depois do alívio nos dados americanos e com o calendário eleitoral também entrando no preço das taxas. 

Quem comprou o IPCA+ 2050 na sexta-feira passada, quando a taxa estava em torno de 7,14%, vê o título valendo mais na tela hoje. Só que a Selic está em 13,75%, depois do corte de 0,25 ponto percentual em 16 de setembro, e os juros longos daqui continuam expostos aos mesmos ventos que sopram de fora, de modo que a gangorra pode inverter o sinal na semana que vem sem que nada tenha mudado no que você contratou.

Como a aversão à perda pode virar prejuízo no Tesouro Direto 

Aqui entra um conceito das finanças comportamentais que os economistas Shlomo Benartzi e Richard Thaler descreveram em meados dos anos 1990: a aversão à perda. Como sentimos uma perda com mais intensidade do que um ganho do mesmo tamanho, quem confere a carteira com muita frequência enxerga mais quedas e passa a tratar a oscilação de curto prazo como resultado final. 

Em semanas como esta, o investidor que abriu o aplicativo em um dia de taxa subindo leu “perdi” no extrato e, se vendeu nesse dia, trocou a taxa que havia contratado por uma marcação temporária, transformando em prejuízo real o que era apenas oscilação. 

Esse tipo de comportamento é bem comum em momentos de estresse nos juros, mas não deveria. Afinal, o extrato mede o preço de hoje, enquanto o objetivo de vida se mede em anos e o certo, nesse caso, é que antes de olhar a taxa, você olhe para o prazo do seu objetivo. 

Na prática, isso se traduz em três cuidados:

  • Case o vencimento do título com a data em que o dinheiro será usado, reservando os papéis longos para recursos que podem esperar; para a reserva de emergência, prefira algo de pouca oscilação, como o Tesouro Selic.
  • Avalie a taxa contratada em relação ao seu objetivo, por exemplo um juro real acima da inflação, e não em relação ao preço do título na semana passada.
  • Se você investe todo mês e vai carregar os títulos por muitos anos, lembre que as fases de taxa em alta oferecem uma remuneração maior, para o mesmo prazo, nas compras novas.

Fed, emprego e IPCA: o que vem pela frente

Nos próximos dias a gangorra ganha novos pesos: o relatório de emprego americano sai na sexta-feira, o IPCA de setembro, que o IBGE divulga em 9 de outubro, dirá se a alta da energia elétrica vista no IPCA-15 se confirma na inflação oficial, e o Fed volta a se reunir em 28 de outubro com o mercado ainda dividido sobre uma nova alta. 

O ponto que me parece mais relevante acompanhar, porém, é por quanto tempo o juro americano permanecerá nesse patamar, porque ele funciona como piso de comparação para todo o dinheiro que circula pelo mundo, inclusive o que financia o governo e as empresas brasileiras, e é essa duração, mais do que qualquer número isolado, que dirá se estamos diante de um tremor passageiro ou de um novo patamar de custo do capital.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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