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Professor Mira: Small caps e setor de consumo sobem o dobro do Ibovespa. Ainda dá tempo de entrar?

Até o fechamento de terça-feira (20), o índice de small caps, que reúne empresas de menor valor de mercado, acumulava alta de 23,7% no mês


Professor Mira

Professor Mira

Investidor profissional, Analista CNPI-T (Apimec), mestrando em Economia, com MBAs em Gestão de Investimentos, Análise de Investimentos e Educação Financeira. Empresário, sócio do Clube FII e do Grana Capital, escritor best-seller e educador financeiro com cursos que já formaram mais de 50 mil alunos pelo mundo. Está nas redes sociais como @professormira


Se você abriu o aplicativo da corretora nos últimos dias e viu as small caps e as ações de consumo subindo mais de 20% em outubro, eventualmente, a depender da composição de sua carteira, pode  ter sentido aquele incômodo de quem chegou atrasado à festa.

Pelos índices da B3, até o fechamento de terça-feira (20), o índice de small caps, que reúne empresas de menor valor de mercado, acumulava alta de 23,7% no mês, o de consumo, 22,3%, e o imobiliário, 21,9%, perto do dobro dos 11,8% do Ibovespa, enquanto o índice de materiais básicos, onde está a mineração, avançou só 1,6%.

Esse descompasso tem uma explicação que vai além do noticiário eleitoral: a bolsa está comprando juros mais baixos no futuro, e os setores que mais dependem de crédito e de consumo interno são os primeiros a sentir isso no preço. Acontece que o preço anda na frente do resultado, e o resultado começa a aparecer agora, com a temporada de balanços.

Juros em queda: porque small caps e consumo sobem mais

O preço de uma ação é o valor presente de tudo o que ela vai entregar ao acionista no futuro, descontado por uma taxa que acompanha os juros da economia. Quando essa taxa cai, todo lucro futuro passa a valer mais hoje, só que o efeito está longe de ser igual para todas as empresas.

A diferença está no tempo: o valor de uma empresa madura está, em boa parte, no lucro que ela já gera e distribui hoje, enquanto o de uma empresa em crescimento está no lucro que ela promete para daqui a muitos anos, e promessa distante é o que mais perde valor com juros altos, porque, enquanto ela não se cumpre, o investidor poderia estar ganhando o CDI sem risco.

Quando os juros caem, o custo de esperar diminui, e quem vive dessas promessas, como as small caps, as construtoras e as varejistas de crescimento, é quem mais se valoriza.

Dois outros canais reforçam esse efeito: empresas menores e varejistas costumam carregar mais dívida, e cada ponto a menos no juro alivia a despesa financeira; já o crédito mais barato é o que faz o consumidor voltar a financiar bens de consumo e imóveis. 

Por que mineração e petróleo ficaram fora da alta da bolsa

A pergunta seguinte é por que a bolsa inteira não subiu 20%, e a resposta está na parte do Ibovespa que joga do outro lado: mineradoras e petroleiras vendem em dólar, mas pagam salário, diesel e frete em reais, e o mesmo real forte que alivia o varejo encolhe o caixa delas.

Pense numa tonelada de minério vendida a US$ 100, num exemplo redondo: com o dólar a R$ 5,18, como no fim de setembro, ela rendia R$ 518; com os R$ 5,02 desta semana, rende R$ 502, e a folha de pagamento continua do mesmo tamanho.

Na mineração há ainda o freio da China, de longe a maior compradora do minério de ferro brasileiro, que lá vira aço para prédios e estradas. Quando a construção chinesa perde fôlego, a China compra menos e paga menos, e o preço do minério andou fraco por lá nesta semana. Nas petroleiras, o barril perto de US$ 110 ajuda, mas cada dólar vendido vale menos reais.

E aqui vale ter muita atenção, porque essas empresas, que parecem as atrasadas da festa, têm um papel na sua carteira: se o resultado eleitoral do próximo domingo empurrar juros e dólar para cima, são elas que tendem a amortecer a queda das outras.

Segundo turno: a força das small caps vale nos dois sentidos

Muita gente chama o movimento de outubro de “trade eleitoral”, e o nome engana, como se fosse aposta em candidato: o mercado lê cada pesquisa como pista de como as contas do governo vão andar a partir de 2027, e essa leitura mexe nos juros longos, que mexem no preço das ações.

Só que essa sensibilidade funciona nos dois sentidos: se os juros longos voltarem a subir, o custo de esperar aumenta de novo, e as empresas que mais ganharam com as promessas de longo prazo tendem a ser as primeiras a devolver a alta, enquanto as maduras sentem bem menos.

Quem comprou small caps ou ações de consumo na última semana levou junto a fatia da bolsa que mais reage a qualquer surpresa de domingo, e a Quaest de hoje, com empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos, mostra que a surpresa segue possível para os dois lados.

Balanços dos bancos: o primeiro teste da alta do consumo

Nas últimas semanas, a alta do consumo foi construída com expectativa de juros menores, crédito mais barato e mais vendas lá na frente, e a temporada de balanços do terceiro trimestre, aberta nesta terça, é o primeiro momento em que essa expectativa encontra números. Ela chega com um tempero extra: os primeiros resultados saem na semana do segundo turno, e o mercado tende a ler cada um deles também pela lente da eleição, o que amplifica tanto uma boa surpresa quanto uma decepção.

O primeiro teste chega pelos bancos, que divulgam seus números a partir desta quinta-feira (22), antes das varejistas, e faz sentido começar a leitura dos balanços por eles: antes de deixar de comprar na loja, o consumidor costuma deixar de pagar em dia o cartão, o crediário ou o empréstimo, e quem enxerga isso primeiro é o banco, que também decide se libera mais crédito ou fecha a torneira, justamente o crédito que sustenta boa parte das vendas do varejo.

E o ponto de partida das famílias não é confortável: pela Peic, da CNC, oito em cada dez famílias (81,7%) estavam endividadas em setembro e quase três em cada dez (29,6%) tinham contas em atraso. Para quem está nessa situação, a queda dos juros futuros não muda nada no mês que vem, porque o juro do cartão demora a cair, e sem orçamento desafogado o juro menor não vira venda na loja.

O balanço dos bancos funciona como um aviso antecipado para quem tem ações de varejo: inadimplência subindo e crédito mais seletivo indicam que o consumidor ainda não tem fôlego para comprar mais, e que a alta de mais de 20% do consumo em outubro aposta numa recuperação de vendas que pode demorar mais do que o preço sugere.

Como usar os índices setoriais da B3 sem seguir a manada

Diante de um setor que já subiu 20%, a pergunta “ainda dá tempo de entrar?” é natural, porém, a mais útil é outra: quanto da sua carteira depende do mesmo cenário? Os índices setoriais da B3, como consumo, imobiliário, small caps e financeiro, servem justamente para enxergar isso.

Algumas atitudes práticas para os próximos dias:

  • Some quanto da sua carteira está em empresas que ganham com juros em queda (varejo, construção, small caps, bancos) e quanto em exportadoras; se quase tudo estiver do mesmo lado, o risco eleitoral está concentrado.
  • Nos balanços, além dos bancos, acompanhe a margem no varejo (quanto sobra de cada venda) e os distratos na construção (compradores que desistem do imóvel).
  • Se quiser aumentar a exposição a um setor, faça isso em partes, em vez de uma aposta binária antes da eleição.

Juros longos e risco fiscal decidem o rali depois da eleição

Há um ponto que a euforia de outubro tende a esconder: o juro longo que puxou as small caps e o consumo depende menos da urna do que da conta fiscal. A agência Fitch lembrou nesta quarta que o Brasil vai precisar de aperto fiscal qualquer que seja o resultado da eleição, e quem for ocupar a presidência vai começar 2027 com essa conta na mesa, sem muito espaço para adiá-la.

Por isso, vejo o domingo menos como ponto de chegada e mais como uma troca de assunto: até aqui, o preço dos setores domésticos reagiu às pesquisas, e a partir de segunda passa a reagir ao que pesquisa nenhuma consegue antecipar, que é o lucro que as empresas vão realmente mostrar a cada trimestre e a disposição do próximo governo de fechar a conta que mantém o juro longo baixo.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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