Organizar as contas

Yo Fordelone: Somente investir não salva a pátria. Economizar, sim

Antes de tentar fazer malabarismos na carteira, vale olhar para a vida: quanto consigo aportar? Como posso ganhar mais? Onde posso gastar melhor?


Yolanda Fordelone

Yolanda Fordelone

Planejadora financeira com certificação CEA (Anbima), Yo Fordelone é formada em economia e jornalismo. Investidora qualificada, alcançou a sua independência financeira aos 36 anos. Em seu Instagram, ajuda outras pessoas a conseguirem mais tempo e liberdade.


Um dia desses, quando um seguidor me perguntou como investir ganhando um salário mínimo, minha resposta foi direta: comece pelo básico. Tesouro Selic, para formar uma primeira reserva. Deduzi que talvez ele não tivesse uma poupança. E isso muda tudo. Antes de pensar em liberdade financeira, é preciso pensar em sobrevivência financeira. Essa primeira reserva não é para enriquecer, é para evitar dívidas quando a geladeira quebra, quando surge um problema de saúde ou quando o mês aperta.

Muita gente se frustra porque começa a investir esperando grandes resultados, mas ignora um ponto essencial: investimento sozinho não salva a pátria. O que realmente transforma a vida financeira é a capacidade de gerar e guardar dinheiro ao longo de anos.

Vivemos obcecados por rentabilidade. Queremos descobrir qual ativo rende mais, qual fundo bate o mercado, qual estratégia é melhor… Mas raramente fazemos a conta mais importante: é mais fácil dobrar a rentabilidade ou dobrar o valor que conseguimos investir todo mês?

Vamos a um exemplo simples: quem junta mais dinheiro em 15 anos?

  • Pessoa A: investe R$ 500 por mês com rentabilidade de 15% ao ano
  • Pessoa B: investe R$ 1.000 por mês com rentabilidade de 10% ao ano

Mesmo com uma rentabilidade menor, a Pessoa B termina com mais patrimônio. Teria juntado cerca de R$ 400 mil contra R$ 305 mil da Pessoa A.

Estou apontando apenas o resultado, mas cabe também refletirmos sobre o esforço. Cada um conhece a própria realidade, mas a mim parece infinitamente mais fácil dobrar o aporte (seja cortando gastos ou aumentando a renda) do que aumentar a rentabilidade significativamente por décadas.

Traduzindo: 15% ao ano não é algo trivial. É um patamar alcançado por investidores fora da curva, como o americano Howard Marks, da Oaktree Capital. Warren Buffett, da Berkshire Hathaway, por exemplo, obteve um retorno médio anual de cerca de 19,8% por quase 60 anos (de 1965 a 2023).

Não é uma média realista para a maioria das pessoas.

A chamada “magia dos investimentos” depende de três variáveis:

  • Rentabilidade
  • Tempo
  • Aporte

A rentabilidade precisa ser boa, claro. O tempo testa nossa paciência e resiliência. No entanto, nos esquecemos que a variável sobre a qual temos mais controle é o aporte. Esse depende das nossas escolhas: gastar menos, ganhar mais ou até mudar de estratégia profissional.

Foi exatamente assim na minha vida. Comecei a trabalhar aos 14 anos ganhando R$ 100 por mês. O único lugar onde eu colocava dinheiro era a poupança. Aos 17, já ganhando R$ 400, comecei a investir em fundos de ações e no Tesouro Direto. Aquilo me deu experiência, disciplina e curiosidade financeira, mas não me trouxe liberdade.

A liberdade só começou a existir quando eu tive três empregos ao mesmo tempo e mantive meu padrão de vida sob controle para economizar o máximo possível. Não foi a escolha do melhor investimento que mudou minha história, foi a decisão de priorizar o quanto eu conseguia guardar.

Por isso, quando alguém me pergunta como investir ganhando pouco, minha resposta é: invista para não regredir, mas foque em crescer.

Às vezes, o melhor “investimento” naquele momento é usar a reserva para fazer um curso, aprender uma nova habilidade ou abrir um pequeno negócio que aumente sua renda futura. Só depois disso os investimentos financeiros ganham escala e sentido.

Investir é importante, sem dúvida. Caso contrário, eu não estaria aqui na coluna e nas redes sociais pregando a palavra todo santo dia.

Mas economizar é determinante.

Antes de tentar fazer malabarismos na carteira, vale olhar para a vida: quanto consigo aportar? Como posso ganhar mais? Onde posso gastar melhor?

Porque no fim das contas, não é a rentabilidade que muda o destino financeiro de alguém.

É a capacidade de transformar renda em patrimônio ao longo do tempo.

*As opiniões contidas nessa coluna não refletem necessariamente a opinião da B3

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