“Acho que é hora de começar a sair da renda fixa para ir para posições de um pouco mais de risco”, diz Marília Fontes, da Nord
Marília Fontes está otimista com a renda variável em dois países do mundo. Confira a entrevista para saber quais são
Na opinião de Marília Fontes, sócia e cofundadora da casa de análises Nord, as oportunidades de investimento mudaram nos últimos meses. “Um tempo atrás, eu te diria que o cenário é apostar na renda fixa, ser mais conservador. Mas agora estou começando a mudar de opinião. Agora, acho que é hora de começar a pensar em sair da renda fixa para ir para posições de um pouco mais de risco”, diz ela.
Para a especialista, a bolsa está “muito barata” – jargão do mercado que indica que o preço das ações está muito abaixo do que seria o valor justo dos papéis. E mais do que isso: Marília vê nas eleições de 2026 um gatilho para uma nova rodada de valorização das ações brasileiras. Vale lembrar que só nos três primeiros meses do ano, o Ibovespa B3 acumulou valorização de 8,29% e chegou a se aproximar das máximas históricas.
Em paralelo, Marília sugere cautela com o mercado crédito privado. Com a Selic em alta e a bolsa “de lado” nos últimos anos, muitos investidores deslocaram grande parte do capital investido para essa classe de ativos. Isso fez cair os spreads de crédito – a diferença entre o que os títulos privados pagam, em comparação com os públicos. Mas esses papéis têm risco maior, e na avaliação de Marília, hoje não pagam o suficiente para valer o risco.
Se tivesse de escolher um ativo para os prazos de um, dois ou três anos, Marília responde sem hesitar: bolsa no Brasil. “Eu acho que a gente pode ver ela subir mais de 100% em 2 ou 3 anos, acho que vai ser um excelente investimento. Mas só vai ganhar essa valorização quem tomar o risco hoje”, diz.
Já para um prazo mais longo, para mais de 10 anos, qual a principal aposta? “Para mais de 10 anos, aí bolsa da China. O bom momento no Brasil às vezes não dura 10 anos”. Confira a entrevista completa:
Bora Investir: Na última reunião do Copom, o colegiado deu o guidance de que irá reduzir o ritmo das altas da Selic na próxima reunião. A percepção do mercado foi de que há uma maior visibilidade de quando acaba esse ciclo de aperto. Qual foi a sua avaliação?
Marília Fontes: Parece que estamos tateando o fim do ciclo. O Copom reconheceu que os efeitos da política monetária são defasados, demoram mais ou menos 3 trimestres para acontecer, então as altas que ele está dando nessas últimas reuniões vão fazer efeito lá na frente. E foram altas de 100 basis points, é muita coisa, faz um efeito muito grande na economia. Então o Copom deu a entender que quer esperar um pouco para [a alta de juros] fazer efeito na economia. O mercado já precificava uma redução de passo para 50 basis.
Mas no boletim Focus, a expectativa de inflação está completamente desancorada, com a inflação desse ano perto de 6% e a inflação do ano que vem em 4,50%, ou seja, no limite superior da meta. A inflação de longuíssimo prazo está em torno de 4%. Então, não é razoável uma política monetária que, na dúvida, espera e diminui o pace.
Se o Banco Central tivesse uma vontade genuína de quebrar a espinha dorsal da inflação, não caberia essa redução de passo. O mercado entendeu que o BC vai levar a Selic até em torno de 15%. Então, se ele quisesse fazer uma política monetária que de fato levasse a inflação para a meta de 3% no horizonte relevante, ele precisaria surpreender o mercado de uma forma contundente, com mais juro do que o mercado esperava. Aí sim a gente ia começar a ver uma redução das expectativas do Focus no horizonte relevante, que está em torno de 2026, 2027.
Bora Investir: Você acha então que o Copom precisaria subir o juro mais do que o mercado estava esperando?
Marília Fontes: Sim, porque o problema é muito mais de expectativas. E as expectativas, por sua vez, são uma das coisas que mais influenciam na inflação de fato. Porque os agentes começam a revisar os preços de acordo com as expectativas futuras. As expectativas são um processo muito importante na condução da política monetária.
Bora Investir: A política monetária é um pilar muito importante do controle de inflação, mas existem outros fatores, como fiscal, câmbio, preços internacionais e outras políticas do governo sobre o consumo. Como que você está vendo esses outros fatores que influenciam a inflação? Um tempo atrás o mercado chegou a falar em dominância fiscal, que o BC não conseguiria mais segurar a inflação apenas com a política monetária.
Marília Fontes: Com certeza, é um risco enorme. A gente estava em pré-dominância fiscal. Se o Banco Central restringe a economia [elevando a Selic] e o fiscal solta, a política monetária se torna inefetiva. Tanto que a gente viu os juros alcançarem 14,25%, mas as concessões de crédito continuaram subindo. Um dos mecanismos de transmissão da política monetária é que quando os juros sobem, a concessão de crédito cai. Mas o que a gente viu foi um aumento na concessão de crédito, com inadimplência controlada, fruto também de vários estímulos que foram dados. Então tudo isso torna a política monetária mais ineficiente e, quando ela é ineficiente, você tem que subir mais os juros para conseguir o mesmo efeito.
Bora Investir: Olhando para esse cenário muito complexo que a gente está falando, como que a gente traduz isso para alocação em carteira? O que os investidores deveriam estar fazendo?
Marília Fontes: Um tempo atrás, eu te diria que o cenário é apostar na renda fixa, ser mais conservador. Mas agora estou começando a mudar de opinião. Agora, acho que é hora de começar a pensar em sair da renda fixa para ir para posições de um pouco mais de risco. A bolsa está muito barata, em níveis de mínima histórica. Os fundos não estão comprados em bolsa – pelo contrário, estão com posições vendidas. Os fundos de previdência estão também na menor alocação de bolsa da série histórica. Os gringos não estão na bolsa brasileira.
E se a gente tiver uma troca de governo, acho que as ações vão andar [se valorizar] bastante. Vai ter um otimismo inicial com a expectativa de que o novo governo faça o que todos os governos fazem, que é uma restrição fiscal no início do mandato para, no final, conseguir gastar um pouco mais. Então, hoje em dia, eu já acho que, pelos preços atuais, vale a pena você começar a alocar um pouco mais em risco.
Bora Investir: E a renda fixa, não tem oportunidades hoje?
Marília Fontes: A alocação em crédito privado está muito grande. A gente nunca teve tanta criação de fundos de crédito privado. As emissões de CRIs, CRAs e debêntures estão nas máximas históricas. E o crédito está sendo concedido com spread muito baixo, os spreads de crédito estão nas mínimas históricas, e com um risco que está aumentando, porque a Selic vai para patamares de 15%.
Isso me preocupa um pouco, está todo mundo no mercado de crédito, e a porta do mercado de crédito é pequena, não tem liquidez para sair. O que eu estou vendo é todo mundo na renda fixa, principalmente no crédito. O mercado está lotado, e com os spreads muito baixos, você não está sendo recompensado pelo risco que você está tomando. Por outro lado, ninguém querendo investir em ações e as empresas a preços muito atraentes. Então, agora eu acho que é hora de começar a mudar um pouquinho e ir para ativos de risco, tentar sair da manada porque a manada é sempre muito perigosa.
Bora Investir: O primeiro trimestre foi muito positivo para a bolsa. Isso fez com que os clientes de vocês começassem a ter uma vontade de alocar, um otimismo maior, ou ainda é um momento que vocês precisam convencer os clientes a alocar no mercado de renda variável?
Marilia Fontes: Ninguém quer saber de bolsa. A bolsa subiu, mas está todo mundo muito machucado também, foram 3 anos de bolsa andando de lado, então o pessoal está sem paciência com a bolsa, ninguém quer aumentar posição. É mais um trabalho nosso de mostrar que a assimetria está boa. No início do movimento, é a hora da descrença, né? Ninguém ainda confia. Mas acho que ao longo desse ano, no ano que vem, essa tese vai pegar momentum. Mas por enquanto, precisa subir mais para o mercado se animar.
Bora Investir: E quando você fala em alocação em bolsa, você pensa em setores específicos, ou é no stock picking?
Marília Fontes: Eu gosto muito de ações bem sensíveis à taxa de juros, que foram ações que pioraram muito quando a Selic subiu. Por exemplo, empresas que entregam [uma expectativa de] crescimento muito forte, que tendem a performar mal quando os juros sobem. Essas são as que eu mais gosto, são as que, em um possível ciclo de queda de juros, mais tendem a valorizar.
Bora Investir: Nos últimos anos, o Brasil passou por um período de taxa de juros baixíssimas, seguido por uma elevação relativamente rápida e isso no momento que o mercado brasileiro como um todo de investimento estava muito diferente, com muito mais acesso a diferentes produtos. O que essas oscilações trouxeram de aprendizado para os investidores brasileiros?
Marília Fontes: A gente teve um Financial deeping, um aprofundamento financeiro muito forte no Brasil. Quando a Selic foi para 2%, muita gente saiu de produtos mais conservadores. E aí logo depois vem um aumento de taxa de juro muito grande e a bolsa começou a sofrer.
Eu acho que esse amadurecimento da indústria é muito positivo. Vimos muita gente procurando entender o que estava acontecendo, e isso também é um ato de cidadania. Se você entende o que afeta o juro, a inflação, você também entende melhor a dinâmica da economia e vota melhor. Eu acho que o pessoal sofreu muito nos últimos 3 anos, mas teve um amadurecimento financeiro
Bora Investir: Olhando para fora, a gente teve uma troca de governo nos Estados Unidos que trouxe muito ruído. O mercado em poucas semanas migrou de um medo de inflação muito alta para um medo de recessão. Qual é a sua avaliação desse cenário?
Marília Fontes: Realmente, os Estados Unidos têm uma incerteza muito grande. O Trump é uma pessoa muito difícil de ler. Não é óbvio para mim, por exemplo, o que ele vai fazer com o fiscal. Ele falou em redução do déficit com corte de gastos, mas fala também em redução de impostos, então se corta gasto e reduz imposto, fica no zero a zero e o déficit continua.
Ele vai colocar todas as tarifas que ele falou que vai colocar? Se sim, é a atividade para baixo e inflação para cima, que é o que a grosso modo o que o mercado está imaginando. As taxas de juros americanas estão sistematicamente mais altas por conta de um medo de inflação, com medo de que isso gere uma queda de atividade nos Estados Unidos. É um cenário muito incerto, que eu acho que a gente vai ter que ir digerindo aos poucos.
Bora Investir: E como ajustar os investimentos internacionais em um cenário tão incerto?
Marília Fontes: Eu acho que a bolsa nos Estados Unidos está muito cara, ainda mais se você acha que pode ter uma recessão lá na frente. Então eu prefiro bolsa Brasil, que está barata e pode ter um gatilho com a troca de governo. Mas as taxas de juros americanas estão em patamares bem altos, então dá para comprar corporate bonds, por exemplo, de empresas brasileiras que pagam 6% ou 7% em dólar.
A bolsa americana foi um excelente hedge para tudo que está acontecendo aqui no Brasil. Quem investiu lá fora em 2020, 2021 e pegou essa alta das Sete Magníficas está muito bem. Agora, eu acho que essa tendência acabou. A gente vê uma atividade patinando e uma política instável. As empresas têm muita dificuldade de investir num cenário tão incerto.
Ainda se [o preço das ações] estivesse barato, seria outra coisa. Você pode topar o risco, porque está muito barato, mas não, é uma das bolsas mais caras, senão a mais cara. Acho que só a Índia está mais cara que a dos Estados Unidos no momento. Eu não investiria, não, acho que já foi.
Bora Investir: Recentemente você disse que está otimista com a China no longo prazo. Queria entender um pouco essa sua visão. A China não pode ser uma das afetadas pelas políticas de Trump?
Marília Fontes: Com certeza, mas a China exporta só 20% de sua produção para os Estados Unidos. Ela já veio diversificando seus acordos comerciais desde o último governo Trump. Vem se aproximando, por exemplo, dos BRICs, da Rússia.
Em relação aos Estados Unidos, a tarifa é sempre ruim, mas o impacto real na economia chinesa não é tão grande. E a China sempre pode desvalorizar a moeda como resposta ao aumento de tarifas.
Bora Investir: A China tem espaço para acelerar o crescimento da economia por lá?
Marília Fontes: O mercado entrou numa narrativa de que o modelo econômico da China tinha se esgotado por conta da crise da Evergrande. Eles tiveram de fato uma crise muito grande no setor imobiliário, e quando aconteceu a quebra de Evergrande, o mercado e os consumidores sentiram. Mas ao contrário dos Estados Unidos, que na crise do subprime deu muitos estímulos, a China não salvou o setor. Quando você não salva um setor que está quebrando, a redução do crescimento é maior. Por outro lado, ela alocou capital e estimulou setores que achou que eram mais promissores, como chips de inteligência artificial, placas solares e carros elétricos. Setores que ela acha que vão ser vencedores para frente. Como você vai criticar isso? É impossível. É exatamente o que os Estados Unidos deveriam ter feito.
Teve uma narrativa também de que, por conta das tarifas americanas, as empresas iam parar de importar da China e começariam a usar a Índia como a nova China, mas a Índia não tem investimento em infraestrutura. A Índia tem estrada de terra ligando as capitais. Não há concorrentes agora para a China, a ela está investindo e está competindo de igual para igual com os Estados Unidos.
Eles tiveram uma fase de crescimento baixo porque decidiram conscientemente não alocar recursos de forma ineficiente e direcionaram recursos para áreas extremamente produtivas e que já estão gerando retorno. A bolsa da China era mais barata do que a bolsa do Brasil. O P/E (índice Preço/Lucro) chegou a bater 7,5, agora já voltou para 12.
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