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Bradesco mostra que o grande foco do 3º TRI é qualidade de ativos e não o lucro; o que esperar dos outros bancos?

Analistas acreditam que o pior cenário dos bancos ainda não passou e aconselham ao investidor interpretar fundamentos

O Bradesco (BBDC4) abriu na quinta-feira (22) a temporada de resultados dos grandes bancos referentes ao terceiro trimestre de 2026. O banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões, alta de 14,6% em um ano e de 0,8% sobre o segundo trimestre, em linha com as projeções do mercado. Foi o 11º trimestre seguido de melhora desde o início da reestruturação. 

A carteira de crédito expandida chegou a R$ 1,15 trilhão, avanço de 11,1% em 12 meses e a margem financeira somou R$ 21,37 bilhões, alta de 14,2%. Do outro lado, as despesas com provisões para perdas (PDD) cresceram 24,3% em um ano, para R$ 10,6 bilhões e a inadimplência acima de 90 dias subiu para 4,6% ante 4,3% em junho, puxada pelas pequenas e médias empresas, crédito rural e pessoa física de menor renda.  

Entre os pontos positivos do balanço do Bradesco se destaca o controle de despesas. Segundo Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, os gastos com pessoal e administrativos cresceram menos de 2%, abaixo da inflação. “O índice de eficiência operacional também chamou a atenção ao atingir 45,4%, o menor patamar dos últimos anos”, pontua.  

Crédito no centro das atenções 

Já entre os pontos de alerta, os analistas consultados pelo Bora Investir citam a qualidade da carteira de crédito. Para Jayme Simão, sócio fundador do Hub do Investidor, a provisão de R$ 10,6 bilhões no trimestre já supera o lucro. “O banco cresce crédito em 11% ao ano em um ciclo de calote ainda elevado”, destaca.  

De acordo com Milton Rabelo, analista da VG Research, a piora veio das micro, pequenas e médias empresas e da carteira pessoa física, reflexo de juros altos e endividamento elevado.  

Já Pedro Ávila, analista de ações da Varos Research, vê uma deterioração controlada e concentrada no crédito massificado. Os analistas lembram que as operações com garantia chegaram a 61,2% da carteira, maior nível desde 2023. 

ROE diluído  

Em relação ao retorno sobre patrimônio líquido (ROE) houve queda de 16,1% para 14,6%, desconsiderando o efeito de aumento de capital de R$ 10 bilhões. Na visão de Simão, o Bradesco troca um pouco de rentabilidade por mais colchão de Basileia, para se proteger da inadimplência.  

Entre as projeções, Ávila vê o ROE chegando perto de 18% até o fim de 2028, mas em uma trajetória não linear.  

O que esperar dos outros bancões 

Entre o final de outubro e o começo de novembro, Itaú (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3) e Santander (SANB11) divulgam os seus balanços. Simão cita que o Bradesco abriu a temporada de resultados mostrando que o grande tema do trimestre é a qualidade de ativos e não o crescimento do lucro. Já Oliveira pondera que cada banco vive um momento particular, mas o ponto em comum é a pressão generalizada sobre a inadimplência.  

Entre os analistas consultados pela reportagem, o Itaú é candidato a ser a principal surpresa positiva do setor, pela qualidade da carteira de crédito, eficiência e rentabilidade elevada. Enquanto o Santander divide opiniões. Alguns analistas enxergam espaço para um resultado positivo, por ter ficado seletivo no crédito antes dos pares, enquanto outros consideram o balanço uma grande incógnita após a troca de gestão.  

O Banco do Brasil é visto pelos analistas como o principal candidato para decepcionar o investidor, pela sua exposição ao agronegócio. Ávila destaca que o banco concentra quase a metade do crédito agro no país e o terceiro trimestre concentra um volume expressivo de vencimento de safras.  

Simão projeta um ROE de 7% para o Banco do Brasil, abaixo do custo de capital do banco.  

Como avaliar o balanço de um banco 

Muito além de números, o investidor precisa interpretar fundamentos ao avaliar um banco. Os analistas citam fatores como a qualidade de crédito. Ávila sugere observar além da inadimplência acima de 90 dias e acompanhar os atrasos de curto prazo, as renegociações e a migração entre os estágios de risco, que ajudam a identificar se a deterioração está se estabilizando.  

Oliveira reforça que é na movimentação entre os estágios 1, 2 e 3 que costumam aparecer as informações mais relevantes. Já Simão aconselha olhar esses dados abertos por segmento, para ver onde o risco está se formando antes de chegar ao lucro. 

A cobertura de provisões para devedores duvidosos (PDD), embora menos discutida, é outro termômetro. Ela mostra se o banco está preparado para o ciclo de inadimplência ou se o lucro está inflado por provisionamento baixo. “Um resultado pontualmente mais atraente pode vir acompanhado de menor proteção contra perdas futuras”, alerta Oliveira. 

Os analistas também destacam que o crescimento da carteira de crédito não deve ser lido como algo positivo de forma isolada. Para Ávila, em um cenário de inadimplência maior, crescer de forma seletiva pode ser mais vantajoso do que acelerar e o investidor precisa entender em quais linhas o banco está se expandindo e quais riscos está assumindo. 

Em relação as receitas, Ávila cita a margem financeira e o custo de captação. “Bancos com fontes de financiamento mais estáveis e baratas tendem a preservar melhor os spreads com juros altos”, destaca.  A eficiência e diversificação também contam, já que tarifas e seguros consomem pouco capital e sustentam a rentabilidade quando o crédito aperta.  

Oliveira alerta para o investidor não comparar o índice de eficiência do Banco do Brasil com os bancos privados, porque a natureza do controle influencia a estrutura de despesas.  

De acordo com os analistas, o ROE sintetiza boa parte do desempenho de um banco, mas não deve ser lido sozinho. “É importante entender os fatores que sustentam essa rentabilidade e avaliar se ela pode ser mantida”, diz Oliveira.  

Para Simão é importante que o investidor separe o resultado recorrente de efeitos pontuais e de receitas de tesouraria, além de olhar a rentabilidade junto com o índice de Basileia e o capital principal, que mostram o colchão para absorver perdas e sustentar dividendos sem comprometer o crescimento da instituição financeira. 

Rabelo, da VG Research, acrescenta que vale avaliar se a instituição tem meios de mitigar os desafios operacionais no médio e longo prazo. E reforça que indicadores como qualidade de crédito, custo de risco, ROE e lucro são essenciais para entender os fundamentos dos bancos.  

Cenário macroeconômico 

Com a Selic projetada em 13,25% no fim de 2026 e em 12% no fim de 2027, a queda dos juros tende a aliviar o endividamento de famílias e empresas, mas não representa um efeito imediato. O próprio CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, reconheceu que o cenário macro atual é desafiador para todos, diante dos juros ainda elevados e desaceleração da atividade.  

“Juros em queda aliviam a inadimplência, mas com defasagem de dois a três trimestres”, avalia Simão, que espera o pior cenário da inadimplência no primeiro semestre de 2027. 

Para Rabelo, não é possível afirmar que o pior já passou. No cenário doméstico, o analista da VG destaca uma possível alternância de poder e a adoção de políticas macroeconômicas mais responsáveis que podem afetar a dinâmica da curva de juros longos.  

Já no campo internacional, a visão de Rabelo é de um eventual arrefecimento do conflito no Oriente Médio que também pode ter reflexos claros na inflação e nas políticas monetárias a serem adotadas, inclusive no Brasil. “No momento existe um nível de imprevisibilidade elevado sobre a dinâmica futura dessas variáveis macroeconômicas, que possuem impactos diretos na lucratividade dos bancos”, pontua. 

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