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Juros altos em países desenvolvidos sugam liquidez de emergentes, diz Campos Neto

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, falou sobre juros, inflação e a economia brasileira em evento promovido pelo Bora Investir e pelo Estadão

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, um homem branco, de terno e óculos, segura um microfone
O presidente do BC, Roberto Campos Neto. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Daniela Frabasile

Os juros nos Estados Unidos estão em patamares historicamente elevados. Mas qual o efeito disso o mundo? Segundo Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, um impacto que ainda é pouco discutido é a queda da liquidez. “O grande grupo de países desenvolvidos pagava 0,6% do PIB ao ano para rolar a dívida antes da pandemia. Agora, esse número subiu para o nível entre 3,5% e 4%”, afirmou ele, durante evento promovido pelo Bora Investir e pelo Estadão nesta segunda-feira, 23/10.

“Isso tem um efeito de encolhimento da liquidez. O custo para pequenas empresas rolarem suas dívidas nos EUA saiu de 3% para 10%. Temos visto grandes empresas fazendo emissões a 6% ou 7%”, disse Campos Neto. Segundo ele, essa liquidez vem, em parte, das empresas, mas sai também dos mercados emergentes.

Por que os juros estão altos?

O presidente do Banco Central também discutiu quais as razões para os juros mais altos nos EUA. “Existem múltiplas interpretações, mas temos visto que é um movimento menos conjuntural e mais estrutural. Precisamos entender como vai ser o desenrolar disso e por quanto tempo o juro vai ficar mais alto”, afirmou.

Roberto Campos Neto lembrou que a inflação global teve um pico após a pandemia. Como resposta, grande parte dos Bancos Centrais elevou suas taxas de juros. A inflação hoje tem caído, mas ainda em ritmo lento. Segundo ele, a inflação ainda está acima das metas na maior parte dos países do mundo desenvolvido, em razão das pressões do barril de petróleo e das commodities agrícolas – e os conflitos da Ucrânia e de Israel só adicionam mais pressão ao cenário.

Além disso, a maior economia do mundo, os EUA, enfrenta problemas de origem fiscal. Já os países em desenvolvimento enfrentam outros fatores, que incluem as escolhas feitas pelas autoridades monetárias de cada país.

“No aspecto fiscal, os Estados Unidos ficaram 50 anos com a dívida oscilando perto de 20% do PIB. Hoje, o número está próximo de 100%, e com a perspectiva de ir para 120%. Nunca imaginei ver isso, mas olhando para o risco-país, os EUA tiveram a pior performance do ano, com a exceção de Israel”, disse.

Além disso, o mercado de trabalho segue apertado em grande parte dos países desenvolvidos, com salários reais aumentando, o que pressiona ainda mais a inflação. “Os dados de poupança nos Estados Unidos divergem, mas vários modelos indicam que poupança das famílias nos EUA não está negativo”, diz.

Olhando para frente

Segundo Campos Neto, o mercado ainda não está em consenso sobre a trajetória dos juros nos EUA. Parte dos investidores acreditam em mais uma elevação, mais provavelmente em dezembro, enquanto outra parte acredita que o ciclo de altas já se encerrou.

A inflação enquanto fenômeno brasileiro e global

“A alta de juros, por aqui, foi mais rápida e mais intensa, e por isso a inflação no mundo em desenvolvimento já dá sinais importantes de arrefecimento”, afirmou, no evento Reflexões sobre o Cenário Macroeconômico Brasileiro, promovido pelo Bora e pelo Estadão.

Em seu painel, o presidente do BCB, Roberto Campos Neto, explicou que a inflação brasileira acompanha os movimentos globais e, às vezes, se move por dinâmicas internas próprias. Ele justifica o apontamento com fatores políticos no País e geopolíticos do restante do mundo, dada a abertura comercial do Brasil que varia com o tempo.

Ele exemplifica: entre 2013 e 2015, o Brasil teve uma inflação descolada do restante do mundo, com maior aumento de preços por aqui que no restante do mundo. Agora, entretanto, o cenário é diferente: a inflação brasileira é mais branda que o das outras nações, ao passo que a desinflação daqui foi uma das primeiras a se consolidar.

Para que o cenário de inflação dentro da meta se mantenha, Campos Neto enfatizou a importância de responsabilidade no campo fiscal. “Há várias medidas para serem aprovadas no Congresso, o governo tem mostrado grande esforço, e sei que cortar gastos é sempre mais difícil na prática. Nosso orçamento é muito rígido. Mas enfatizamos bastante que é importante não mudar a meta. Uma vez criado o arcabouço, a importância de segui-lo”.

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